Nascimento de Alice
2 Capítulo 2: A chegada de Alice ao lar
Notas iniciais
Em meio a tantos problemas, Pai Manoel precisava enfrentar mais um: a viuvez. Cuidar de quatro meninas pequenas sem ajuda, apoio, força e o sorriso tranquilo de seu único amor não seria uma tarefa fácil. Maria Júlia foi a única namorada, mulher que escolheu para acompanhar na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, companheira de uma vida inteira, partiu deixando-o despedaçado. Ao saber da notícia da morte de seu amor, o pobre homem, ainda com resquícios de embriaguez, sentiu como se uma navalha transpassasse seu coração, fígado, estômago e cada pedacinho de seu corpo frágil.
Mas aquele homem pobre, precisava se reerguer e arranjar dinheiro para leite, fraldas, mamadeiras e dar um enterro digno a sua esposa. Saiu sem saber exatamente onde ir, parou em frente a um telefone público. Ligou para um dos irmãos que morava em São Paulo e conseguiu o dinheiro para o sepultamento. Ele depositaria ao raiar do dia. Precisava voltar para casa e dar a notícia à vovó Joanoca e suas filhas. A alegria do nascimento da nova filha, Alice, seria substituída pela dor da perda do grande amor, a sua Maria Júlia.
Pai Manoel não voltou ao hospital, passou o resto do tempo sentado no chão da cozinha, onde encontrou Maria Júlia sentindo dor. Estava imóvel, olhos secos, pálido e quase cadavérico, quando vovó Joanoca apareceu para fazer um café. O olhar de pai Manoel foi responsável de transmitir-lhe a notícia. Não era uma cena comum, mas aquela mãe velhinha puxou-lhe pelo braço para que ele levantasse e deu-lhe um abraço acolhedor. Foi um abraço de encorajamento para que Pai Manoel tivesse força para tomar as devidas providências. Ele chorou. Chorou um mar! Derramou todas as lágrimas possíveis. E foi!
Depois do triste sepultamento, era chegada a hora de buscar a pequena Alice no hospital. Passou até pela cabeça do velho pai em deixá-la para adoção. Mas pensou que Maria Júlia não ia gostar dessa ideia. Era necessário que suas filhas crescessem juntas. Se Deus lhe deu Alice, é porque ela tinha uma missão, pensou.
Alice era uma menininha muito linda, de olhos grandes e vivos! Já nasceu cabeludinha e era agitadinha. Parece que já sentia a falta da mãe. Ao chegar em casa, as irmãs estavam tão tristes, tão cabisbaixas, que não valorizaram a chegada de menininha. Afinal, de certa forma, perderam a mãe em consequência da gravidez da pequena Alice.
À vovó Joanoca, coube a responsabilidade de pegá-la no colo, dar banho e dar carinho. As irmãs se revezavam nas trocas e lavagem de fraldas. A pai Manoel, o difícil dever de conseguir leite. No início, alguns vizinhos ajudaram, a igreja fez uma campanha e pai Manoel saia todo dia à procura de trabalho. Emprego não conseguia, mas arranjava alguns bicos. E assim Alice foi crescendo espevitada e cheia de graça.
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