Natureza Sombria
2 Capítulo 2
Notas iniciais
— Jovem-Mestre Eli! — falou e vi meu chefe cair de joelhos, próximo de mim, ele nem sequer me olhava, como se eu fosse um trapo velho ou algo que não valia a pena gastar saliva.
— É assim que você trata seus funcionários? Agredindo-os? — O questionou com desdém na voz e repúdio, como se fosse uma repreensão.
Eu tossia, tentei ficar de pé por um segundo, mas o velho chefe me botou pra baixo e, ainda por cima, de joelhos ao seu lado como um servente rebelde.
— Não! Ela não é minha funcionária! Só deixei ela trabalhar aqui em troco de alguns frenesis! Veja! Ela nem conhece os costumes do povo de Filadélfia, meu senhor...
— E mesmo assim, você a estrangulou? Por ela ser diferente do povo local? — a raiva estava estampada na voz de Eli, engraçado que parecia ser jovem, mas não era de um moço adulto, suspeito...
— N-nada disso, senhor! — gaguejou temendo o pior pelo o que parecia, grandes sombras estavam ao nosso redor e pensei que uma delas poderia ser ele.
— Sara me disse que, você, estava se dando bem com os negócios, mas eu chego aqui e vejo a vontade de matar estampada na sua cara. — Eu sorri naquele momento, não deveria, mas sorri, aquele velho nojento, talvez, ia receber o que merecia. Não era já primeira vez que ele fazia isso comigo.
— Senhor, eu fiz bem com os negócios, mas essa delinquente aqui só quer saber de dinheiro para gastar com... — ele tentou se justificar, mas foi subitamente calado com uma espada que pairava sobre sua garganta.
— Não brinque com a vida Ruan... — disse secamente, ouvi o chefe engolir em seco. Finalmente, não aguentei mais e encarei meu "salvador". Não acreditei quando vi com quem estávamos lidando.
— Sim, mestre...
— Isso. Você deve saber que, só eu posso brincar com ela...
Talvez eu deva ter parecido idiota naquele momento, mas que se dane! Eu sei que não podia falar naquele momento tão crucial, mas sei que minha cara estava estampada "divertimento e confusão", então eu apenas disse:
— É brincadeira, não é? — sussurrei, mas ele estava próximo de mim então me ouviu, quando ele me encarou é como se eu tivesse sido tomada por um instante. Os olhos claros me envolvi de uma forma assustadora como se mãos fantasmagóricas me envolvessem e sufocasse, eu sei, é loucura, mas a sensação é esmagadora assim. O incrível é que conheço esse olhar, já senti uma vez, não é muito legal quando se é criança, mas não digo mais isso, porque uma criança está me dando aquele olhar assassino.
— Ora essa... — falou com um sorriso que não era nada inocente. — Ela fala!
Eu dei um meio sorriso pra ele, estava começando a me sentir presa ali, como se algo realmente me segurasse. Eli não havia retirado a espada do pescoço de Ruan, só quando percebeu que apertara demais a lâmina ele recuou um passo com um pouco do sangue do Chefe Balofo pingando de sua espada.
Eli me encarava e depois o velho balofo, parece que ele estava achando aquilo muito interessante.
— Como pôde maltratar uma jovem tão bonita como essa Sr. Ruan?
— Ee-u não sei Mestre, só sei que ela deve ter me enfeitiçado a fazer isso. — disse e quando ouvi aquilo, eu me levantei e dei um soco na cara daquele velho maltrapilho.
— Como ousa dizer que eu te enfeiticei seu porco nojento!- falei e senti Eli me segurar. — Me solta garoto!
— Queria, mas você não pode atrapalhar meu julgamento no momento... — falou com um ar de sabedoria, minha expressão mostrou graça naquela frase.
Meu Deus, ele é uma criança! Crianças não falam desse jeito, crianças não tomam decisões e nem dizem quando ou como alguém deve ser castigado, crianças não mandam!
Quando eu o empurrei pro lado, notei que tínhamos a mesma altura. Ele deveria ter o quê? 14? 15 anos? Ele parecia ser um menino mimado, mas com um bom porte e olhos bonitos também...
Elisa Monique! Ele é uma criança, você não pode admirar alguém agora ainda mais nesse momento...
— Diga-me... — ele falava comigo e eu olhava para seu guarda-costas gigante com um terno preto e um lenço no bolso branco. Agora que notei, Eli também usava a mesma roupa, mas o dele era uma gravata branca.
— Sim? — falei com estresse.
— Quantos anos?
— 21. Por que todo mundo quer saber? — perguntei, era chato aquilo, porque não apenas conversam, sempre parecem querer saber mais sobre minha vida...
— Porque você chama atenção... — falou. Eu arregalei os olhos e voltei minha cabeça pra ele. Como é que é? Ok, fiquei até corada com aquilo, mas o que posso fazer, é verdade.
— Jovem-Mestre! — falou o gorducho, sua boca estava inchada. — Não escute essa raça desprezível e manipuladora!
— Fala isso de novo seu porco imundo! — avisei rosnando, eu não sou escandalosa, gosto de manter o tom ameaçador, isso sempre fez as pessoas hesitarem antes de tentar me tocarem.
Nesse momento, Eli estava me encarando, mas piscou assim que ouviu o "basta!" de Ruan. Novamente, suas mãos se fecharam em minha garganta e tentei chutar ele e consegui acertar bem no esterno, onde fica nossos cartão-de-acesso. Ele caiu tossindo, não perdi tempo e chutei seu maxilar, mas ele desviou.
— Acha mesmo que vai me derrubar tão fácil? — perguntou se erguendo novamente, Eli só observava o homem com desdém. — Você me chama de "imundo", mas não foi minha raça que destruiu o conceito de "ser humano", não é Elisa?! — ele pegou o meu rosto e pôs no chão com força, mas só foi suficiente pra ficar tonta, ele não me mataria na frente de Eli.
— Agora entendi... — falou de repente Eli com um sorriso relaxado.
— Entendeu? Entendeu, não é Mestre?! — falou animado e intimidador tanto pra mim, quanto pra Eli.
Ele me pegou pela nuca dessa vez, me levantando até Eli que me observava, minha bochecha estava com um corte e meu sangue mudado geneticamente se mostrava diante deles dois.
— Mestre Eli! Veja! — falou ansioso e acusador. Eu odeio esse imbecil. — A raça desprezível, ela tem mesmo o sangue. — Me aproximou mais ainda do menino que observava minhas reações atento, mas parecendo decepcionado. — Talvez, o senhor, nunca tenha visto um deles tão de perto assim...
Eu não aguentava mais de dor, uma lágrima até escorreu pela minha bochecha fria, estava me sentindo arrebentada. Mas ainda podia correr, como Ruan me segurou sem por muita força, foi fácil escapar das mãos gigantes dele, o melhor ainda foi eu ter aproveitado e chutado sua parte íntima.
Naturalmente, ele se contorceu de dor no chão, como se ele tivesse perdido até a noção das coisas, eu fiz jus com meu pé de quebrar a mandíbula dele, mas hesitei. Lembrei de Malcolm e em como as coisas estavam mal aqui no bar em questão financeira, talvez o dinheiro seja mandado pra ele, pra Eli. Peguei minha mochila e passei correndo ao lado de Eli, a última coisa que vi foi o jovem moço esboçar um sorriso maléfico pra mim, dali pra frente, soube que havia sido marcada.
A neve caía como sempre caiu na Filadélfia, passei correndo pelas estradas vazias com medo de ser perseguida, estava um caco, mas precisava correr, voltar pra onde eu residia.
Espero nunca mais encontrá-lo, nenhum dos dois. Claro, naquele instante aquilo foi minha carta de demissão, e tudo por vir de uma raça diferente da... Deles. Pensei, mas parei pra observar a neve como caía dando mais volume as ruas.
Sim, eu venho de uma raça que ninguém imaginaria que um dia poderia existir e, realmente está sendo extinta. Somos assim, como eu sou, humana por fora, estranha por dentro. Temos os mesmos órgãos, mas a maioria de nós cresceu com um estômago... Diferente. E, portanto, estamos sendo basicamente extintos.
De acordo com os livros de história enquanto eu estudava (antes de ter caído fora da escola – depois eu conto em detalhes o motivo), li que haviam animais terrestres, aquáticos e animais que dominavam os céus, alguns carnívoros e outros herbívoros. Eles foram ameaçados e, no fim, extintos completamente depois da Grande Guerra em 2021. Acharam os destroços do gás que fez milhões de animais comerem uns aos outros, enlouquecendo a mente deles, os menores — acho que se chamavam “roedores”, morreram de imediato. Porém aqueles que sobreviverem depois do chamado: “Carnificina Selvagem”, os que restaram haviam sido transportados para ver se existia uma cura dentro dos exames que eram feitos, e pelo visto, não salvou um da morte.
"Ainda bem que foram só os animais."- É o que todos achavam...
Até que em 2050 foi descoberto que, centenas de pessoas, estavam praticando o canibalismo nas suas casas e fazendas por encontrarem 5 corpos em cada casa, o mais irônico é que era apenas em um país...
E na minha cidade, terrivelmente, foi uma da qual tinha sido contaminada, juntamente com os outros habitantes, esse tipo de coisa não se pega, apenas nasce ou morre com isso dentro, não é passado pra qualquer um, isso se baseia no tipo de sangue que é da pessoa. Mais grosso? Mais fino? Nossa característica é por nosso sangue ser um vermelho tão claro que parece foi tingido com tinta branca. O mais cômico é que, ninguém suspeitava do país mais civilizado, organizado e bonito, o Canadá.
Até que, após várias coisas e experiências e mortes acontecerem para que atualmente, minha raça esteja á beira da extinção. Não comemos carne humana há 300 anos, sim, é um tanto de tempo sim...
Porém, há milhares de seres humanos que nos infernizam, no noticiário que aparece na High Diary (jornal local) e o U.P.S — Universal Program States – Programa Universal dos Estados (noticiário que passa em todo lugar), parece que, estamos diminuindo ainda mais com esses ataques.
Um deles mataram meus pais e meu irmão de 8 anos... Não tenho mais ninguém, só eu e Deus agora pra prosseguir e sobreviver.
Com o pouco que ganho, é difícil manter um apartamento, antes, agora eu durmo na cama de um hotel. Pago cinco vezes no mês. O hotel é pequeno e o quarto só tem minha cama e um Sistema do UPS em HD que em todo lugar é obrigatório ter um.
Na época eu lembro que chamavam de Televisão, certo? T.V? Agora chamamos de System Advancer, mais conhecido como SAV. Sim, também prefiro “TV”.
Subi os degraus e vi uma empregada me olhar com desprezo. Como se ela limpasse minhas coisas... Abri a porta do cubículo e disse:
— Cheguei em... – ia falar “casa”, mas aquilo poderia ser considerado uma casa? Um lar? Acho que não...
Faz anos...
Anos que estou fora desta dimensão perigosa e estranha. Já catei peças no meio do caminho e vendi para ganhar alguns frenesis. Consegui um pouco de dinheiro suficiente pra poder comprar comida pra mim, de momento, preciso de um emprego.
Joguei minha mochila cheia de peças na cama e pulei nela, eu quase a quebrei, mas dá um desconto... Estou cansada desse dia. Infelizmente, quando fechei meus olhos pra um cochilo antes do banho. A SAV liga sozinha e sou obrigada a assistir o comercial “Mundo Perfeito” antes do noticiário.
Odiei. Odeio. Sempre vou odiar esse comercial, mostram pessoas de diferentes etnias se ajudando e coparticipando daquilo que chamam de Império, maldita hora que inventaram isso. É onde nosso Vice-Rei mora e faz suas leis e interpreta as estrelas.
Que diabos de estrelas?! O que é uma também?
Bem, eu não faço idéia, mas deve ter vários Frenesis nelas, já que é a única coisa que vejo ele ter dessas estrelas. Milhões de Frenesis...
Quando começou o noticiário eu não aguentei e apaguei. Foi mal caras, depois eu pago a multa. Depois eu explico numa próxima a parte em que sai da escola e também sobre nossas identidades.
Consegui apagar, mas eu não abri meus olhos, senti algo enquanto sonhava...
—---------------------------- N$ ---Era como se eu sentisse a cama debaixo de mim, mas algo mais estava naquele quarto. Eu podia sentir uma brisa fresca e algo caloroso me cobria, não era cobertor e o pior é que não conseguia abrir os olhos ou movimentar minha mão para ver o que era. Algo quente e bom me preenchia e em um breve momento eu podia me sentir viva. Como se minhas energias haviam sido recuperadas, de repente era como se algo se aproximasse de mim e ficasse sobre meu rosto, então meu braço se estendeu automaticamente pra tocar o mistério que me cobria, ele expirou tão fundo que senti seu hálito no meu rosto, aquilo era um animal? Mas eu acordei e vi meu braço erguido pro teto. O alarme do meu cartão de acesso que eu mesma consegui programar, não sabem o quão complicado foi.
—-------------------------------------N$-----O céu iluminava meu quarto enquanto sua luz escondida atrás das nuvens nem tentava me querer ver. Havia comprado um espelho pra mim e quando me vi, não acreditei no que vi:
Sardas! E voltei a ter sardas! No nariz ainda! Sou humana então.
Tenho a etnia e características humanas ainda. Que bom...
— Ufa, graças à Deus... – falei suspirando aliviada, mas animada
Eu amo minhas sardas, mas quando começaram a desaparecer eu comecei a pirar e chorar, sim, eu chorei muito.
Fui tomar um banho rápido e preciso pra poder reviver um pouco a manhã enquanto podia.
Peguei uma toalha e entrei no chuveiro, meu Deus, água fria é terrível. Encarei envolta de mim e vi que alguma hora vai ficar quente – não apago minhas esperanças quase que, está bem... Tem dias como esse que é quase impossível.
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