Naya II: Valerian

3 O Sabor da Liberdade


Notas iniciais
Naya *--*

Já se passaram três anos. Tanta coisa mudou que é até difícil de acreditar! Nem sei pra onde ir nisso de diário, vamos lá então...

Posso começar dizendo que contos de fadas são reais. Eu não costumava acreditar naquelas historinhas utópicas de “tudo tem um final feliz”. Os antigos costumam contá-las para nos inspirar a acreditar que no futuro tudo pode melhorar. Mas acho que toda lenda tem um fundo de verdade, não é mesmo?

Bem, desde que eu decidi ficar em Pandora, meu mundo virou de cabeça pra baixo. Eu não conhecia absolutamente ninguém além do Ariel, até ele me apresentar melhor a Alice e outros amigos. Nos tornamos ótimas amigas nesses anos. A ruiva simpatizou muito com minha prima quando ela estava aqui, mas é uma pena que não tenhamos recebido nenhuma visita até agora...

Eu e o Ariel ficamos numa situação engraçada naquelas primeiras semanas. Claro, eu escolhi ficar aqui por causa dele, mas nós sabíamos que tudo tinha acontecido muito rápido. Tanto eu quanto ele começamos nossa história juntos desde então, só que bem mais devagar... Chamaria de um estado de amizade transborda, ou como dizem por aqui, “amizade colorida”. Nada sério demais até confirmar que ninguém tinha se precipitado.

Por sorte, a Alice existe nesse mundo. Achei que seria muito estranho demais ficar na casa do Ariel desde aquele dia. Ele ofereceu, mas já pensou o que o pai dele ia pensar de mim? Definitivamente não daria certo. Mas por outro lado, eu também não tinha dinheiro nenhum pra nada. Então, a ruiva morava num apartamento na orla e me convidou pra ficar junto dela e outra amiga, a Mirela Nihmer. Por tudo que é mais mágico nesse mundo, como alguém consegue gostar tanto de matemática como essa garota?! A “Mi” é bem mais reservada que o resto das pessoas que conheci por aqui. Antissocial talvez. Viciada em trabalho? Com certeza! Nunca vi gente que achasse tão bom viver o dia todo nesse mundo das engenharias. Nós não somos o que se pode chamar de “amigas”, mas eu teria coragem de acenar pra ela na rua... Talvez.

Enfim diário, só posso dizer que aqueles 5 primeiros meses foram ótimos. Infelizmente, como nem tudo são flores, o Adan continua o mesmo pé no saco de sempre. Mas nós evoluímos muito desde então. Agora a gente consegue fingir conversar como pessoas civilizadas. Já é um começo, né? Só não entendo como alguém tão mentecapto pode ser o melhor amigo do Ariel... Difícil de entender uma coisa dessas. Bilhões de pessoas no mundo pra fazer amizade, mas não. Não... Só amigo não... Tinha que ser o melhor amigo. Eu mereço uma coisa dessas... Vamos para outro assunto antes que eu comece a te rasgar com essa caneta, certo amiguinho?

Demorei um pouco para me acostumar com todo esse calor, areia e umidade, mas depois de um tempo, quem é que não amaria essa vida zen perto do oceano? Em Lumot os Elvellon têm tudo isso e mais nas propriedades reais, só éramos proibidos de entrar. Questão de segurança e imagem pública, eles diziam. Não sabem o que estão perdendo.

A praia, a água, a comida... Ah, a comida... Pelos céus, como ela é boa. Alguns temperos parecem com os magicalianos, mas quase tudo é diferente além dos condimentos. Camarão, carne de canceronte, atum, ostras, água de coco... Tanta coisa nova! Era divertido sair com os amigos pra vários restaurantes, barraquinhas ou simplesmente esperar vendedores ambulantes na busca por coisas saborosas. Fora as alergias e infecções alimentares, valeu muito a pena! Só de recordar as caminhadas sem rumo pela praia bate uma saudade, mas quando lembro da minha língua inchada depois de um pacotinho de amendoins, ela passa...

Então, durante esses meses de adaptação ao que chamam de modo de vida nimphoniano, eu aprendi muita coisa nova. Tenho que admitir: eu achava que tinha a cabeça aberta, mas como estava enganada... Mudar de continente causa um choque cultural pesado na gente. Por exemplo, o jeito que eles encaram a vida é um pouco diferente do valeriano. Lá nós valorizávamos bastante o conhecimento: estudar, trabalhar, progredir. Agregar valor ao indivíduo. A palavra da ordem aqui é outra: aproveitar. E a verdade seja dita: os silfos não são lá os maiores trabalhadores do mundo, mas em Valerian, tudo é regido na base de metas e muito esforço. Aqui não. O povo trabalha, mas a maioria dedica algumas horas por dia para colher os frutos desses esforços.

É interessante. Conciliar prazer pessoal com seu amor pela terra. O Ariel me disse que a maioria dos reinos em Nimphos tenta evitar a ganância, o acúmulo exagerado de riquezas. O motivo? Sabedoria. Os povos que aqui habitavam antes da chegada das fadas existiam em equilíbrio com o ambiente. Seja nas montanhas, florestas, nos campos ou desertos: a Mãe-Terra empresta seus recursos e, no final de suas vidas, todos se unem à genetriz que os nutriu. Infelizmente, o impacto da colonização afetou profundamente a harmonia que reinava aqui, milênios atrás. Mas a luta para reconquistá-la está de pé, isso é certo. Eu acho bonita a visão deles: progredir, mas preservar.

No reino rubro, desenvolvimento significa controle. Ter o natural sob domínio do arcano e usá-lo como bem entendermos. Claro, é mais seguro poder regular a vida e a morte por nós mesmos, mas agora eu me pergunto se é correto. Os espíritos têm essa função aqui, como em Lumine e no País do Fogo. Talvez meu povo esteja tomando uma liberdade que não lhes caiba. Brincando com forças que não compreendem...

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“Liberdade”. Aqui eles levam essa palavra a um nível extraordinário. Praticamente tudo o que você imaginar é permitido, em doses diferentes, claro. Seja no gosto pelo consumo de álcool ou alucinógenos: para qualquer item você tem um lugar de venda especializada. O Governo Central regula com força o consumo desse tipo de coisa. Ainda bem, se não acabaria em bagunça...

Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi em relação aos casais. Em quase toda Magicália só se vê silfo com fada e elfo com elfa pelas ruas. Aqui não. Não importa a raça nem o sexo. Onde existe amor é dada a permissão para que ele aconteça. Eu fiquei simplesmente atônita no início. Como assim? Isso tudo existe e não afeta a ordem social? Pior, como Valerian conseguia ser o reino mais antigo do Mundo Mágico e ter uma legislação tão burra? Confesso: é estranho no começo ver dois elfos de mãos dadas ou uma ninfa e uma sereia trocando carícias pelas ruas. Mas depois que você percebe que simplesmente amor é amor, nada mais importa. Ninguém se incomoda o suficiente para julgar questões raciais ou sexuais. Estão ocupados demais amando uns aos outros. Seja você um humano ou um anão, mesmo um vampiro ou quem sabe até uma medusa: não existe fronteira que barre um casal apaixonado.

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Depois de nos firmarmos definitivamente como um casal em setembro daquele ano, nós finalmente decidimos que estava na hora de morar juntos. Experimentar esse novo passo foi muito interessante. Pude conhecer cada vez mais meu namorado. Passar mais tempo juntos, sair, brigar, namorar... Tudo muito novo para mim, bem animador. O Ariel pode ser avoado e rápido com as palavras, mas se existe uma coisa que faz parte dele é a paciência. Ele me esperou e respeitou meus tempos e limites. Isso me ajudou com os passos que daríamos futuramente.

Primeiro me mudei para a casa dele. Não deu muito certo. Ah, diário... Eu sou claustrofóbica mesmo, pronto. Falei. A casa era muito pequena pra 3 pessoas.

Continuamos no Camélias inicialmente, mas numa casa só nossa. Ai sim! Tudo ia a mil maravilhas: compramos a mobília (sim, eu trabalho agora), decoramos e nos mudamos. O Ariel não achou a melhor ideia do mundo sair da casa do pai, mas depois que viu o espaço pra montar um laboratório só pra ele, acabou. No final, recebemos a carta.

O selo real da lua crescente. Sinandrin nos enviou um recado: eu deveria me mudar de Lunara o quanto antes. Ela, como sempre, econômica com as palavras, não deu motivo nem disse pra onde. Nada. Mostrei a carta ao Ariel, para ter certeza da veridicidade. Ele só disse que deveria ser realmente importante: a rainha estava ordenando. Com certeza haveria um motivo para isso.

Seguindo o conselho régio, decidimos sair de Lunara o mais rápido possível. Depois de resolver as pendências na cidade, escolhemos ir para a província de Thoria. Graças a gentileza do Sr. Maelthor, que nos presenteou com um chalé na cidade de Islian, tudo correu rapidamente bem. A mudança foi brusca: da praia para as montanhas. O local é famoso pela mineração nos montes fronteiriços com a república de Metrópolis. Isso dá uma ideia do quão rica é a região. Ouro, ferro, arcanite: daquela terra tudo brota.

Sinceramente, eu gostei muito: centros litorâneos são perigosos e barulhentos, quando se compara com a atmosfera interiorana das montanhas. Talvez o espírito praieiro pandoriano atraia as pessoas para o mar, mas por algum motivo, Islian é pouco populosa. Se comparado aos 200.000 de Lunara, os 30.000 daqui não são nada. Eu acho isso bom. Em cidades pequenas tudo é mais conectado. Todo mundo se conhece e ninguém tolera o desrespeito. Fora o fato de não ter como comprar algumas coisas por aqui, a cidadezinha é perfeita. O povo, a arquitetura, o clima. Ah, o clima...

O frio das alturas. Eu já tinha até esquecido como era a sensação de um friozinho gostoso. Além de ser ótimo pra tomar um chocolate quente e ficar agarradinho, o clima montanheiro deixa tudo mais bonito. Como não amar acordar todos os dias com um nevoeiro fresquinho batendo a sua porta? Simplesmente perfeito. Lunara tem suas belezas, fato. Mas Thoria me agrada mais. A paisagem, a constância do clima, o silêncio: uma combinação que une o belo ao agradável. O rio Inore, que corre próximo ao nosso chalé, é o único responsável por sonoridade, normalmente. Através do canto dos pássaros e o zunir dos insetos, a natureza reina.

Como nós não moramos muito perto do centro da cidade, mas na zona rural, nossa vida perdeu um pouco daquela agitação que Lunara nos dava. O chamado “Espírito Humano”. Voltamos a ser um pouco mais fada e elfo, dois vidas-longas. Fazer tudo um pouco mais devagar, aproveitar o tempo, a paisagem, a vida. Não lembrava mais como é bom ficar uma tarde inteira tomando banho ou mesmo só em casa. O destino havia nos presenteado com tempo para viver um pouco de tudo, não havia motivo algum para deixar de aproveitar. Fosse ler um bom livro em frente a lareira ou explorar esse novo lugar que chamaríamos de casa.

Primeiramente, descobrimos que nosso terreno era maior do que imaginávamos. Havia praticamente um bosque particular! Não lembro quantas vezes já agradeci ao sogro, mas foi muito bom ter esse local para fazer de templo. Desde Valerian eu sempre amei passear pelas florestas. Isso me ajuda a lembrar do passado e manter viva algumas memórias.

Minha mãe, meu pai, Adna... Tive que abrir mão de muitas coisas para conseguir minha verdadeira felicidade. O que me conforta é saber que eles me apoiariam se soubessem como estou bem. Então... além do bosque, havia bastante terra sobrando. O Ariel pensou que poderíamos cultivar alguns alimentos. A ideia foi genial, pois além disso, pedimos para construírem uma estufa, onde mantemos várias ervas e flores. Tanto ajuda ele a produzir reagentes para a venda de poções, como se tornou um lugar agradável tanto para os olhos quanto para o nariz.

Não bastasse apenas a localização perfeita dessa joia escondida, as pessoas que vivem aqui são muito gentis. Já nos levaram para ver as grutas, os picos nevados e as falésias. A maioria do pessoal é elfo. Isso ajudou o Ariel a se sentir em casa mais rapidamente. Fiquei com muito feliz com isso: ele também precisou abrir mão de muito da vida dele para tudo dar certo.

Falando em casa, elas são bem diferentes por aqui. A nossa é esculpida quase toda em madeira. Portas e janelas de cristal verde combinando com o teto gramado (seria um pouco problemático se não fosse a magia de controle vegetal, mas os arquitetos pensaram mesmo em tudo). Da varanda vemos o Inore fluir, já do quintal, avistamos o Bosque dos Cânticos Relentos. Tudo por aqui é pequeno: as casas (nada de prédios altos, proibidos por lei), os bairros, o centro: definitivamente é uma cidade-jardim fofa.

Desde que nos mudamos não tive contato com Valerian. Por algum motivo, Adna não responde aos meus chamados. Espero que ela não esteja com raiva de mim... Sinandrin me aconselhou evitar o máximo possível qualquer comunicação com os rubros, só que a saudade as vezes bate forte. Mas acho que o que importa é que estamos vivendo bem. Os problemas aparecem de vez em quando, mas nada que juntos não possamos fazer. Claro, é impossível ter o luxo que eu tinha antes, mas isso pouco me importa. A prima é que não conseguiria viver aqui com certeza...

Não demorou muito para nos adaptarmos ao ritmo da cidade. O Ariel abriu uma filial da Loja de Alquimia Maelthor e eu trabalho agora como ajudante de professora numa escola de magia para adolescentes É divertido! Posso ensinar para eles assim como Thargon ensinou para mim e ainda aproveito para praticar diariamente minha magia. Em casa eu sempre reservo uma ou duas horas diárias para meditar e desenvolver meus poderes: não podemos enferrujar, não é mesmo?

Aos poucos, conquistamos com esforço o que precisamos e nos tornamos donos de nossas próprias vidas. Acho que não vou me acostumar tão cedo a escrever nesse diário, então, até qualquer outro dia! Naya Elvellon

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.