Natal - Ulquihime
1 Natal
Notas iniciais
Inoue Orihime estava no seu quarto escuro em Las Noches e encarava a lua pela janela com grades, sentia-se um pouco mais alegre do que o de costume, sabia o que estava acontecendo e por isso seu coração era envolvido por uma leve onda de alegria naquele mundo cheio de sombras.
A porta de seu quarto se abriu, criando uma grande brecha de luz que invadia o local, por ela entrou um arrankar, um arrankar que cuidava dela, ele fechou a porta, sua pele branca parecia ser tão fria, entretanto Inoue jamais o tocou depois de ser rapitada por ele. Ele era Ulquiorra Schiffer o cuarto Espada entre os dez que eram a elite do Las Noches. Ele trazia consigo uma bandeja cinza com uma comida de péssimo gosto, mas era suficiente para conseguir fazer Inoue manter-se viva e saudável.
A ruiva virou-se para ele, sempre sem nenhuma expressão no rosto, Inoue acreditava que enquanto ele era vivo ele devia ter sido muito infeliz, seu rosto branco era marcado por duas listras verdes que desciam de seus olhos como trilhas de lágrimas que um dia escorreram. Ulquiorra colocou a bandeja sobre uma mesa no quarto e virou-se para a prisioneira.
- Coma, essa é sua refeição de hoje... – ele sempre mantinha uma expressão séria na face.
Esse vazio de expressão no rosto do Espada, de início, era desconfortável para a prisioneira Orihime, entretanto com a convivência ela acabou se acostumando, aquele homem era a única companhia dela naquele mundo, raramente saia daquele quarto, somente quando era chamada por Aizen, um homem nojento e repugnante aos olhos da ruiva. Orihime colocou um sorriso singelo em seu rosto.
- Obrigada Ulquiorra-san – Ela dirigiu-se para perto da mesa onde a bandeja estava e enquanto andava disse: — Feliz Natal!
- Natal? – O arrankar a indagou com aqueles olhos vazios, mesmo assim ele pareceu exprimir certa curiosidade quanto à palavra proferida pela mulher.
- Oh!!! Ulquiorra-san não sabe o que é Natal!!!- Inoue revelava certo espanto.
- Me diga o que é mulher. – Ele a ordenou.
- O Natal é uma comemoração linda para todos os cristãos Ulquiorra-san, comemorasse o nascimento do filho de Deus... – Falava com carícia nas palavras, como se refletisse cada sílaba que ela proferia.
- Nós arrankars não acreditamos em Deus nenhum, e você também depois do que já viu não deveria acreditar. – Ele a olhava seriamente, e em seus olhos a ruiva conseguia ver sua curiosidade.
- Pode haver mais coisas além da Soul Society e do Hueco Mundo Ulquiorra-san, como podemos saber? – Ela falava com certa convicção.
- Uma crença nascida da consciência de reles humanos deve ser apenas uma grande mentira. – Ulquiorra proferiu essas palavras de maneira sombria.
O coração de Orihime acabou sendo balançado por uma onda de tristeza, as palavras do Espada queimavam seus sentimentos de felicidade.
- Os humanos... Por não saberem das coisas que sabemos... São os mais próximos de compreender coisas que não compreendemos. – A ruiva não tinha mais um sorriso no rosto e o abaixou fitando o chão por alguns momentos, seus cabelos penderam um pouco para frente, ela ergueu seu rosto novamente e passou a mão no cabelo, endireitando-o.
Ulquiorra ficou quieto, deixando que Inoue continuasse falando sobre o Natal.
- Sabe Ulquiorra-san... No Natal as famílias se reúnem e convidam os amigos, as casas são enfeitadas com várias luzes e com uma árvore cheia de enfeites, ao seu pé são colocados vários presentes de Natal, são preparados deliciosos pratos para uma bela ceia... As pessoas trocam votos de felicidade e carinho, os amigos se tornam mais amigos e as famílias de aproximam... – Os olhos da ruiva se enchem de lágrimas — Você não imagina a dor que eu sinto por não ter mais minha família, meus amigos... Você... Não pode dizer essas coisas do Natal...
- Os sentimentos humanos são... – Ulquiorra voltou a falar.
- Você já foi humano Ulquiorra-san!!! — A ruiva soltou um grito que parecia estar entalado em sua garganta, ela senta-se em um sofá próximo à mesa, enxugando seus olhos molhados com a manga de sua roupa branca.
Ulquiorra se espantou com a reação da mulher, a explosão de sentimentos dela, a tristeza dela, eram tão estranhos para aquele arrankar, ele se perguntava como alguém era capaz de ser daquele jeito? Como alguns sentimentos podem transformar uma pessoa? Ulquiorra se aproximou dela e sentou-se no sofá também, queria entender aquelas emoções.
- Sabe... No Natal os sentimentos se expandem gigantescamente, é uma data que deve sempre estar junto de alguém e compartilhar o carinho... Os pais contam histórias aos filhos... Falam de lugares que não existem para fazer com que os filhos tenham a alegria de viver algo mágico... Como todas as pessoas devem viver no Natal...
Inoue fez uma breve pausa, o arrankar a observava com atenção, para ele aqueles sentimentos eram muito confusos, mas tinham uma essência familiar.
- Eu sinto falta de ter uma família, de ter amigos, de ter alguém que se importe comigo... Fico imaginando que no Mundo Real há essa hora as famílias estão ceiando um lindo banquete com vários enfeites e vivendo um momento único pelo ano, um momento em que elas podem confraternizar e de desejarem estar com as pessoas que ela gosta e que gostam dela... O Natal é uma época de puro amor...
Depois de proferir a última palavra Inoue fechou seus olhos e uma lágrima escorreu, o Espada viu a pequena gota que brilhava ao escorrer pelo rosto, por um breve instante recordou-se de suas marcas na face, do sentimento da tristeza, ele observou a lágrima que parecia um pequeno cristal descer a pele da mulher.
Inoue estava triste, ela sentiu uma lágrima escorrer do seu rosto, sabia que Ulquiorra estava ao seu lado, mas não iria mais repreender uma emoção dentro de si para ser solta nas horas vazias de completa solidão. Ela pensava no que perdera, na falta de pessoas que ela gostava e que gostassem dela, quando sentiu um toque frio no seu rosto, ela abriu os olhos e viu que Ulquiorra havia enxugado sua lágrima, ela ficou um tanto espantada com o gesto daquele homem frio e até o momento, insensível.
Ulquiorra não sabia o que estava fazendo, ele não conseguiu ficar parado ao ver aquela manifestação de tristeza, um lado sensível o havia dominado, ele subitamente retirou sua mão da face quente da mulher, recolhendo-a novamente para o bolso de sua roupa, ele estava novamente naquela postura séria de sempre.
O Espada não sabia o que estava acontecendo com ele, nunca havia simplesmente mostrado um movimento que revelasse algum gesto de carinho. Ele ia abrir a boca para proferir algumas palavras quando Orihime se jogou em sua direção abraçando-lhe apertadamente. Ulquiorra conseguia sentir o corpo quente dela junto ao seu, ele ficou paralisado no momento, entretanto retirou suas mãos dos bolsos e correspondeu ao abraço.
A ruiva não sabia o porquê que ela tinha feito aquilo, seria por ele ser a única pessoa que ainda cuidava dela? Seria porque ela estava sentindo falta de outras pessoas? Seria porque ela gostava do arrankar? Ela não conseguia se responder. Ela percebeu que ele correspondia ao seu abraço, sentiu os braços de Ulquiorra a envolvendo, sentia o frio daquele homem, um frio único que no fim, não era frio, sentia como ele estava espantado com o gesto dela e também por ter correspondido, a respiração dele estava mais rápida.
Os dois ficaram ali parados, abraçados, desfrutando da companhia um do outro, Ulquiorra não sabia o porquê de seus gestos, estava muito confuso, os pensamentos e sensações formavam um turbilhão, mas não deixava de abraçar a mulher. Inoue precisava sentir-se próxima de alguma outra pessoa, mesmo que não fosse pessoa em si, mas tinha sido algum dia. Ambos ficaram por um bom tempo daquele jeito.
- Ulquiorra-san... Eu...- Inoue afastou-se um pouco para olharorosto do Espada e percebeu que ele estava em tanto quanto confuso e feliz, talvez – M-Me desculpe... Eu não sei o que deu em mim eu...
Ela encarou aqueles olhos esmeraldinos, eles eram tão bonitos, tão raros e tão profundos, ela sentia como se fosse mergulhar na consciência dele, ela sempre quis entender aquele homem, como ele era frio daquele jeito, como ele conseguia viver sem transmitir nem receber afeto... Ela estava hipnotizada pela face daquele Espada e sem perceber aproximava seu rosto.
Ulquiorra estava confuso, o que era aquilo que o dominava, o que eram todas aquelas sensações conflitantes, por que aquela mulher tinha tantos sentimentos? Como uma humana... Ela conseguia abalar seu ser frio... Ulquiorra estava fascinado e realmente intrigado e confuso, ele sem perceber aproximava seu rosto ao dela.
Como em um estalo as lábios dos dois se selaram, eles apertaram mais o abraço, os lábios quentes dela e os frios dele se encontraram em uma troca de afeto, sem saber o porquê Ulquiorra pediu passagem com sua língua e, também sem saber o porquê, Inoue cedeu livremente, eles aprofundaram mais seu beijo, que se tornou um longo beijo.
Demorou até que Orihime tomasse consciência e afastou-se do Espada que também acordou de seu “transe”.
- Me desculpe Ulquiorra-san eu não sei o que deu em mim... Eu... er ... Eu não sei explicar – Inoue estava um tanto quanto atrapalhada e assustada com seu gesto.
- Mulher... – Ulquiorra a olhava com aqueles olhos confusos e ao mesmo tempo maravilhados que pareciam que, se desse a oportunidade, fariam inúmeras perguntas.
O Espada desviou o olhar e levantou-se do sofá, Inoue levantou-se também, ele virou-se rapidamente em direção à porta, sua mão direita estava no rosto, ele abriu a porta.
- Espere Ulquiorra-san!!!
Inoue gritou, mas não faria o homem mudar seu gesto, ele estava muito confuso consigo próprio.
Ele parou do lado de fora do cômodo sem fechar a porta, como se hesitasse. A ruiva o olhava.
- Feliz Natal... Mulher – ele não se virou para encará-la.
A porta se fechou.
Ulquiorra apoiou suas costas na parede, cobriu seu rosto com a mão e deixou sua cabeça cair um pouco e ficou ali durante um tempo, até que recuperou-se e saiu a passos largos na direção de seus aposentos, ele estava tentando compreender seus atos, mas o máximo que conseguia era aumentar sua confusão, os sentimentos eram tão...confusos...bons...súbitos...Orihime... Ele ia tentando entender o que não conseguia.
Inou ficou no quarto olhando um pouco para a porta, estava confusa também com seu ato e ficou triste por ter perdido sua companhia, mas não sabia como explicar ela havia gostado do abraço e do beijo daquele arrankar. Ela voltou a olhar pela janela, não sentia-se mais sozinha, estava até que muito feliz, imaginava que Ulquiorra estava muito confuso com tudo, mas sabia que ele iria voltar, afinal, ele sempre voltava uma hora para vê-la, mesmo que fosse para dizer algumas frases frias, ele sempre voltava para olhar para ela uma vez mais.
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