Natural Disaster
25 Capítulo 25 - Por que Catherine Bellini?
Notas iniciais
– Não vai vir de taxi nada, Cath. Eu peço para o motorista te buscar e não aceito um não como resposta. – Derick disse ao telefone enquanto terminava de se arrumar. – Tá chovendo pra caramba e quero que você chegue sã e salva aqui, não vou deixar que a chuva estrague sua chapinha. – Brincou.
– Chapinha!? – Cath disse indignada. – Não preciso disso, meu querido! Mas não agüento mais essas chuvas, sou pobre e tenho que andar na maioria das vezes, sempre chego toda desgrenhada!
– Se você é assim desgrenhada, imagina só arrumadinha... Aí que eu não vou agüentar mesmo! – Os dois riram. – Vem logo! Depois que você chegar aqui, vou torcer para a rua virar um rio de tão alagada e você ai terá que dormir aqui. – Derick disse com uma voz sedutora. – No meu quarto. Na minha cama. Comigo.
– Para de me fazer pensar besteira... – Catherine disse com a voz baixa e trêmula. – Eu amo tanto você. Seria perfeito, mas eu morreria de vergonha dos seus pais.
– Eu te amo mais, Cath. Vem logo, vem.
Os dois se despediram carinhosamente e Derick imediatamente pediu a seu motorista que buscasse Catherine e sua sogra. Olhou pela porta de vidro da varanda, chovia tanto, fazia tanto frio. O barulho do vento o fazia lembrar a todo instante de que Catherine havia se entregado a ele, não era um sonho, havia sido mesmo real.
O garoto então entrou em seu quarto para terminar de se arrumar. O ensaio havia sido cansativo, mas Derick estava tão empolgado com o jantar que nem podia sentir direito seu ombro esquerdo doendo por conta do peso de sua guitarra. Estava vestido com uma calça de brim preta, uma camisa social de manga comprida azul escura, um coturno e seus braceletes de couro nos pulsos. Ele se olhava no espelho, queria estar bem para ela.
– Derick, será que a gente pode conversar enquanto sua namorada e a mãe dela não chegam? – Disse Ralf abrindo lentamente a porta do quarto do filho mais velho.
– É claro que pode, pai. – O pai se sentou então na poltrona do quarto do filho. – O que foi?
– Você me pediu isso aqui faz pouco tempo, mas foi só oferecer uma quantia mais atraente que os meus advogados já conseguiram tudo. – O pai entregou um envelope ao filho. – Eu já abri, não agüentei esperar. Filho, aí tem muito mais do que você pediu.
– Eu descobri coisas piores, pai. Sabia que havia algo estranho, mas não que eram coisas horríveis como as que ela me contou, talvez seja isso que eles descobriram também.
– Não sei se é exatamente do que você está falando. Leia. – Derick respirou fundo, com medo do conteúdo daquele envelope e o abriu.
– Tantas páginas pai... — Ele foi folheando. – Tô ficando assustado. – O pai puxou o envelope de volta.
– Eu quero ler, pai! Que isso!? Você não trouxe para eu ler? – Derick o olhou assustado.
– Leia isso depois do jantar, não sei onde estava com a cabeça quando trouxe isso aqui agora... – O homem ficou nervoso.
– Eu preciso ler isso pai, eu não agüento mais... Eu já sou um homem, eu agüento o que for!
– Antes me responda sinceramente garoto... Por que Catherine Bellini? Por que não qualquer outra garota menos complicada? Tem certeza de que quer se meter nisso?
Essa garota já sofreu tanto, se isso for só um passa-tempo para você, pare agora, não a machuque mais do que...- Derick puxou o envelope da mão do pai.
– Por que Lilian Garrett, pai? Por que se apaixonar por uma menina órfã, totalmente perdida em uma grande metrópole, que vivia em um cortiço dos mais insalubres da cidade? Por que insistir em ajudá-la a estudar, a crescer na vida, a descobrir habilidades que ela nem sabia que tinha? Quem diria que hoje aquela “pobre coitada” seria a distinta Sra. Becker, uma das mais respeitadas advogadas do país, minha mãe... Por que a complicada Catherine Bellini? Como tem coragem de me perguntar isso, pai? Você sabe mais do que ninguém que o amor não enxerga as circunstâncias, o amor enxerga a pessoa, como ela é lá no fundo da alma. – Ralf se emocionou com tudo que o filho havia dito. Realmente, nada importa quando se ama alguém verdadeiramente, ele sabia disso, havia enfrentado o mundo para que Lilian tivesse o respeito que merecia. – Eu amo a Cath, pai. Eu amo. O que estiver escrito nesse dossiê não vai mudar isso.
– É tão estranho te ouvir falar que ama alguém, Derick. Você sempre foi tão fugaz nos relacionamentos, não parava com uma só... Mas eu sinto que algo mudou dentro de você, está virando um homem de verdade, meu filho. – Derick riu do sentimentalismo do pai.
– Você nunca fala essas coisas, soa até engraçado pai! – O pai acabou rindo também, tirando a tensão que aquele assunto apresentava. – Engraçado que quem vê de fora até pensa que nós queremos ser os heróis das mocinhas sofridas. Elas sofreram mais do que a gente, mas elas é que nos salvaram. Catherine me salva todos os dias, me faz ser grato por tudo de bom que a vida me ofereceu, me faz sentir vontade de viver e melhorar como ser humano... Me salva de mim mesmo, das minhas fraquezas...
– E a sua mãe me fez existir. Me fez não apenas sonhar, mas realizar tudo... E me deu meus filhos...
– Agora chega pai, se não eu que vou começar a chorar aqui! – Derick deu um abraço forte em Ralf. – Eu preciso saber o que tem nesses documentos, eu preciso. – O garoto se sentou então na cama e começou a lê-los.
“ 18 de agosto de 2004 – Mulher e criança de 10 anos são encontradas agredidas no porão de uma casa na zona norte;
20 de agosto de 2004 – Homem mantinha filha e mulher em um porão durante sete meses;
20 de agosto de 2004 – Mãe e filha encontradas no porão permanecem em estado grave e terão de passar por cirurgias;
23 de agosto de 2004 – Permanece foragido Ernesto Bellini, acusado de agressão, abuso sexual e de manter em cárcere filha e esposa;
24 de agosto de 2004 – Polícia descobre que psicopata drogava filha e esposa, além de submetê-las a diversos tipos de tortura;
24 de agosto de 2004 – Mulher já havia denunciado Ernesto Bellini por agressão 14 vezes;
25 de agosto de 2004 – Mãe havia se mudado para outra cidade com a filha por conta das constantes ameaças que sofria do marido.
03 de outubro de 2004 – Mãe e filha vítimas do psicopata Ernesto Bellini têm alta do hospital
17 de dezembro de 2004 – Ernesto Bellini permanece foragido e valor da recompensa para quem encontrar seu paradeiro triplica”.
Derick leu as manchetes e seu coração sentiu uma dor horrível, era ódio que sentia naquele momento, apenas um ódio tão intenso que precisava respirar fundo várias vezes e se recompor antes de conseguir prosseguir lendo. Olhou as fotos que estavam anexadas às reportagens. Eram devastadoras.
Os olhos de Catherine estavam tapados por uma tarja preta, afinal, era apenas uma criança, mas estava irreconhecível, tantos roxos que estava praticamente desfigurada. Tanto ela quanto Helena, era impressionante a crueldade de Ernesto.
– Não! – Derick chutou a porta de seu armário com força. – Eu vou matar esse homem! Eu vou MATAR esse homem, você está me ouvindo pai?
– Calma, meu filho. – O pai o abraçou. – Você precisa ser forte. Você era só uma criança quando isso tudo aconteceu. O nome da mulher e da criança não haviam sido divulgados na época para não expô-las.
– Mas o sobrenome do maldito do pai dela...Você reconheceu, não foi? – O garoto chorava desesperadamente. – Ontem, eu vi que ela tem uma cicatriz pequena no pescoço...Por que ele fez isso? Por que ela me escondeu isso!? Por que ela me disse outras coisas e não contou tudo!?
– Eu logo relacionei, pois me lembrei do caso. Foi muito famoso na época e chocou todo o país. No entanto, era só um sobrenome, poderia ser apenas uma coincidência. Nada que bons advogados e detetives não pudessem esclarecer com facilidade. – Derick molhara a camisa do pai com suas lágrimas. – Imagine o quanto deve ser dolorosa essa história toda pra ela... Meu filho, eu deveria ter te mostrado isso em outra hora, foi uma imbecilidade te mostrar agora. Me perdoa..
– Não. – Derick secou as lágrimas. – Foi no momento certo... Eu vou ficar bem por ela, vou recebê-la com um sorriso no rosto... Eu vou cuidar da Cath.
O garoto podia ter dito isso, mas estava muito abalado. Lavou o rosto, tentou se acalmar e ficou olhando da janela do quarto para o jardim, esperando Catherine. Exatamente vinte minutos depois viu o carro dos Becker entrando pelos portões da mansão. Desceu correndo as escadas e ficou em pé próximo à porta, que a empregada abriu prontamente.
– Cath... – Derick abraçou a namorada. Foi um abraço apertado, desesperado.
– Derick... – Catherine sorriu e logo recebeu um beijo nos lábios.
Todos então se cumprimentaram gentilmente. Sentaram se na mesa para jantar enquanto as empregadas os serviam. Enquanto saboreavam a tão refinada culinária francesa todos conversavam e interagiam, exceto Derick, que parecia agoniado. Catherine logo notou a inquietude do namorado.
– O que houve com você? Por que está tão nervoso? – Ela sussurrou no ouvido do garoto.
– Você me ama, Cath? – Os olhos de Derick estavam cheios de lágrimas, ele segurou a mão da garota por baixo na mesa e a olhou nos olhos.
– Nunca fui tão feliz quanto ontem. Se pudesse me entregaria pra você todos os dias. Eu quero ser sua pra sempre. – Sussurrou Catherine no ouvido do garoto, fazendo-o se arrepiar. – E você? Você jura que vai ser meu pra sempre? – Ele se levantou rapidamente da cadeira, deixando a namorada sem respostas e todos sem entender nada.
Derick foi para seu quarto, deixando um clima um tanto quanto constrangedor na sala. Ninguém sabia porque ele havia levantado. Passados cinco minutos, o garoto apareceu na porta da sala.
– Me desculpem por ter saído da mesa do nada. – Todos se viraram para ele imediatamente. – Cath, eu ia deixar pra entregar isso num momento mais particular. – Ele então abriu a caixinha de veludo que estava em sua mão deixando os anéis de esmeralda a mostra.
Fale com o autor