Natural Demais
1 Capítulo Único
A luz da tarde entrava suave pelo quarto, espalhando tons quentes pelas paredes. Yor estava diante do espelho, os dedos presos ao fecho do colar que Loid lhe dera. Tentou fechá-lo uma vez. Errou. Tentou de novo, com mais cuidado.
Respirou fundo.
É só uma saída normal. Uma esposa saindo numa tarde de sábado.
Mas o coração parecia não ter recebido o aviso.
A blusa creme já estava perfeitamente alinhada, a saia midi vinho caía com elegância demais para alguém que se sentia tudo, menos elegante por dentro. Yor inclinou o rosto, observando a própria expressão no espelho. Havia algo ali. Expectativa, talvez. Ou nervosismo puro.
— Calma… — murmurou para si mesma, quase como uma ordem.
Enquanto ajeitava o sobretudo rosé sobre os ombros, a lembrança voltou sem pedir licença.
…
— Um beijo de despedida é o mínimo, Yor — comentou Sharon, apoiando o queixo na mão, com um sorriso leve. — Quero dizer… é normal, né?
Millie deu uma risadinha, mexendo o café.
— Não precisa ser nada exagerado. Mas sair assim, sem nem um abraço… — deu de ombros. — Fica meio estranho.
Yor piscou algumas vezes, surpresa.
— Estranho…? — repetiu, genuinamente confusa.
— Uhum — Sharon assentiu. — Vocês são casados.
Yor baixou o olhar para as próprias mãos.
— Mas… o Loid não parece se importar com isso — murmurou. — Eu achei que não fosse necessário.
Camilla, que até então só observava, inclinou-se levemente para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— É isso que me chama atenção — disse, num tom casual demais para ser inocente. — Vocês são casados… e não fazem nem isso?
Yor levantou o rosto de imediato.
— N-não é que a gente não… — começou, atrapalhando-se.
Camilla ergueu uma sobrancelha, sem sorrir.
— Não estou criticando — completou. — Só acho curioso. As pessoas reparam nessas coisas, Yor. Principalmente quando tudo parece… tão certinho.
A palavra ficou suspensa no ar.
— Às vezes — continuou Camilla — pequenos gestos dizem mais do que documentos ou alianças.
Sharon tentou suavizar o clima:
— É só carinho básico, Yor. Um beijo rápido, um abraço. Coisa de casal.
Millie concordou com a cabeça.
— Especialmente quando estão saindo juntos. Dá outra impressão.
Yor ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando tudo.
— Então… — murmurou, hesitante — seria estranho não fazer nada?
Camilla a observou por um instante mais longo do que o necessário, antes de responder:
— Eu acharia.
Yor assentiu devagar, sentindo algo se encaixar com um peso incômodo no peito.
…
De volta ao quarto, Yor fechou os olhos por um instante. Abriu-os de novo e encarou o próprio reflexo, agora com outra compreensão.
— Um beijo de despedida… — sussurrou.
Não era romance. Não era impulso.
Era lógica. Era coerência. Era o que uma esposa faria.
Ou pelo menos… o que deveria fazer.
Ela ajeitou o cabelo uma última vez, alisou a saia com as mãos trêmulas e respirou fundo, sentindo o coração acelerar de novo.
Eu preciso fazer isso. Para manter tudo… o mais real possível.
Endireitou a postura, forçou um pequeno sorriso e assentiu para si mesma, como se tivesse acabado de aceitar uma missão importante.
— Vamos lá, Yor. Você consegue.
Com esse pensamento firmemente agarrado, ela saiu do quarto.
…
A sala estava cheia de vozes quando Yor chegou ao final do corredor. Franky falava animadamente, gesticulando como se estivesse no meio de uma grande revelação, enquanto Anya o observava com atenção exagerada, os pés balançando no sofá. Loid estava de pé, perto da porta, ouvindo com aquele ar atento e organizado de sempre.
— …e aí, quando eu virei a esquina, já sabia que tinha coisa errada! — concluiu Franky, inflando o peito.
— Uau! — Anya arregalou os olhos. — Tio Franky quase virou herói!
— Quase não, Anya. Eu sempre sou — respondeu ele, convencido.
A campainha tocou.
Loid se moveu imediatamente.
— Deve ser a Camilla — disse, já alcançando a maçaneta.
Ao abrir a porta, encontrou-a sorridente.
— Boa tarde, Loid! Pronta, Yor? — perguntou, espiando por cima do ombro dele.
— Já estou indo — respondeu Yor, aproximando-se.
Camilla lançou um olhar rápido para os dois, avaliando cada detalhe, antes de sorrir de novo.
— Então vamos.
Yor se virou primeiro para Anya. Ajoelhou-se diante dela e a envolveu em um abraço apertado, mais longo do que o habitual.
— Até mais, querida — disse, com a voz suave. — Se comporte, está bem?
— Eu sempre me comporto! — respondeu Anya, rindo. — Papi e tio Franky que não!
Franky levou a mão ao peito, fingindo ofensa.
— Ei!
Yor sorriu e se levantou. Passou por Franky com um aceno educado.
— Até mais, Franky.
— Boa saída, Yor — respondeu ele, piscando.
Então ela parou diante de Loid.
Por um segundo, nenhum dos dois disse nada.
— Até logo, Yor — disse ele por fim, num tom neutro demais para quem a observava com tanta atenção. — Aproveite.
Ela assentiu, os dedos apertando a alça da bolsa.
— Eu volto mais tarde — respondeu. Fez uma breve pausa, como se reunisse coragem. — Cuide deles… por favor.
— Sempre — disse Loid, sem hesitar.
Ele deu um passo à frente, abrindo os braços em um gesto simples, quase automático. Yor hesitou apenas um instante antes de se aproximar. O abraço foi breve, contido… mas quando Loid pousou a mão nas costas dela, logo abaixo do ombro, o gesto se prolongou um segundo a mais do que deveria.
Yor sentiu o coração acelerar.
Ela se afastou apenas o suficiente para erguer o rosto. Os olhos deles se encontraram. O mundo ao redor pareceu diminuir de volume.
— Loid… — murmurou, quase sem perceber.
Ele não respondeu de imediato. Yor então se inclinou.
O beijo não foi apressado, nem longo. Foi firme o bastante para existir. O tempo exato para Loid reagir antes que pudesse pensar. A mão dele subiu das costas para o rosto dela, os dedos tocando sua bochecha com cuidado involuntário, como se aquele gesto tivesse sido ensaiado pelo corpo, não pela mente.
O perfume de Yor o envolveu por inteiro.
Quando se afastaram, foi apenas um pouco. O suficiente para que o toque ainda estivesse ali.
— Até — disse ela, com a voz mais segura do que se sentia.
— Até — respondeu ele, baixo.
Yor virou-se rapidamente, como se soubesse que ficar mais um segundo tornaria tudo perigoso demais. Camilla observou a cena em silêncio, um brilho atento nos olhos, antes de acompanhar Yor para fora.
A porta se fechou. E o ar da sala pareceu mudar.
…..
Loid ainda estava de frente para a porta quando percebeu a própria mão suspensa no ar. Os dedos se moveram levemente, como se procurassem algo que já não estava ali.
Tocar o rosto dela…
Não havia cálculo. Nenhuma análise prévia. O gesto simplesmente aconteceu. E pior: ele havia respondido ao beijo sem hesitar.
Endireitou a postura com rigidez excessiva, baixando a mão devagar, como se isso apagasse o erro. Inspirou fundo, mas o ar pareceu insuficiente.
— Então… — a voz de Franky rompeu o silêncio. — Isso aconteceu mesmo ou foi imaginação coletiva?
Loid virou-se com rapidez, sério demais.
— Franky.
— O quê? — ele abriu as mãos. — Estou só confirmando. Porque, se foi real, foi bem… intenso.
Anya, sentada no sofá, tinha os olhos arregalados e um sorriso que mal cabia no rosto.
— Papi ficou parado! — anunciou. — Igual quando trava!
— Eu não travei — respondeu Loid automaticamente, caminhando até o sofá.
Franky cruzou os braços, observando com atenção quase científica.
— Foi automático, né? — comentou. — Você nem pensou.
Anya bateu palminhas, rindo.
— Papi ficou vermelho!
Loid levou a mão à testa, fechando os olhos por um instante.
O silêncio voltou, carregado de significado. A lembrança do toque quente da pele de Yor, o modo como ela não se afastou imediatamente, o segundo suspenso em que tudo pareceu perigosamente real…
Sentou-se de vez no sofá, os ombros finalmente cedendo.
— Papi… — Anya inclinou a cabeça. — Você gostou.
Não foi uma pergunta.
Loid não respondeu.
Franky gargalhou mais alto.
— Esse silêncio responde tudo.
Anya inclinou-se para frente, os olhos brilhando.
— Papi… você não quer que eu conte pra Ma que você ficou todo bobo, né?
— Ser sério é difícil quando se tem uma esposa assim — provocou Franky. — Um selinho e pronto. Curto-circuito total.
Loid fechou os olhos outra vez, o coração ainda batia rápido demais para alguém que acreditava ter tudo sob controle. Percebeu que não havia sido apenas o beijo que o desestabilizou… mas o fato de não ter querido interrompê-lo.
Quando abriu os olhos, o sábado já não parecia tão simples quanto antes. E, sem admitir em voz alta, soube que passaria a esperar por despedidas.
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