Natal em Família

1 Capítulo Único


“Mais um Natal que eu posso passar com vocês, mesmo que seja desse jeito. É uma pena que as coisas tenham ficado assim. Passei tempo demais preocupado com o trabalho, sem visitar vocês, até mesmo em épocas como essa, onde a família deveria ficar junta.

“Lembro-me de quando eu era pequeno, que todos — sendo de avós a primos distantes — nos encontrávamos na nossa casa de campo, aquela enorme e uma vez alegre casa, hoje parecendo vazia e abandonada há décadas; nós comíamos, bebíamos — essa parte era para os adultos, na verdade —, conversávamos; as crianças corriam pelo pátio enorme, enquanto riam e gritavam. Eram épocas tão boas e, sinceramente, as melhores da minha vida.

“Então, eu cresci. Fui para a faculdade, parei de morar com vocês. Mas, mesmo assim, eu continuava visitando sempre que podia. Tentava vir todos os finais de semana; porém, aconteciam alguns imprevistos como um projeto ou trabalho para fazer. Os feriados ainda eram animados; entretanto, não como os de quando eu era criança.

“Aí comecei a trabalhar, e finalmente parei de ver vocês quase que por completo. Eu visitava periodicamente, mas não podia ficar muito quando vinha. Nem comparecia nas festas de Natal e Ano Novo, mesmo sabendo que vocês estariam sozinhos — às vezes um parente ou outro iria aparecer; contudo, geralmente eram apenas vocês, sozinhos.

“Ha! Olha que idiota eu sou, chorando ao me lembrar disso. Perdoem-me, por favor. Mas saibam que os Natais e Anos Novos e Páscoas não são mais os mesmos. Na verdade, eu odeio todos eles, esses feriados que se passam junto das pessoas que amam. Demasiadas coisas aconteceram para eu continuar gostando desses feriados, então, eu não mal posso suportá-los. Não fiquem tristes, a culpa não é de vocês. A culpa é do tão chamado destino. Ou do tal Deus tão misericordioso e cheio de compaixão.

“Acho que é hora de ir embora. Espero que vocês fiquem bem. É ótimo saber que pelo menos vocês não estão sozinhos. Isso é muito bom. Feliz Natal, no Ano Novo eu estarei de volta.”

Levantei-me e dei uma última olhada no túmulo de meus pais, minha irmã e meu irmão. Não conseguia acreditar que já se faziam três anos que eles faleceram no terrível acidente de carro, quando eu os convidei para passar o mês o de dezembro na minha casa, o primeiro Natal depois que finalmente consegui um cargo melhor e poderia trabalhar em casa. Não acredito que um motorista bêbado conseguiu jogá-los para fora do viaduto, e nem sequer saiu ferido gravemente.

Lágrimas de raiva enchiam meus olhos. Coloquei as flores cuidadosamente em seus túmulos e saí do cemitério, pensando por que eles e não eu.

Feliz Natal.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!