Natal em Pemberley
1 Natal em Pemberley
Notas iniciais
Darcy Williamson estava tendo dificuldades em manter o filho impecável. Não havia como negar que o pequeno Thomas era o retrato perfeito da mãe, sua personalidade não deixava dúvidas de que ele era filho de Elisabeta Benedito. O menino nunca parava quieto. Era curioso, questionador e sempre contava com uma resposta na ponta da língua para qualquer que fosse a situação. Darcy gostava de contar a todos que o filho aprendera a cavalgar antes mesmo de andar. O que era mentira, claro, mas quem via Thomas Benedito Williamson cavalgando poderia perfeitamente acreditar. E agora, aos nove anos, ele já havia aposentado Ted, o pônei, e vivia pelos arredores de Pemberley com seu novo cavalo, Hurricane, cujo nome foi uma — nem tão sutil assim — sugestão de Darcy ao encarar Elisabeta. Thomas estava sempre com os joelhos ralados e semana passada havia quebrado o braço. Foi um grande desafio para Darcy vestir o menino naquela noite. Primeiro porque, obviamente, ele não parava quieto. Segundo porque era praticamente impossível deixá-lo aceitável com o braço enfaixado. Dona Ofélia não perdeu uma única oportunidade de repreender Darcy e Elisabeta desde que chegou em Londres e viu o neto naquele estado. Depois ela saía resmungando pela casa que o menino era exatamente igual a sua primogênita. Tal mãe, tal filho.
—Thomas, você precisa me ajudar. Estou suando, e está praticamente nevando lá fora! Sua gravata já está torta de novo! Deus!
—A mamãe não vai se importar, pai.
—Mas sua avó sim, e nenhuma pessoa em todo o mundo gosta de ser repreendido por dona Ofélia.
—O senhor tem medo da vovó também? — o menino questionou divertido.
—Você também tem, não é? — Darcy devolveu a pergunta enquanto tentava colocar a gravata borboleta do filho no lugar.
—Eu não, ela nunca briga comigo. — O menino deu de ombros — Mas o senhor tem medo da vovó e da mamãe.
—Eu não tenho medo da sua mãe!
—Darcy! — Elisabeta entrou no quarto chamando pelo marido e o homem quase tremeu. Thomas riu e correu em direção à mãe para um abraço.
—Como está esse braço hoje, hein, meu pequeno espoleta?
—Coçando. — O menino respondeu e Elisabeta depositou um beijo em sua cabeça.
—Preciso que olhe sua irmã enquanto termino de me arrumar. Você pode fazer isso pra mim?
—Claro, mamãe! A Anne é muito boazinha.
—Espere aí! — Darcy interrompeu e mãe e filho olharam para ele — Você vai deixá-lo sozinho com Anne depois de todo esforço que eu tive para mantê-lo com os cabelos e a gravata no lugar? Aguente você as broncas da sua mãe, eu fiz a minha parte! Seu filho não para quieto! — Darcy falou para a esposa, que caminhou até ele, o puxando gentilmente pela gravata.
—Meu filho, é? — Ela encostou de leve seus lábios no do marido, sorrindo. — Dona Ofélia sempre encontra motivos para nos dar bronca, meu amor. Mas acho bonitinho o seu esforço em agradá-la.
—É o primeiro Natal dela conosco em Pemberley, quero que seja perfeito.
—Se você mimá-la mais um pouco ela não vai querer ir embora nunca mais.
—Por mim tudo bem. — Ele deu de ombros e Elisa riu, lhe dando outro selinho antes de se dirigir à penteadeira.
—Você não quer isso, meu amor, acredite.
Darcy se aproximou da esposa e depositou um beijo no pescoço dela. Deus, ele a amava tanto.
— Eu quero tudo, desde que seja com você, lady Williamson.
***
Quando os quatro Williamson desceram 1 hora depois, com a roupa de Thomas totalmente fora do lugar e Anne com o laço torto na cabeça, os Benedito já os aguardavam. Jane e Camilo com Ian e Alice, Cecília e Rômulo com Mario e, claro, Dona Ofélia e Seu Felisberto. Lídia estava grávida do seu quarto bebê e ficou muito indignada no Vale do Café sem poder conhecer a mansão de rico da irmã. Mariana e Brandão estavam em uma competição de motocicletas no Rio de Janeiro, o pequeno Matheus a tiracolo, pois o menino era igualzinho aos pais. Charlotte também estava em Pemberley, Darcy fez questão que ela se mudasse para lá assim que descobriu a gravidez, e agora ela e Olegário eram hóspedes mais do que especiais, e as crianças adoravam tê-los por perto.
Seu Felisberto recebeu a filha com os olhos cheios de lágrimas e a envolveu em um abraço apertado.
—Minha menina, olha só você! Linda, mãe de três crianças — ele depositou a mão na barriga de Elisabeta que começava a aparecer — administradora dessa casa enorme, e autora de quatro livros! Você finalmente conquistou o mundo como disse que faria!
—E devo muito ao senhor, pai. E à mamãe — ela abraçou Dona Ofélia, que também chorava. — E a Darcy. — Ela olhou emocionada para o marido. — Estou tão feliz que estão aqui! Com a gravidez Darcy não quis que viajássemos tanto.
— Então presenteou a todos com passagens de luxo caríssimas, porque afinal meu genro é um lorde inglês de dois metros de altura muito rico! Já era hora de conhecer essa casa enorme em que você mora agora. Que é muito linda, mas quem limpa tudo isso, meu filho? E eu quase me perdi ontem.
Todos riram e Darcy abraçou os sogros.
—É um grande prazer para mim receber minha família em Pemberley!
A essa altura as crianças já brincavam próximas a árvore de Natal lotada de presentes. As irmãs, incluindo Charlotte, se abraçaram emocionadas e foram colocar todas as novidades em dia próximo a lareira. Dona Ofélia foi importunar Therese na cozinha, pois ninguém melhor do que ela para seguir suas próprias receitas, já que a ceia da noite contaria com algumas delícias brasileiras. Darcy guiou os homens até a mesa de bebidas. Abraçou os cunhados e brindou pela reunião.
Todos os anos a família se reunia para o Natal, mas aquele era o primeiro em Pemberley, e Darcy finalmente sentiu-se completo. A sensação de completude sempre se fazia presente quando ele pensava em Elisabeta, seus filhos e a vida que construiu ao lado dela. Ele sequer sabia que ainda havia uma pequena brecha a ser preenchida até aquele momento. Oferecer uma ceia de natal em Pemberley, para sua família, com direito a árvore de natal rodeada de presentes e tradições britânicas misturadas a brasileiras, como havia sido durante toda sua infância, trouxe a Darcy uma paz e uma plenitude que ele jamais havia experimentado. Nem mesmo em seus melhores momentos com Elisabeta. Era como sentir-se completo, parte de algo inteiro pela primeira vez na vida. Era uma família nova, que Elisabeta lhe deu, mas também era a família dele que se fazia presente naquela noite de natal. Lembrou-se das receitas brasileiras de sua mãe e as meias que ela fazia questão de costurar todos os anos. Lembrou-se do pai vestido de Papai Noel de madrugada deixando presentes debaixo da árvore. Lembrou-se das coroas coloridas de papel e dos Christmas Crackers que, ele havia feito questão de providenciar para aquela noite. Seria divertido, principalmente para as crianças, puxar cada uma de um lado e descobri um presente dentro.
Darcy sorriu. Um sorriso que iluminava seus olhos. Pediu licença aos rapazes e caminhou até sua esposa. Sem nenhum aviso ele a segurou pela cintura e a beijou apaixonadamente. As moças deram pequenos gritinhos e bateram palmas e, sem que eles ao menos notassem, dois pares de mãozinhas agarraram-se a suas pernas. Ele pegou cada um dos filhos em um braço, beijou suas bochechas e anunciou o jantar.
A ceia começou com uma oração de dona Ofélia, agradecendo por mais um ano de vida ao lado de sua família, por estar em uma casa chique na Inglaterra, pelos netos lindos e saudáveis, e pedindo a proteção e felicidade de todos, inclusive da parte da família que estava no Brasil. Depois Darcy entregou as coroas de papel a todos e os christmas crackers começaram a estalar, revelando chaveiros, chocolates e pequenos brinquedos. A comida estava deliciosa, o suculento peru e o christmas pudding.
Mal terminaram de jantar e as crianças correram para a árvore de natal, a procura de seus nomes nos presentes. Mario ganhou a coleção inteira de Sherlock Holmes, em inglês. Ian adorou seu trenzinho e Alice mal se conteve de alegria ao ganhar um estojo de pintura com mais cores do que ela conseguia nomear. Também haviam presentes para as crianças do Brasil. Thomas ganhou um novo traje de montaria e quis vestir ali mesmo, sem se importar com o braço quebrado. Anne, no auge dos seus três anos, estava muito satisfeita com sua nova boneca de pano feita pela vovó Ofélia. Darcy retirou uma caixinha comprida do bolso do paletó e entregou a Elisa.
—É um complemento do presente que Thomas e Anne compraram para você.
Lady Williamson — era tão estranho para ela ser conhecida assim, mesmo após tantos anos de casada — recebeu o pacote da mão do filho e abriu. Era um novo diário, a capa em tecido, bordado com pequenas flores vermelhas. Na primeira página havia uma pequena dedicatória escrita na letra bagunçada de Thomas, e uma foto dos quatro no último aniversário de Elisa fazia o papel de marcador de página. Elisabeta beijou o rosto dos filhos e sussurrou um obrigada. Ela então olhou para o marido e recebeu dele a pequena caixinha. Quando Elisa abriu, algumas lágrimas já nublavam sua visão. Havia uma caneta dourada muito elegante, as letras E.B.W gravadas em uma fonte bonita e, abaixo dela um pedaço de papel com os dizeres:
Pra que você continue a escrever nossa história em amor. Feliz Natal. Te amo.
Eternamente seu, Darcy.
***
Os Williamson se despediram dos Benedito com lágrimas nos olhos naquela manhã de natal. Mas eles sabiam que era apenas um até logo, no pior dos cenários estariam reunidos novamente no próximo natal. E teriam mais um Benedito-Williamson entre eles. Darcy estava certo de que seria outra menina. E ele torcia para que fosse uma miniatura de Elisabeta. Anne parecia com ele, os cabelos, os olhos, e até mesmo a personalidade mais introvertida. Constratando perfeitamente com a agitação do irmão. Thomas, fisicamente, era uma mistura dos dois. A perfeita mistura dos dois. Mas Darcy torcia para que a mais nova Benedito-Williamson tivesse os olhos e as expressões de Elisabeta. Seria a menininha mais linda de todo o mundo.
Darcy pegou Anne nos braços e beijou sua bochechinha rosada. A menina riu e o abraçou pelo pescoço. Puxou Elisabeta pela mão, a outra mão, a que não estava ocupada segurando a mãozinha de Thomas. Caminharam juntos de volta para casa. Papai Noel havia acertado em cheio em seu presente, ele era o homem mais feliz do mundo, exatamente o que ele havia pedido em seu último natal em Pemberley, quinze anos atrás.
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