Natal com aroma de amor.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eram exatamente 14:30 da tarde do dia 24 de dezembro. E eu tinha que fingir estar animada para mais um natal. Desde muito pequena eu sempre gostei muito de datas comemorativas, mas depois de mudar de cidade isso acabou. Não queria comemorar sem a presença de meus amigos, de um deles em especial!
— Anna, preciso de ajuda – Mamãe gritou
— Já estou indo – Gritei de volta tentando parecer animada.
Olhando fixamente para o espelho seco uma lagrima que teimava em escorrer pelos meus olhos. Termino de arrumar meu cabelo e desço as escadas treinando meu sorriso. Não queria que meus pais percebessem o quanto eu estava arrasada, eu sabia que essa mudança era importante para eles e era meu dever apoiar!
Chegando na sala vejo mamãe tentando sem sucesso fazer com que Lolla, minha gata peluda saísse de cima da poltrona do papai.
— Se essa bola de pelos não sair de cima da poltrona seu pai vai virar uma fera! – Mamãe bufou
— Calma mãe, pode deixar que eu tiro ela – Falei depositando um leve beijo em sua bochecha
— Obrigada Anna – Mamãe sorriu e eu reparei que pequenas rugas se formavam em volta de seus olhos. Ela não era uma pessoa de idade muito avançada, porém com a mudança surgiram vários problemas e isso resultou em várias mudanças físicas. Suas costas por exemplo estavam um tanto curvadas, como se ela estivesse carregando o peso dos problemas sobre ela. Por esse motivo eu não queria me tornar mais um problema, por esse motivo eu queria fingir estar bem. Não queria que minha mãe tivesse mais uma coisa para se preocupar.
Andando lentamente fui em direção a minha gata, me sentei ao seu lado e comecei a acariciar seu pelo.
— Ah Lolla, esse ano o Arth não vai vir passar o natal conosco – Sussurrei olhando para a pequenina – Queria tanto que ele visse o quanto você cresceu!
Arthur foi quem me deu a Lolla, ele sabia que eu sempre quis ter uma gatinha e enquanto nos despedíamos ele me deu a pequenina. Ele sabia que por eu estar emocionalmente abalada meus pais não iam ter como recusar, então como sempre ele deu um jeito para que tudo ficasse um pouco melhor. Além de vizinho ele também carregava em suas costas o título de melhor amigo. Sempre que eu precisava ele estava lá para me ajudar e vice-versa. Porém agora que eu mais precisava dele ele não teria como vir me socorrer. Faziam exatamente 6 meses que eu havia me mudado e durante 4 desses meses nos falamos diariamente, mas de um tempo para cá tudo mudou. Arth estava distante e eu tinha medo de descobrir o motivo, algo dentro de mim me dizia que ele tinha arrumado uma namorada e eu não era mais “sua garota” e eu não queria descobrir que essa sensação de ter sido trocada era verdade. Não queria saber que ele realmente estava namorando e que não precisava mais de mim para contar seus sonhos e nem cantar suas canções. Não queria descobrir que seria obrigada a cortar o amor que eu vinha nutrindo por ele pela raiz. Novamente uma lagrima teimava em cair. Eu tinha que sair de casa antes que começasse a chorar, não podia deixar minha mãe ver a tristeza estampada em meu olhar. Rapidamente pego Lolla no colo e a levo para o meu quarto, não me lembro de ter subido aquelas escadas tão rápido quanto naquele momento. Coloco a minha pequenina em cima de minha cama e me dirijo até a porta.
— Desculpa pequena, mas se o papai te ver em cima da poltrona dele novamente eu serei obrigada a te pôr para fora de casa – Falo enquanto fecho a porta lentamente.
Desço rapidamente as escadas lutando para não perder o equilíbrio e cair, eu precisava sair de casa. Eu tinha que sair de casa! Passo pela porta em um rompente. Me dirijo até a rua sem ao menos olhar para trás. Ouço minha mãe gritar perguntando para onde eu estava indo e o que tinha acontecido, mas eu não parava de correr, eu não posso parar de correr! Se eu tivesse cronometrado diria que corri por pelo menos uns 20 minutos, mas parecia ter sido menos, bem menos. Vou diminuindo a velocidade ao ponto em que percebo que o meu destino estava próximo. Paro em frente ao pequeno parque abandonado e me sento em uma gangorra enferrujada sem ao menos me importar se o meu vestido rosa bebe rendado poderia acabar rasgando ou tendo um de seus fios puxado. Desde que me mudei para cá esse lugar tem sido meu refúgio. O Descobri enquanto caminhava sem rumo tentando fugir da realidade. Eu sabia que minha mãe estava em casa preocupada e eu me odiava cada vez mais por ter causado isso a ela, mas eu precisava ficar sozinha. Eu precisava deixar que minhas lagrimas rolassem ser ter que explicar o motivo. Sentada na pequena gangorra observo um casal de borboletas que dançavam ao meu redor. Ambas pareciam tão felizes que me peguei invejando-as. As lagrimas insistiam em cair e dessa vez eu não tentei conte-las. Para muitos poderia parecer bobeira, mas não era. Eu estava acabada, me sentia frágil e sem vida. Queria minha antiga vida de volta, queria voltar a morar na minha antiga casa e ser acordada todo dia com o barulho de meu pai socando o porta malas de seu carro para ela fechar. Queria subir na garupa da moto de Arth e sair sem rumo por aí, como fazíamos todos os finais de semana. Sentia saudade de ser livre, de conhecer cada cantinho da minha cidade coisa que para acontecer novamente levaria anos, ou até mesmo décadas. Para meu pai essa era a mudança que estávamos precisando, com ela nossa família cresceria e se tornaria importante. Para minha mãe essa era apenas mais uma chance de recomeçar a vida sem confusões com os antigos vizinhos fofoqueiros que teimavam em falar que um dia Arthur e eu íamos fugir juntos e deixaríamos ela para trás. E para mim era apenas uma mudança que me tirava de tudo o que eu era acostumada e amava.
— Por que tudo tem que ser tão difícil? – Falo erguendo meus olhos para o céu. Sei que essa pergunta não seria respondida, porém eu precisava expressa-la em palavras. Talvez assim eu me sentisse melhor. Ainda olhando para o céu percebo que já está escurecendo. Me levanto e passo a mão pelo meu vestido checando se está tudo bem com o mesmo. Percebo um leve corte em minha coxa que eu não sei como foi para lá. Que maravilha, como se minha vida já não estivesse boa o bastante eu teria que lidar com um corte que estava sangrando muito. Enquanto o sangue estava quente eu não senti dor alguma, mas agora que estava mais calma eu sentia cada parte do meu musculo dolorido e para completar ainda tinha que aguentar a dor do corte. Eu esperava do fundo do meu coração que o mesmo não tivesse sido fundo. Caminho lentamente em direção a minha casa sem a menor vontade de forçar alegria e animação. Eu me sentia mal por estar mentindo para mamãe, mas sabia que essa era a escolha certa. Não queria que minha mãe se sentisse culpada pela minha tristeza.
Parando em frente a porta de minha casa, coloco um sorriso no rosto torcendo para ele não estar falso. Solto um longo e pesado suspiro enquanto abro a porta lentamente.
— Minha filha, onde você estava? Eu fiquei tão preocupada – Mamãe fala enquanto me pega em um abraço apertado. Sinto lagrimas molharem as mangas de meu vestido e uma grande dose de culpa caí sobre meus ombros
— Desculpa mãe – Falo acariciando suas costas – Eu só queria dar um passeio
— Nunca mais faça isso, mocinha – Meu pai saí de sua poltrona e caminha em minha direção. Seu andar que era sempre autoritário estava mudado. Agora parecia alguém frágil e desprotegido. Quando ele fica próximo o bastante, sinto suas mãos em meus cabelos acariciando lentamente. Nunca tinha visto meu pai tão vulnerável quanto naquele momento e eu não estava feliz por ser a culpada disso.
Com certa dificuldade e culpa me desvencilho dos braços amorosos de minha mãe e dou um leve sorriso que por incrível que pareça foi sincero, para ambos os meus pais protetores e preocupados. Vou em direção ao sofá e me lanço no mesmo observando meu pai se sentar em sua poltrona preferida e começar a ler o jornal. Eu era formada em ler as expressões faciais de papai. Então desse modo sabia exatamente o que ele estava lendo.No momento ele estava com as sobrancelhas arqueadas e com os lábios levemente abertos, o que indicava que estava lendo alguma coisa na parte de criminologia. Eu adorava observar meu pai enquanto ele lia, era como se fosse meu hobby único e particular. Me sentia mais próxima dele por conhecer suas várias expressões. Ao contrário de meu pai, mamãe era completamente ilegível o que dificultava saber o que ela estava pensando.
— Filha, você poderia ir ao mercado rapidamente para a mamãe? – Mamãe chamou me tirando de meus devaneios. Em seu rosto ela mantinha uma expressão tranquila, porém ela não conseguia se manter quieta o que era uma novidade se tratando de minha mãe.
— A essa hora? – Pergunto um tanto confusa – Mãe são 23:45, todas as lojas estão fechadas. O que senhora quer que eu faça na rua a essa hora?
— Só vai filha, não discuta – Meu pai gritou da sala
— Tudo bem, só vou pegar um casaco – Falei revirando os olhos e me direcionando ao armário de casacos. Meus pais estavam estranhos, mas estava muito instável emocionalmente para tentar descobrir o motivo. Desde pequena eu acreditava que no natal coisas que normalmente não aconteciam poderia acontecer, como no conto do scrooge em que ele recebia visitas de fantasmas o que fazia ele mudar seu modo. Eu não queria ser visitada por fantasmas só queria que meus amigos e o Arth estivessem aqui. Pego um casaco preto que estava guardado dentro de uma bolsa no armário. O casaco era do Arthur, ele deixou comigo na ultima vez que fomos ao cinema e estava bem frio. Eu não tinha levado casaco pois teimava que não ia chover nem esfriar, me enganei novamente o que fez com que Arth risse da minha cara e me emprestasse seu casaco preferido. Nunca irei me esquecer daquele sorriso. Quando Arth sorria todo o seu rosto se iluminava fazendo com que seus olhos castanhos claros ficassem mais brilhantes e expressivos. Eu sentia saudade do barulho de sua risada e até mesmo de sua mania chata de puxar minhas bochechas me obrigando a rir com ele. Sentia falta de tudo em Arth.
Espanto esses pensamentos e me dirijo até a porta. Antes de abri-la eu olho para o pequeno visco preso na mesma e reviro os olhos. Mamãe e sua mania de pendurar viscos na porta, só porque ela e papai deram seu primeiro beijo em baixo de um visco ela todo ano pendura um em nossa porta. Abro a mesma olhando para o chão, sem a mínima vontade de sair. Dou um passo à frente e esbarro em algo, ou em alguém. Não sei ao certo.
— Sempre desastrada né Anna Banana? – Eu não estava acreditando, não podia ser essa voz. Eu não devia estar ouvindo essa voz e nem esse apelido infantil que sempre me fazia sorrir. Não pode ser real. Sinto duas mãos se aproximarem do meu rosto e levantando levemente o mesmo me fazendo olhar para o dono da voz. O que eu vi foram duas orbitas castanhas me observando com o sorriso que eu tanto amava e sentia falta dançando em seus lábios – Vai ficar parada igual uma estátua ou vai me convidar para entrar e conhecer sua nova casa?
Sem pensar duas vezes, joguei meus braços enlaçando seu pescoço. Por ser um tanto mais baixa que Arthur, precisei ficar na ponta dos pés. Ele envolveu-me com seus braços fortes, e aproximou seu rosto do meu pescoço, eu sentia sua respiração quente em minha pele o que me causava leves arrepios. Enquanto isso meu rosto estava enfiado em seu peito. Eu não queria soltá-lo, tinha medo de o soltar e ele desaparecer. Eu não conseguia pensar em nada. Só existia Arth, eu e nosso caloroso abraço. Segundos depois, e creio que não foram poucos, afrouxei meu aperto e ele fez o mesmo. Suas mãos acariciaram minha bochecha secando uma lagrima que eu não havia percebido cair. Lentamente Arthur aproximou seu rosto do meu, encostou sua testa na minha e depois de alguns minutos naquela posição ele juntou nossos lábios. Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo. Eu devia estar sonhando e se realmente fosse um sonho eu não queria nunca mais acordar. Sua língua explorava cada canto da minha boca enquanto minhas mãos passeavam pelos seus cabelos negros. Arthur passou levemente suas mãos pela minha cintura e me puxou para mais perto, fazendo com que eu ficasse ainda mais colada em seu corpo. Sentia seu peito subir e descer conforme ele respirava o que tornava a situação ainda mais mágica. Depois de alguns minutos com os lábios pressionados no meu, Arth se afastou depositando um leve beijo em minha testa.
— Senti sua falta, Pequena – Ele falou próximo ao meu ouvido e eu sorri. Foi quando começamos a ouvir fogos o que indicava que já era natal. Sorri mais ainda pois meu desejo, meu único desejo havia se realizado. Arth estava alí ao meu lado, eu estava em seus braços e nada nem ninguém podia atrapalhar aquele momento. – Feliz natal, minha menina
— Feliz natal, Arth – Com as mãos em meu queixo, Arthur levantou meu rosto e depositou um leve beijo sobre meus lábios. Aquele momento estava perfeito e eu não queria acreditar que era verdade.
— Não vai querer me matar por ter ficado dois meses sem falar com você? Ou a saudade era tanta que você nem vai ligar? – Arthur perguntou enquanto cutucava minha barriga
— Sim arth, eu me importo e estava revoltada. Mas também estava morrendo de saudade. Não quero estragar esse momento pensando em coisas que já passaram – Falei dando de ombros
— Anna Banana – Arth me chamou – Você percebeu que eu te roubei um beijo embaixo de um visco? Será isso um sinal?
Olhei para cima conferindo se realmente tínhamos nos beijado em baixo do visco. Notando o que tinha acontecido começo a gargalhar fazendo com que Arth sorrisse.
— Ouvi dizer que a senhora não sorria a um bom tempo, bom saber que isso mudou. Afinal seu sorriso é lindo e me faz ficar com vontade de te beijar. – Ele afirmou puxando minhas bochechas fazendo com que eu sorrisse ainda mais.
Depois desse dia eu passei a acreditar que a magia do natal realmente existia e que se desejasse do fundo do coração tudo se realizaria.
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