Naya: Crônicas de Atlas

16 Capítulo X: Destino.


Assim como se lembrava, ao entrar na loja ouviu o sino soar e uma voz rouca e idosa já conhecida a recebendo:

‒ Bom dia Alice! Veio ver o Ariel?

‒ Bom dia Sr. Maelthor, isso mesmo. Ele está?

‒ Sim, no quarto dele. É bom que um de seus amigos tenha vindo visitá-lo, ele não me parecia muito bem hoje pela manhã, pediu para tirar o dia de folga. Acho que está adoentado. – Exclamava alto o homem de audição já desgastada, enquanto checava minuciosamente a qualidade do piso novo a pouco reparado pelos magos elementais, dando permissão a ela para ir de seu modo típico: sequer olhava aos olhos da pessoa com quem conversava, continuando a cumprir seus serviços enquanto empurrava os óculos de alto grau de volta ao topo do nariz, indicando o andar superior com a mão.

Ao subir, apressada, viu que a porta do quarto do elfo estava entreaberta, mas não entrou. Olhando de fora, sorrateiramente, escondida pela cortina translúcida que embaçava a visão, viu Ariel deitado na cama. Mirando o olhar dentre as brechas do tecido, percebeu que ele estava de olhos fechados. Não deveria estar dormindo, ao menos não parecia. Claramente ele não havia notado a chegada da moça, que em circunstâncias normais seria flagrada a dezenas de metros de distância pela audição élfica.

Seus punhos estavam cerrados, contraídos com uma força enorme, fazendo seus braços visivelmente tremerem. Alice cerrava os olhos para focar sua visão e tinha a impressão de que um pouco mais de força fariam suas palmas sangrarem. Mesmo que ela entrasse, provavelmente ele não perceberia. Parecia tão concentrado em seus pensamentos que levava a duvidar se ele estava mesmo acordado como pensara. Nem os “clacks” do salto agulha que Ariel tanto se irritava a cômodos de distância pareciam perturbá-lo nesse santuário de pensamentos.

‒ Olá? Posso entrar?

Ariel virou a cabeça e abriu os olhos rapidamente, um pouco assustado, por não dever esperar chamado algum, muito menos de uma voz feminina. No instante em que reconheceu a ruiva, já sem expressar nenhuma surpresa, voltou seu olhar para o teto, levando os braços cruzados sob a cabeça, tentando frustradamente mostrar-se mais relaxado. Estaria convincente se seus olhos não expressassem o vazio de alguém que estava de luto. Um olhar indigno até de refugiados de guerra que sobreviveram ao enquanto viam suas famílias mortas por templários durante os expurgos em Lumine.

‒ Claro Alice, entre. Algum problema?

Ariel conseguira desviar o olhar, mas sua voz titubeara antes que pudesse perceber ou controlar.

‒ Comigo? Não. Mas com você... – Falou docemente enquanto se aproximava, sentando próxima a ele, acariciando a cabeleira azul do elfo como se falasse com uma criança emburrada. Uma tentativa frustrada de Alice de tentar transformar aquela melancolia que pairava no ar em irritação. – Por que está tão pensativo?

‒ Você pergunta como se já não soubesse. – Ariel a conhecia. Percebeu pelo modo de falar pausado que ela já tinha ciência de tudo.

Não se daria o trabalho de contar o que acontecera, muito menos correria o risco de se mostrar fraco. “Isso tudo é uma droga”. Há apenas alguns dias sequer conhecia Naya e agora estava remoendo todos os bons e poucos momentos que tivera ao seu lado, como se realmente tivessem significado algo. As décadas de vida que tivera até agora pareciam não significar nada. Cada palavra poderia ter um significado escondido? Talvez, mas a mente mortal tinha maestria sobre a arte em entender significados indevidos em palavras pronunciadas com a mais pura inocência, por isso não se dava o trabalho de tentar se enganar.

Poderia até chamar de típicas as situações quando ouvia da boca de seus amigos como o amor, ou talvez a paixão, consistia num sentimento tão agridoce, tão detestavelmente prazeroso. “Tolos”, pensava. Não se pode haver satisfação com a dor e o sofrimento. Mas, agora que estava passando pelo que todos proferiam acontecer um dia, mais cedo ou mais tarde, e, eram recebidos com gargalhadas, entendia facilmente. A simples ideia de haver uma possibilidade de alegria, um final feliz, bastava para seu coração continuar batendo. Mas ao mesmo tempo em que sentia isso, uma insana vontade de se jogar na frente de um trem tomava seu corpo e mente, apenas desejando acabar com essa doce agonia.

‒ Esperto como sempre. Vou direto ao ponto, acho que você deveria falar com a Naya.

‒ Ela não quer, eu tentei ontem e acabou nisso.

‒ Então tente de novo!

‒ Não vai adiantar. ‒ Afirma, seguro de que sua amiga insistia numa busca inútil.

Silêncio.

Alice soca a cama com força, desviando o foco de Ariel do teto para sua indignação fervente. Sua paciência havia acabado. Já havia gasto toda a cortesia com as fadas, não tinha tempo a perder com graciosidade quando podia estar numa luta contra o tempo. Seu rosto que raramente abandonava a gentileza enchia-se de raiva. Irava-se com a atitude indiferente e estúpida do elfo:

‒ Mas então é isso? Você vai largar tudo só porque uma coisa deu errado?

‒ Por que você se importa tanto afinal? ‒ Resmungou, apoiando-se em seus antebraços para mirar os olhos de Alice com firmeza. A voz do elfo soava incisiva, mas sua dúvida e tom confundiam-se assim como sua mente agora e durante a noite mais longa e miserável que passara em sua vida.

‒ Você é meu amigo, nos conhecemos há sete anos, caramba! Eu sei que você está jogando fora a sua oportunidade de ser feliz. – Segurando uma das mãos do elfo, Alice fitava-o cheia de expectativa, pausando num suspiro, ao colher absolutamente nada.

Voltando sua atenção para o nada, a ruiva riu. Estava lembrando de um fato de anos atrás:

‒ Lembra daquela vez que você me chamou pra sair e eu disse não?

‒ Você não está ajudando, Alice ‒ Murmurou ele, debruçando-se para o outro lado, envergonhado daquela cena.

‒ Lembra?

‒ Claro que sim! ‒ Respondeu, irritado e amargo.

‒ O que eu te disse naquele dia?

Ariel pôs-se a pensar, mesmo desejando esquecer para sempre aquela época. Havia alguns anos que essa cena ridícula acontecera. Engraçado como uma pergunta conseguia reviver tantas memórias.

Aquele tinha sido um ano difícil. Lunara havia sofrido com uma das inconstâncias do clima. Tufões arrasaram a cidade, deixando para trás escombros, morte e dor. Dezenas, talvez centenas levados para a tutela de Pandora, encontrando seus ancestrais no firmamento estrelado. No final, ninguém jamais sucumbia. Todos ajudaram a reconstruir a cidade e, com a volta da bonança, cada um podia dar a importância devida para seus problemas pessoais. E esses já se multiplicavam rápido.

Aos poucos, as lembranças daquele Carnaval das Máscaras voltavam como num fluxo de pensamento, e ele recitou:

‒ Eu acho que você está se precipitando, Ariel. Você acabou de sair de um relacionamento frustrado e acha que vai consertar ficando comigo. É melhor não nos iludirmos. Você sabe que eu estou certa. ‒ Caçoava ele, afinando a voz para imitar e irritar a amiga, que ria e espancava o elfo com o travesseiro.

‒ Seu idiota... O meu ponto é que naquele vez não era o momento certo. Nós dois sabíamos disso. Mas, agora é diferente. Escute seu coração e você vai perceber que seu destino é agora. ‒ Completava ela, depositando a mão dele em seu próprio coração.

A angústia havia se mostrado uma bruma de dúvidas e incertezas. Alice tentava guiá-lo como um farol numa noite de tormentas, levá-lo para um porto seguro. Enquanto lutasse contra isso, permaneceria cada vez mais profundamente nessa escuridão. Tudo ficava mais claro. Ela que estava a sua frente não era sua luz, mas tentava conduzi-lo até a fonte.

Naya, essa era a pessoa que por um momento trouxera de volta cores para sua vida, a alegria e a paixão, não apenas uma simples euforia passageira. Personagens que passam por sua vida apenas por passar não são capazes de abalar um coração simplesmente por nada, a final, o destino não fazia nada de propósito. Aventuras são momentâneas, amores não. Para tudo havia uma razão, uma causa e uma consequência. Não poderia lutar contra esse sentimento, deveria enfrentar o mundo por ele. Por ela.

A humana havia-o despertado de volta à realidade: precisava tentar mais uma vez e outras mil se fosse necessário. De todas as pessoas, ela estava interessada em sua felicidade... Ele precisava apenas saber onde Naya se encontrava para tentar fazê-la mudar de ideia. Sua determinação recentemente destruída pela fada havia sido renovada pelas palavras de Alice.

Havia passado por sua cabeça que talvez seu destino não fosse lutar pela fada, mas mesmo que a natureza ou o universo se opusessem a sua felicidade, valeria a pena lutar por um propósito escrito com o sangue que derramaria em sua luta. Banhado com as gotas de suor que pingariam de seu corpo, frutos do trabalho árduo. Talvez o termo “destino” não fosse algo imutável e determinado como sempre achara durante sua vida: o mundo está cheio de possibilidades e aventuras esperando para serem conquistados pelos mais ousados. Alice continuava falando palavras de convencimento, mas Ariel apenas conseguia pensar que morreria se continuasse parado lá.

‒ Onde ela está ag...

‒ Espere... – Alice estava ouvindo algo em sua mente. Uma mensagem telepática.

“Olá, sei que não poderá responder, mas sou eu, Adna. Desculpe-me por me despedir dessa maneira, mas minha prima quer voltar o quanto antes a Valerian. Saímos do Repouso Lunar há algum tempo e estamos indo para a entrada da cidade. Não se sinta obrigada a vir, deixei no quarto em que eu estava um espelho encantado, assim poderemos manter contato. Até mais!”

‒ Você precisa ir! Agora! – Gritava Alice, expulsando Ariel da cama, derrubando tudo, travesseiros, cobertas e pessoas.

‒ O que aconteceu?!

‒ Ela está indo embora, você não tem muito tempo. Estão a caminho da Praça Sinândrica, se já não tiverem chegado!

Os dois desceram as escadarias. Apressados, quase atropelaram o pai de Ariel, que varria o chão tranquilamente, irando-se por terem pisado e espalhado seu montinho de sujeira novamente pela loja, tão arduamente retirado das prateleiras. Quando saíram, se depararam com algo típico, mas totalmente inconveniente para o momento: trânsito congestionado do festival.

‒ É uma hora e meia de caminhada daqui até a entrada... – Falou Alice desanimada. – Não vamos chegar a tempo...

‒ O jeito vai ser correr então! – Ariel disparou. Não queria perder um único segundo, pois não tinha noção de quanto tempo tinha, só sabia que não podia desperdiçar.

Alice permaneceu lá, rezando para que se alguma divindade estivesse olhando através desse mundo, que ajudasse Ariel agora. Olhava para o horizonte, já vendo o corpo do elfo sumir dentre as centenas de pessoas que ocupavam as calçadas e ruas de Lunara. Fez o que tinha de fazer, agora o que quer acontecesse, sua presença não se fazia mais necessária. Apenas lhe restava torcer.

–

Estava na hora de voltar. Naya apenas queria ir para casa e esquecer tudo o que havia acontecido, ou pelo menos pensava que isso era o melhor a fazer. Passava por sua cabeça que talvez o mundo de aventuras que havia sonhado não fosse como pensava. Havia muito mais intensidade que o mostrado pelas histórias escutadas. Palavras não traziam à tona as verdades e os sentimentos apenas presenciados por aqueles que de fato estavam lá, vivendo a história real. Já vira pessoas que tiveram seus corpos marcados pelas batalhas do mundo, mas nunca lhe disseram que seu coração também poderia ser dilacerado. A vida em Valerian era mais segura das chamas desse mundo de emoções.

Andando num silêncio fúnebre ao lado de Adna, as duas chegaram à praça onde se encontrava a estátua do Espírito da Lua, local indicado por Sinandrin para esperarem. Era simplesmente uma droga voltar deprimida para casa, quanto esperava voltar renovada para os próximos meses de aula. Pensar que teria de suportar Melith e a maioria de seus outros professores ainda era desanimador, mas a isso que pertenceria sua devoção nos próximos anos, quisesse ou não.

As duas sentaram-se num dos vários bancos a disposição. Embora houvesse movimentação de automóveis e pessoas nos arredores, o silêncio imperava no imaginário das duas: em Naya devido à ansiedade, já em Adna pela impaciência.

Vinte minutos se passaram até que as fadas perceberam. Uma luminescência etérea estava surgindo ao redor do monumento. O poder mágico familiar da feiticeira tomava toda a praça. Aos poucos, a imagem de Sinandrin se formava, translúcida e azulada. Ninguém sequer parava para ver o espetáculo macabro de fumaça e luzes avermelhadas: Adna suspeitava que apenas os escolhidos conseguiam ver a feitiçaria.

A praça tomara um aspecto sombrio mais que de repente, como se uma majestosa lua cheia tivesse tomado o lugar do sol que brilhava forte, eclipsando-o. As duas sentiam frio percorrer por seus corpos, mas imaginavam ser apenas uma ilusão causada pelo espírito poderoso da rainha de Pandora.

‒ Olá garotas. Preparadas para voltar? ‒ A voz da soberana soava maliciosamente doce.

‒ Sim. – Apenas Adna respondeu, convicta.

‒ Muito bem. Abrirei o portal em instantes.

O avatar da elfa começou o ritual. Diferente da primeira vez, quando havia usado o espelho gélido como intermediário, agora seria preciso sustentar o portal por conta própria. Não era uma tarefa difícil para alguém de seu nível, mas a distância tornava o trabalho hercúleo até para o mais poderoso mago. Movimentando os dedos e proferindo palavras em élfico arcaico, Sinandrin tecia o portal suspenso no ar, criando pouco a pouco uma imagem instável do reino rubro.

‒ Vamos.

Embora visse projetada a imagem de Valerian, Naya sentiu receio por um momento, diferente de sua prima que entrara sem demora. “Não há mais motivos para permanecer sonhando, está na hora de acordar”.

‒ Naya! Espere!

Estava pronta para entrar, quando ouviu gritarem por seu nome. Era Ariel. “O que ele faz aqui?”. Ele se aproximava correndo enquanto limpava com os braços o suor que escorria pelo rosto. Parado frente à fada, estava ofegante e cansado pelos quilômetros percorridos. Por um instante, os dois trocaram olhares. Ele sorria, embora nitidamente exausto, estava aliviado por chegar a tempo. Ela estava surpresa: não esperava mais vê-lo nessa vida.

‒ Por favor... Não vá. – Ariel suplicava ofegante, tentando controlar a respiração acelerada.

‒ Eu tenho que ir, aqui não é o meu lugar.

‒ Você está certa. Lunara pode não ser o seu lugar, mas Valerian também não é.

Naya não discordou, mas também não deu razão. Ela não via mais a terra das fadas do mesmo modo, pois sabia que quando voltasse, todas as obrigações e expectativas estariam a sua espera. Quase tudo o que considerava bom estaria novamente na lista proibida. Não era a vida que desejava para si, embora fosse a opção mais segura, onde conseguia ver seu futuro além das barreiras do tempo. Lá, vivia sem domínio sobre sua própria realidade e apenas existia por um propósito: manter o reinado da família Elvellon.

‒ Você é uma garota especial, muito mais que uma simples princesa. Nesses últimos dias, nessas últimas horas ficou claro pra mim. – O elfo continuou, segurando as mãos da fada. – Mas se você acha que deve ir, apenas olhe nos meus olhos e me diga que não quer ficar, que seu destino é ser rainha dos silfos.

Não. Ela não queria ir. Ariel estava fazendo-a ouvir seus sentimentos claramente como nunca. O olhar azul, as mãos tocando-a como se fossem um só. Naya não reconhecia mais Valerian como sua casa, seu coração não estava mais lá. Ele pertencia ao elfo que lhe mostrara a felicidade nas pequenas coisas, como numa simples dança ou refeição. O elfo que estava lutando pela pessoa que ela era e não por quem ela viria a ser. Tornava-se estranho olhar no fundo dos olhos daquele homem e ver que ele era tudo o que precisava para ser feliz. Abandonando a expressão séria no decorrer dessa epifania, a fada sorria, iluminada:

‒ Meu destino é você.

Ariel explodiu de felicidade, beijando-a muito mais apaixonadamente que na primeira vez. Não estava acreditando que ela o havia escolhido.

Escorriam lágrimas de alegria pelo rosto de Naya. Finalmente havia se libertado de todos os fardos que tornavam sua vida sem cor e ainda encontrara aquele que fazia seu mundo mais bonito. Ela sabia que se fosse junto dele, o resto não importava mais. Sem mais correntes ou empecilhos: finalmente livre.

Abraçados, Ariel sussurrou em seu ouvido:

‒ Juntos?

‒ Para sempre.

Sinandrin assistia tudo. Tocada, o que raramente acontecia, a rainha odiou interromper o momento, mas não teve escolha. Não aguentaria manter a estabilidade do portal por mais tempo:

‒ Naya, então você ficará, correto?

‒Com certeza. – Dizia ela, entrelaçando seus dedos com os de Ariel.

‒ Sabe que mesmo contra minha vontade, terei que informar a seus pais em alguns dias?

‒ Sei. Mas poderia não dizer exatamente onde estou?

‒ Farei o que estiver ao meu alcance e a manterei informada do que acontecer.

‒ Obrigada Sinandrin. Você é uma amiga magnífica.

A majestade arqueou um belo e agradecido sorriso emoldurado por seus fartos e vermelhos lábios:

‒ Irei agora. Desejo toda a felicidade do mundo a vocês. Desfrutem desse amor o máximo possível enquanto ainda são jovens. Adeus meus amigos.

A feiticeira dissipava o portal enquanto Ariel e Naya se despediam. Quando o avatar também desapareceu, deu-se o início de uma nova etapa para ambos. Uma vida em que compartilhariam o caminho a ser percorrido. Uma estrada que seus destinos estavam agora entrelaçados. Uma vida de felicidade e amor.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!