Ne sequaris in script

3 Omnia cinis aequat.


Notas iniciais
Dedicado aos amigos que perdi

Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.

–William Shakespeare

Peço perdão a todos pela demora ao postar outro relato. Estamos em uma guerra, todos nós, quer estejamos vivos ou não. Quer saibamos da guerra ou não. Mas, diferentemente do resto do mundo, eu sou um soldado, eu luto.

E em toda luta, há perdas...


Eu perdi irmãos e amigos hoje. Os "Outros" encontraram nosso esconderijo, e... Melhor eu relatar realmente como uma história de ficção, não acham? Afinal de contas é exatamente isso que vocês acham que é esta história, uma ficção. Até os que conhecem o "real autor"acham que é uma simples história saída do puro éter e do simples devaneio...

...

Não haviam descoberto ainda seu esconderijo. Até agora aquela casa abandonada em uma rua movimentada do Rio havia servido para eles. Mas algo estava fora do lugar. As coisas não estavam como deveriam ser, e era isso que Nythéz pensava enquanto afiava sua adaga. Ela era adornada por símbolos de uma época desconhecida para a maioria dos homens. Nem os ditos sábios sabiam o que eles significavam, e nem o grande poder que ela continha. Mas Nythéz sabia, afinal, ele esteve nessa época...

Vezãb também estava inquieto, recitando algum Salmo aleatório sobre proteção. Ele andava de um lado para o outro, fazendo as tábuas do chão da casa abandonada rangerem, o que só piorava ainda mais a ansiedade de todos. O suor pingava de seu rosto e caia no chão, fazendo pequenos círculos no empoeirado carvalho. Algo residia no peito dos que estavam naquela casa caindo aos pedaços. Era algo negro e cheio de temor. Um segredo cheio de sangue e morte. Um segredo do fim, e o motivo deles estarem lá, escondidos.

Ruáfxor estava sentada em posição de lótus com os olhos fechados, encima de um colchão surrado, mas limpo que se encontrava lá. Tentava ver o que ainda não havia sido revelado. Tentando ver se aquele dia seria o de sua morte.

Os três, Vezãb, Nythéz e Ruáfxor sentiam a presença Deles chegando. Nenhuma proteção mágica, nenhum símbolo, nem toda a sorte do mundo poderia mantê-los fora dali. Sempre caçados pelos Outros. Pelos Malditos.

Nythéz fitou a adaga recém-afiada com a certeza de que a usaria esta noite. Não havia mais como correr. Ela era fria e pesada em suas mãos, mas confortável. Havia sido feita sob medida para ele.

Encheu os pulmões de ar com solenidade e soltou-o pela boca. Sentindo a cada segundo o peso da eternidade. Suas mãos nuas cheias de marcas de correntes e cortes estavam calejadas de tantas lutas em que tivera que lutar em sua vida. Não via a hora de poder descansar...

Ruáfxor levantou abriu os olhos com pesar, sabendo que este dia seria manchado com sangue. Vezãb, então, passou uma das mãos no cabelo loiro de Ruáfxor e a abraçou, talvez nunca a veria novamente. Nythéz permaneceu imóvel, tenso com a ideia de nunca mais vê-los.

Lágrimas rolaram pelo rosto de Ruáfxor. Os olhos de Vezãb também estavam cheios de lágrimas, mas nenhuma delas saiu de seus olhos. Ele permaneceria forte. Por ela.

–Vai ficar tudo bem — Mentiu, Vezãb.

Estava chegando a hora, e todos sabiam. Eles logo viriam.

Vezãb soltou Ruáfxor, enquanto ela secava as lágrimas dos olhos e pegou o anel de prata que estava em cima da mesa de centro da casa caindo aos pedaços. O anel brilhava como se fosse feito de um pedaço de estrela. Talvez realmente fosse. Colocou-o no dedo anelar da mão esquerda e o beijou para dar sorte.

Ruáfxor não tinha armas, mas não significava que estava indefesa. Levantou-se e puxou as mangas do casaco, revelando longas tatuagens de correntes que envolviam seus braços como cobras enroscando-se em um galho de árvore.

Nythéz também se levantou do chão sujo da casa, segurando firmemente sua adaga sagrada. Ela tinha um brilho prateado e puro, como a Lua Inalcançável que está no Coração do Primeiro. Seu poder o ajudaria a se defender dos Malditos que logo chegariam, mas seria o suficiente para conseguir proteger as pessoas que amava?

Olhou envolta, vendo o rosto apreensivo de seu irmão, reparando no medo em seus olhos. Medo de não ser forte o suficiente para salvá-los. Para salvá-la...

Uma hora se passou, duas, três, até que se ouvisse passos do lado de fora da casa. A respiração de todos cessou por meio segundo. A pausa entre uma batida de um coração e outra, como uma cesura.

Em seus peitos os corações pareciam explodir de ansiedade.

Sacaram suas armas. Nythéz trouxe a adaga até os lábios, onde pronunciou palavras incompreensíveis. Foi então que a sala ficou de alguma forma mais iluminada, como se uma luz de lugar nenhum tivesse surgido, mas não era uma luz boa. Era a luz de um raio devastador de uma tempestade que viria destruir o mundo. Era a luz da adaga de Nythéz.

Vezãb beijou o anel pela última vez e ficou em guarda com os punhos levantados. O ar do quarto ficou então mais pesado e denso para qualquer outra criatura, menos para eles. Um tipo de distorção surgiu envolta dos punhos de Vezãb, como se fossem auréolas de santos envolta de suas mãos. Mas aquelas auréolas poderiam destruir tudo em seu caminho...

Ruáfxor fez o ambiente ficar infernalmente quente, para qualquer um, enquanto suas tatuagens brilhavam com um brilho de uma chama tentadora. O brilho tentador do fogo para a mariposa.

E mesmo com tudo aquilo, Nythéz sabia que não seriam pareis para o que viria. Tentar atingir a vitória ali sem nenhum sacrifício seria o mesmo intento da raposa ao tentar alcançar as uvas que estão no alto de uma árvore. Raposa... Nythéz sorriu com a lembrança do velho nome que receberá no deserto há centenas e centenas de anos. Era bom se lembrar do passado ao se deparar com um futuro tão sombrio...

Seu sorriso se desfez quando o dono dos passos abriu a porta. Era um dos Outros.

Não havia mais como voltar atrás. Não havia mais como fugir.

Foi um caos depois daquilo. Raios para todos os lados. Chamas e labaredas sendo lançadas. Socos, chutes.

Reviravoltas. Sangue. Ansiedade. Suor. Sangue. Desespero. Sangue. Medo. Sangue. Morte. Sangue. Sangue. Sangue...

Escuridão.

Quando Nythéz abriu os olhos, ficou paralisado. Ruáfxor estava caída no chão. Morta. Com uma espada cravada no peito, enquanto Vezãb golpeava o Maldito com todas as forças, que cambaleava, mas não caía. Ele era forte, não era um comum. Fora claramente treinado para não morrer facilmente. Isso era um problema.

Foi então que aconteceu... O Maldito segurou Vezãb pelo pescoço, e com displicência perfurou seu peito com o punho.

Nythéz urrou de ódio, enquanto seu irmão caía no chão, semivivo.

Levantou-se rapidamente e cortou a garganta de seu inimigo com uma precisão quase cirúrgica e com o ódio de um homem que perdeu tudo.

O corpo do Maldito caiu ao lado do de seu irmão, um fim quase poético para um ser tão maligno...

Nythéz se ajoelhou perto de Vezãb, que disse três palavras. Suas últimas.

Nythéz balbuciou algo para o irmão, que o interrompeu, botando a mão na frente de sua boca. Não havia necessidades para ele dizer algo. Não havia necessidade para lamentos. Tinham vivido demais, ele sabia disso. Seu irmão simplesmente iria primeiro que ele. Agora a única preocupação dele deveria ser chegar a salvo para junto de seus outros irmãos de armas. A mão de Vezãb despencou no chão, ele fitava a esposa um momento antes do fim, e então o brilho fugiu de seus olhos. Nythéz sabia que não podia chorar, que devia continuar lutando, finalizar a missão, que não podia...

Mas, por um segundo, permitiu-se ao luto.

Assinado: Nythéz

Notas finais
"Lembre-se de mim."
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.