Nature Human
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Embora eu possa considerar DARK!FIC, essa one é mais leve e se passa por volta do século XIX sem tantas formalidades ou diferenças históricas.
Boa Leitura!
XDD
A todo o momento ele podia ouvir a mulher gritar e gemer de dor do quarto que antes dividiam e que agora ela o posava sozinha. Os lençóis precisavam ser constantemente trocados e o cômodo fedia. Era insuportável ficar em casa por muito tempo, a doença parecia ter se alastrado por todos os cantos. Passara até mesmo mais do que semanas sem ir para casa, quando não estava trabalhando estava enfiado nas tabernas e prostíbulos. Os amigos de seu irmão o reprovavam severamente. O próprio há muito não vivia para o dizer qualquer coisa a respeito. Dele sobrara apenas a macabra ausência e a mulher que deveria o pertencer agora infectando a cama de Sasuke.
Itachi e Izumi Uchiha, a esposa enferma, pelo grau de parentesco foram criados juntos. Pelo laço que estabeleceram durante a infância e a adolescência, seus pais concluíram que juntos, eram o par perfeito para servirem de pilar ao plano que preservava a “autenticidade” do clã.
Forasteiros nunca foram bem vindos à família, e dividir com outros se não um puro Uchiha a glória e a fortuna que sustentavam era inadmissível.
Eram muito jovens quando foram prometido um ao outro. Itachi alguns anos mais velho e eternamente um prodígio, viajava a Europa a fim de aprender com os melhores. No tempo em que a maior preocupação da mãe de Izumi era quando o dia em que a filha se tornaria mulher havia de chegar. Muitas das amigas de Izumi e da mesma idade que ela a muito já haviam se tornado mocinhas. E o trato era muito claro, não teria casamento se a garota não fosse capaz de dar continuação à linhagem.
A cada dia de espera era uma pura agonia. Izumi mantinha uma rotina persistente de orações, nas quais pedia pelo momento que finalmente teria certeza de seu casamento com Itachi. E que a partir de então, seriam uma só carne e gerariam frutos. Sem dúvidas alguma a menina amava seu noivo. Ansiava por uma vida ao lado dele que somente a morte era capaz de destruir. Exatamente o que aconteceu mesmo antes dos tantos planos serem consumados.
Dias antes de Itachi embarcar no navio de volta a Inglaterra, recebera um telegrama de seu pai que devia voltar para casa por que agora sua noiva, uma mulher, o esperava para subir ao altar. O navio afundou em meio à tempestade levando a vida do prodígio.
A dor da perda fora mascarada por aqueles típicos rostos inexpressivos dos Uchiha. A morte um acontecimento natural fora aceita e aqueles que desconheciam seu destino seguiram a vida.
Sasuke e Izumi foram os únicos a sentirem tanto. Apáticos à proposta de casamento que os envolvia, novamente sugerida por seus velhos pais.
Encontravam-se tão imersos pela própria tristeza que se deram conta de que rumo tomara as suas vidas apenas quando já dividiam a mesma casa, o mesmo quarto e nunca usufruíram da cama em que dormiam no papel de marido e mulher.
Suas peles se repeliam e seus corações pertenciam a outro alguém. Compartilhavam somente o pesar.
E pelo pesar, depois de muito tempo, tentaram começar do zero como recém-casados. Na lua de mel definitiva tudo deu errado. Não se atraíam não se encaixavam. Seus beijos eram o encontro de bocas ocas. Seus toques eram mecânicos e seus olhos vazios.
Muitas vezes como essas se repetiram. E após todas elas Sasuke podia ouvir Izumi chorar do banheiro. Sabia muito bem que não era quem ela gostaria de se entregar de corpo e alma. Embora agora transmitisse a ideia que seu corpo já não mais abrigasse alma alguma. Como também, não era com ela que ele gostaria de desfrutar o prazer e a paixão.
O coração e o prazer de Sasuke pertenciam ao homem com quem cresceu. Mais tarde separados por culpa de suas perversidades. Seu casamento com Izumi não era tão somente um gesto de compromisso para com a família da moça e mesmo Itachi, mas a sua chance de conversão como acreditavam seus pais.
Conforme o tempo se passava e a saudade do irmão e do homem que amava aumentava, crescendo no peito, parecendo matar o que havia de bom em si, — tal como o altruísmo e a decência. — Mais se distanciava de Izumi, afetado pelo conceito pessoal e crítico a seu respeito.
Por conta de um pensamento sem nexo que passara por sua cabeça em um momento aleatório, em que os seus sentidos procuravam alguém para se responsabilizar pela fatalidade, Izumi pareceu merecedora a toda a culpa. A culpada pela morte de Itachi que se não tivesse embarcado antes do previsto, nunca teria caído numa armadilha do destino. Também responsável por impedi-lo de chegar até Naruto com quem seu coração estava.
Seu desprezo para com Izumi só fazia aumentar a cada dia que se passava.
A indiferença do caçula Uchiha pela própria mulher fora notado por terceiros logo quando a doença começou a se manifestar. Não fazia questão de estar presente nas consultas médicas e muito menos procurava saber a respeito dos laudos. O muito que fazia era deixar o dinheiro necessário para os remédios e para as despesas da casa quando inventava de passar alguns dias fora.
Seu destino certo era a casa de Suigetsu, o filho único de um bancário. Foram apresentados por Orochimaru, antigo professor e mentor de Sasuke. Durante o jantar certo interesse misturado à curiosidade se estendeu entre o platinado e o homem casado.
Mais tarde quando passaram a se envolver, deve-se dizer que se entregaram aquela aventura não tão somente por pura atração como também pelo prazer doentio de desfrutarem de suas vis juventude no tempo que outro alguém próximo e tão jovem quanto era pouco a pouco consumido pela morte. Pensavam estar a fazer um favor a Izumi ao se regozijarem com prazeres mundanos dos quais ela nunca haveria de provar. Deliciavam-se por ela e por si mesmos, pois a vida — compreendiam — é imprevisível. Nunca se sabe quando seu último suspiro será tragado pela morte, então deve vive-la intensamente.
Ao chegar a casa deparou-se com um carro elétrico estacionado do lado de fora. Hidekazu, o mordomo, o informou que Kakashi o esperava no escritório e que a senhora Hatake ao lado de um amigo faziam companhia a Izumi.
Ainda por cima do desprezo com a mulher, sentiu-se contrariado de ter as portas de sua casa abertas para qualquer um. Caminhou até o escritório vendo Kakashi fechar o livro que folheava ao notar sua presença.
— Suponho que não sabe de quem um andar o separa. Se fosse o caso, faria um esforço para estar ao lado de Izumi.
Sasuke o encarou com ares de indiferença, desfazendo-se do nó da gravata.
— Deixe os sermões para mais tarde. De qualquer forma não há ninguém que eu queira ver.
— Se é o que estás dizendo. Sakura tomou a liberdade de dar ordens a casa e pedir o café. — Informou Kakashi se sentando numa das poltronas.
— É o que ela tem feito com você desde que se casaram. Dar-te ordens. — Apesar das palavras ríspidas a frase de Sasuke sustentava um tom de provocação.
— O casamento pode ser uma benção para uns e uma maldição para outros.
Kakashi o respondeu com feições amigáveis. Fechando os olhos ao sorrir por trás da máscara. O homem não poderia estar mais feliz com o seu casamento ou ter dito algo tão preciso sobre o assunto, pensou Sasuke.
Logo Hidekazu bateu a porta dizendo que Sakura o esperavam para o café. Encontraram com a mulher e o visitante aos pés de um grande retrato de Itachi exposto na sala. Ambos falavam do homem como se o conhecessem muito bem. Acontecia que ninguém jamais conheceu o primogênito Uchiha em sua pura essência. Por isso Sasuke pensava que ninguém possuía o direito de falar ou pensar em Itachi por que ao fazerem pareciam estar diminuindo a imagem de alguém tão importante.
Sasuke pode sentir os braços de Sakura o cercar pelo cumprimento, mas não teve certeza de estar firme ao chão quando os olhos de tom azul céu do visitante o envolveu. Olhos cansados de quem passou por alguns bons vendavais até chegar ali.
— Usuratonkachi
— Também é um prazer revê-lo, Teme. Acredite. — Naruto sorriu ao responder o estendendo a mão.
— Bem Sasuke, eu queria ficássemos em seu jardim, mas o tempo é de chuva então pedi para Hidekazu nos servir aqui mesmo. Não iremos demorar muito. — Sakura dizia puxando Sasuke para que se sentasse com Kakashi e Naruto logo a trás. — Mais tarde iremos ao teatro.
A careta retraída que Naruto fez ao ouvir a palavra “teatro” não passou despercebida por Sakura.
— Não faça essa cara, Naruto. Não estou te obrigando a ir, se quiser fique com Sasuke e o faça companhia.
A ideia pareceu satisfatória visto que Naruto logo a aceitou.
— Se não for problema para Sasuke. — Lembrou Kakashi.
— Tudo bem. Não sairei mais hoje.
— Poderá ir para nossa casa quanto sentir vontade, Naruto. Chegaremos por volta das onze.
Os orbes negros de Sasuke analisaram o semblante cansado do loiro. Estava tão quieto. Em nada lembrava o garoto que Sasuke conheceu se não pelos olhos brilhantes que sustentavam certa esperança.
— Está somente de passagem?
— Sim. Voltarei em poucos dias mesmo querendo ficar aqui. Mudar-me-ei em breve assim que organizar a papelada. Aquele lugar não é o mesmo sem Jiraya.
— Sinto muito por sua perda.
— Também sinto por Itachi.
De frente um para o outro se olhavam de maneira que a presença de mais ninguém pudesse ser notada. Em meio ao silêncio compartilhavam de um entendimento que jamais poderia ser tão bem expresso com palavras. Necessário de ser vivido para ser compreendido.
— Está na nossa hora Sakura. Vamos? — Disse Kakashi.
Sakura desconfiada os analisou antes de se levantar concordando em ir embora. Não houve desculpas para que o casal ficasse nem tampouco cerimônias para que os dois homens se abraçassem apertado quando as sós no escritório. Tentando exprimir o peso que carregavam no peito.
Fora Sasuke quem partiu o abraço buscando ver o rosto do outro a meia luz — e o quão bonito ele ficava.
— Me desculpa por não ter mais mantido contato. Depois que se mudou com Izumi decidi não arriscar seu casamento. Assim me esqueceria.
Discordando das intenções de Naruto, Sasuke o puxou para si com certa brutalidade encostando suas testas.
— Se tivesse me contatado eu não teria me arriscado a te esquecer.
O loiro sorriu com as palavras não segurando a vontade de beija-lo. O coração de ambos irradiou no peito contagiando todo o corpo. Guiando o beijo com certa brutalidade. Envolvidos pela ansiedade de terem mais um do outro.
As mãos de Naruto percorriam as costas do moreno o trazendo para mais perto. Quando bateram na parede e Sasuke desceu a destra da nuca do mais novo à coxa, esse partiu o beijo pedindo em meio à respiração falha que esperasse.
Os olhos ônix do Uchiha pairavam despreocupados sobre a expressão de lábios entre abertos e as bochechas de rosadas Naruto enquanto puxava o ar ao dizer fechando os olhos.
— Eu te amo Sasuke, mas não podemos fazer isso com Izumi.
Tais palavras atingiram o homem em cheio. Era a coisa mais absurda que já tinha ouvido. Não acreditava que Naruto o negaria por culpa de Izumi.
— Não faça isso. Não diga que não me quer. — Murmurou escondendo a cabeça entre a curva do pescoço.
— Eu te quero, mas não posso te ter enquanto estiver com Izumi. Agora ela precisa mais de você do que eu.
O caçula Uchiha não podia aceitar ter seu sonho escapando entre os seus dedos. Era loucura acreditar estar num momento como aquele com Naruto. Depois de tantos anos tentando matar os seus sentimentos até acreditar que nunca mais conseguiria sentir nada por ninguém depois que os separaram que não poderia aceitar perder o homem mais uma vez. Tantos anos afastados sem nem mesmo manterem contato devido às circunstâncias para a vida dar essa guinada e voltarem à estaca zero.
A mão de Sasuke voltou a amparar a mão do loiro sussurrando em seu ouvido.
— Não faça assim.
— Desculpa Sasuke. Eu não posso fazer isso.
Nada faria aquele nato cabeça dura voltar a trás com sua decisão. O moreno sabia e por isso nem mesmo tentou fazer com que ficasse quando o afastou para ir embora.
— Espero que me perdoe. Eu irei espera-lo.
Fora o que Naruto disse antes de sair, mas Sasuke o deu as costas. Não olharia nos olhos pela raiva e a fraqueza que escorria por sua face. Depois de tantos se prestava a chorar.
O sentimento tristeza é de uma áurea negra que parece enterrar o homem dentro de si mesmo ainda vivo. Já o ódio é um sentimento tão poderoso que parece acordar todos os demônios trancados no mais íntimo do ser humano. Trazendo a tona uma força imensurável uma loucura incontrolável. Vivificando uma natureza morta que jamais se manifestaria se não estivesse desde a criação enraizada.
Em passos cautelosos como de um felino se dirigiu até o quarto da mulher. Parando a sua cama na qual descansava serena. Limpa e enfim sem dores. Melhorara afinal.
O marido encontrava na esposa a razão para todas as suas desgraças e canalizava nela toda a sua maldade.
Tomado pelo ódio ao ponto de se tornar insensível aos próprios sentidos. As mãos ainda que em movimento, pareciam paralisadas. Do barulho lá fora não se ouvia nada, se não seu próprio sangue pulsar e correr por todo o corpo. Gritando aos seus ouvidos ao clamar pela glória. Contento no peito um turbilhão de emoções nunca antes provadas no mesmo instante. Como a raiva e a felicidade. Tão enérgico ao ponto de ser incapaz de manter o raciocínio.
Pelo ódio que sentia do homem que amava ter sido tomado de si, tomou da mulher que não o pertencia o último fôlego de vida a sufocando com o travesseiro. Seu corpo por instinto tentou se defender na hora que notou estar sendo violado, mas pela doença que a arrastava durante os dias não lhe restava mais forças. Para Sasuke, não havia nada mais justo que Izumi pagar com a vida tudo o que lhe roubou. O causando um prazer indizível ao agoniar até a morte.
Um prazer que somente o homem é capaz de sentir. O único animal ensinado a matar os seus instintos e que de tão poderoso precisa ser educado para viver em sociedade. Por que o mesmo homem que cria os seus deuses, semeia a maldade que está no mundo. A maldade provém do homem e faz parte da sua natureza.
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