Natural Disaster
22 Capítulo 22 - Decifrando um olhar
Notas iniciais
Cath ficou por alguns minutos recostada no peito de Derick, sentindo o coração do garoto bater, recebendo conforto naquele abraço e nas doces palavras que ele dizia. Aos poucos foi se acalmando, seu queixo, suas pernas e seus braços foram parando de tremer e percebeu que com ele estava segura.
– Eu te levo para casa, você não tem condições de ir ao laboratório hoje. – Disse Derick ainda com Catherine em seus braços. — Eu vou cuidar de você...
– Não, não, está tudo bem, ok? – Ela disse tentando se recompor. – Obrigada por existir. – A garota o beijou nos lábios.
– Você precisa confiar em mim... Quem é esse homem? – O garoto perguntou notavelmente preocupado.
– Por favor... Não me pergunta nada agora. – Cath fechou os olhos e ele pôde perceber o quanto aquele assunto era doloroso para ela. – Vamos almoçar.
Mais uma vez, Derick teve que se conformar com o silêncio de Catherine e todo aquele mistério que ela tinha em torno de si. Respeitaria o tempo dela, a apoiaria mesmo sem saber o que estava acontecendo. O garoto a levou para almoçar em um restaurante ali perto da universidade, não era um self-service, mas também não era um restaurante luxuoso, servia uma comida italiana deliciosa e ele sabia o quanto Cath gostava de massas.
Apesar de fazer de tudo para agradá-la, no fundo ele estava magoado e não dava para esconder. Derick se perguntava o tempo todo o motivo pelo qual ela tinha essa trava, simplesmente não dizia nada, o deixava sempre confuso e totalmente perdido. Era algo que odiava, odiava não saber o que a fazia sofrer, porque morria de vontade de acabar com aquilo, independente do que fosse. Almoçaram praticamente em silêncio, apenas trocando olhares e aquele clima o incomodou, as coisas não estavam nada bem.
Durante a prática laboratorial do turno da tarde, o professor Andrew notou o quanto Cath estava nervosa, não conseguia se concentrar e Derick a ajudava em tudo, estava tão aérea que se precisasse pipetar* 1 mL de água, não saberia como fazê-lo.
– O que está acontecendo com você? – O professor perguntou aflito. – Você é uma das minhas melhores alunas, sempre com uma precisão incrível no laboratório, fazendo boas observações e hoje, eu nem consigo te reconhecer. – A garota permaneceu em silêncio, como se não tivesse escutado nada do que o professor havia dito.
– Ela não ta se sentindo muito bem, melhor deixá-la quieta. – Derick tentou amenizar o clima. – Vamos continuar a pesquisar. — O casal então se sentou à bancada para anotar e discutir os resultados que estavam obtendo naquele dia.
Mais ou menos umas 19:30, decidiram que era a hora de parar. Saíram do laboratório e retiraram seus equipamentos de proteção. Era uma sexta à noite e seus amigos o convidavam para sair, como sempre, e o celular do garoto tocava a todo instante. Festas, mulheres, drogas, farra, ele estava cansado de tudo aquilo, resolveu recusar.
– Ei, vamos sair? – O garoto disse enquanto guardava suas coisas na pasta. – É sexta à noite, a gente podia fazer alguma coisa, jantar, ir ao cinema, teatro, sei lá.
– Não to afim, eu vou pra casa. – Ela disse terminando de se organizar. – Vou pegar um ônibus.
– Pegar ônibus? Se for mesmo pra casa, eu te levo. É perigoso você, ficar andando sozinha pela rua, e não me custa nada. — Relaxa, não precisa mesmo me deixar em casa. – Catherine virou os olhos. – Assim você chega mais rápido em alguma dessas festinhas com as suas amiguinhas, eu não quero atrapalhar você! – A garota disse visivelmente irritada, colocando a bolsa em um dos ombros e andando rápido.
– Eu odeio essa sua mania insuportável. – Derick bagunçou os cabelos e esbravejou. – Que amiguinhas? Eu TE chamei para sair.
– Hoje, mas amanhã é sábado, você tem seu show e vai ficar esse bando de cadelas no cio* atrás de você... – Catherine ficou emburrada e cruzou os braços. – E eu vou embora mesmo, sozinha.
– Ok. – Derick disse de forma cínica e olhou disfarçadamente para o céu, que estava cheio de nuvens segurando o riso.
– Tchau. – Ela se irritou mais ainda com a ironia nos olhos do garoto, porém não sabia o motivo do deboche, apenas não gostou e virou as costas para ir embora.
Catherine foi andando até o ponto de ônibus, e Derick fez de tudo para que ela não percebesse que estava sendo seguida. Antes que pudesse chegar ao ponto, sentiu gotas caindo sobre sua pele e se assustou. As árvores daquele lugar faziam um barulho assustador enquanto o vento as balançava, e, para piorar, começou a trovejar. Daqui a alguns minutos, obviamente, cairia um temporal. Cath olhava para os lados e não via quase ninguém no campus, estava começando a se apavorar.
– Ai não! Chuva! – A garota resmungou morrendo de medo e no mesmo instante começou a chover.
Sem guarda-chuva, Catherine teve de ficar ali mesmo no ponto de ônibus, em meio à forte chuva, morrendo de frio. Repentinamente, a garota sente duas mãos a segurando por trás e beijos em sua nuca. Ela se arrepiou, e já ia gritar, mas reconheceu aquelas mãos e aqueles beijos.
– Você quer me matar do coração? – Cath disse nervosa. – Como você me agarra de surpresa num lugar deserto como esse em meio a um temporal? – Derick ria debochadamente do nervosismo da garota. – Você me abandonou aqui sozinha!
– Eu te abandonei? Você definitivamente não bate bem da cabeça! Você fez uma cena, não quis sair comigo e nem que eu te levasse em casa! E vem dizer que EU te abandonei? – O garoto disse rindo do jeito manhoso com que Cath estava se comportando.
– Mas eu tava prevendo, sabia que ia cair esse temporal, viu? Nem ia rolar de sair mesmo. – Catherine ergueu a sobrancelha direita, fazendo sua expressão característica de deboche, no entanto, ela estava cada vez mais se enrolando nas próprias palavras e isso era perceptível.
– Da próxima vez em que você quiser carinho, não precisa bancar a revoltadinha e ficar com ciúme nonsense. Ok? – A garota apenas sorriu de canto.
– Ciúme nonsense? Quer dizer que seu celular tocou cinqüenta vezes e não era mulher nenhuma te chamando pra sair?
– Cath, deixa pra discutir isso depois! Olha o seu ônibus aí! – O casal entrou no ônibus correndo, pagou as passagens e sentaram nos bancos do fundo. Além dos dois, naquele ônibus só havia o cobrador e o motorista. Com certeza o caminho até a casa de Cath seria longo em um engarrafamento por conta da chuva e das ruas alagadas.
– Hein? Não vai responder? – Ela disse sarcástica, querendo provocar Derick.
– Era sim, Catherine. – Dessa vez foi ele que virou os olhos. – Mas você sabe também que eu só quero você, ele disse olhando nos olhos dela.
– Desculpa. – Catherine sussurrou no ouvido do garoto, logo em seguida virou o rosto dele para si e o beijou. – Têm coisas que você precisa saber sobre mim.
– Sobre você e aquele homem... – Ele disse acariciando a face da garota. – Cath, quando eu digo que te amo, isso não é da boca pra fora. Eu to com você pra tudo, então por que tenta me impedir de cuidar de você, que pra mim é a coisa mais valiosa do mundo?
– Como pode dizer coisas tão lindas? – Catherine estava comovida.
– Sentindo coisas lindas, sentimentos que só você conseguiu despertar em mim. – Derick a beijou romanticamente e ficaram abraçados.
– É meu pai, Derick. – Ela disse deixando com que uma lágrima escorresse no seu rosto, e recostou sua cabeça no peito do garoto como tanto gostava e logo desviou seu olhar para baixo, não queria olhar no olhos do garoto quando descobrisse tudo.
– Você consegue continuar contando ou prefere deixar pra depois? – Ele respondeu paciente e carinhoso.
– Prefiro agora... – Catherine respirou fundo, muito abalada. — Você sabe o que ele bebia e usava outras drogas, que enlouqueceu, agredia a minha mãe e a mim e que perdemos tudo, mas tem mais uma coisa horrível. Eu era muito nova, e ele chegava totalmente fora de si, às vezes eu acordava com ele passando a mão pelo meu corpo e me olhando de um jeito doentio. — Outra lágrima rolou dos olhos garota. – Ou ele subia em cima de mim enquanto eu estava dormindo e tentava ter relações comigo... Mas eu sempre conseguia fugir, porque ele estava muito bêbado, e então eu me trancava no banheiro e passava a noite chorando.
– Não... – Derick colocou uma das mãos no rosto. – Não me diz que... – O garoto não agüentou imaginar uma situação como aquela, e começou a chorar. – Isso não vai ficar assim! Eu acabo com a raça dele! – Ele a abraçou forte como se quisesse apagar tudo aquilo da memória dela. – Não pode ser...não..
– Calma, meu amor... – Cath olhou nos olhos de Derick para acalmá-lo e deu um beijo nos lábios dele. – Eu tinha tanto nojo, tanto pavor, que não conseguia dormir, sempre achando que ele tentaria alguma coisa. Um dia, ele chegou sob efeito de alguma substância muito pior do que o álcool, estava muito mais forte e descontrolado. – O garoto ficou em silêncio para escutá-la, mas continuava com os olhos cheios de lágrimas. – E eu não consegui escapar... Ele rasgou toda minha roupa e me bateu muito para que eu não fugisse, me xingou e disse que ia se vingar da minha mãe. Eu queria morrer naquele momento, foi o pior dia da minha vida. Por sorte a minha mãe chegou em casa na hora e conseguiu me tirar dali. – A garota não parecia angustiada, nem com menos, estava completamente emocionada com o carinho do namorado. – É a primeira vez que eu consigo falar disso sem desmoronar, eu me sinto tão amada com você, e eu te amo tanto... – Derick a beijou intensamente.
– Acabou, ninguém mais vai te fazer mal, eu não vou deixar. – Prometeu o garoto enquanto os dois soltavam do ônibus, finalmente na porta do prédio de Catherine.
Os dois estavam encharcados e a chuva não cessava. Cath achou melhor que o garoto subisse, não era seguro que ele voltasse naquela hora numa chuva daquelas. Logo na portaria já perceberam que não havia eletricidade. Subiram de escada até o apartamento 304, e a garota procurava velas por toda casa. Encontrou algumas no armário na cozinha, acendeu-as e colocou em pratos para que a cera, ao derreter, não queimasse nada.
Catherine tomou um banho rápido e saiu do banheiro com uma toalha na cabeça e seu roupão:
– Toma um banho também, Derick.
– Mas eu não tenho roupa, e acho que não vou ficar bem com as suas! – Ele disse rindo.
– Fica de toalha até as suas roupas secarem. Eu vou colocá-las atrás da geladeira e num instante elas secam. – O garoto assentiu e foi para o banheiro.
Tomou um banho rápido também e entregou suas roupas a Cath, pôde notar que ela havia colocado as velas no quarto dela e havia um lanche para os dois em uma mesinha de centro. Além disso, a garota estava com um perfume maravilhoso e vestida com um baby doll rosa, que marcava demais o corpo dela para que ele não reparasse.
– Tá tudo bem, Derick? – A garota perguntou ao perceber que ele estava inquieto.
– Sim, sim – Derick tentou disfarçar. – E a sua mãe? Que horas ela chega?
– Hoje não chega, já ligou avisando que irá dormir no trabalho, porque não consegue pegar o ônibus. – Cath disse enquanto dava uma mordida em seu sanduíche, colocando os cabelos para trás da orelha. – Vem comer. – Ela estava sentada, encostada na cama.
– Tô morrendo de fome mesmo! – O garoto tentou relaxar, porém sabia que não poderia ficar tão perto dela, por isso decidiu então sentar do outro lado da pequena mesa e se concentrar na conversa, o que foi uma tarefa realmente difícil.
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