Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis

15 Capítulo 15 - Não se pode confiar em um sanguessuga


Centro de Investigação Criminal, São Paulo, Brasil, 2020

Não se pode confiar em um sanguessuga.

Se Victor, um dia, fosse escrever um manual de sobrevivência, essa seria a primeira frase dele. Decididamente, não se pode confiar em um sanguessuga.

E era exatamente isso que ele e Cíntia faziam naquele momento. Confiavam em Carlos. Carlos, que agora estava do lado de lá. Carlos, que nunca fora um policial tão bom assim. Carlos, que não tirava os olhos de Victor. Carlos, que era um sanguessuga.

— Só estamos adiando o inevitável – disse Victor, sem tirar os olhos do vampiro.

– Ele ainda é um policial – sussurrou Cíntia.

Aquilo não poderia estar mais distante da verdade. Com raras exceções, vampiros não poderiam ser policiais. A academia ainda era muito tradicional e, quando alguém era convertido, sabia que seria afastado do cargo imediatamente.

– Tenho dúvidas quanto a isso, Cíntia.

– Victor, pelo amor de Deus...

Carlos ouvia a discussão dos dois com desinteresse. Depois que cruzou a linha que separa a vida da morte – sobre a qual nos equilibramos todos os dias –, aquelas questões perderam a importância. Agora, tudo o que ele desejava era matar sua sede – assim como saciar seu desejo. Como se a morte fizesse aflorar todos os desejos mais ocultos, e fosse difícil resistir a eles. Quase impossível. Talvez ele não quisesse resistir, no fundo, sabia disso.

Victor era um desejo antigo. Quando o conheceu, Carlos se apaixonou imediatamente pelo colega de trabalho. E logo percebeu que, se queria que continuassem amigos, deveria esconder aquele sentimento tão inapropriado. Amava-o em segredo. Mas a morte não dava conta de esconder os segredos que a vida ocultou. Não precisava mais. Estava livre.

Virando-se para o vampiro, Victor perguntou:

– Onde está meu irmão?

– Eu digo, se me derem o que eu quero – disse o vampiro.

– E o que você quer? – perguntou Cíntia.

O vampiro sorriu.

– Um fragmento de lápis-lazúli.

Os investigadores se entreolharam, visivelmente transtornados. Aquilo não poderia ser pior. Sabiam que era contra a lei dar lápis-lazúli a um vampiro. Punível com pena capital. Sabiam também que só funcionava se fosse um presente dado por um humano. Nada de comprar. Nada de roubar. A pedra o protegeria da luz do sol somente se fosse ganha.

– Sabe que não podemos fazer isso – disse Victor.

Cíntia permanecia calada. Pendurado em seu pescoço estava o pingente que o pai lhe dera de presente quando completara quinze anos. A pedra tinha sido esculpida no formato de um obelisco. Era a única lembrança que tinha dele. Mas isso não importava. A vida de Filipe era mais importante, e se aquele vampiro sabia onde ele estava, então era o que tinha que fazer.

Ela arrancou o pingente em um único movimento e estendeu-o para Carlos.

– O que está fazendo? – perguntou Victor.

– Fazendo o que é preciso para encontrarmos Filipe.

– Nós podemos encontrá-lo sem a ajuda desse sanguessuga.

Os olhos do vampiro fitaram a pedra com um desejo jamais por ele experimentado. Ansiava por ela. Precisava dela. Estendeu a mão para pegá-la, mas havia o policial (agora um desejo menor) entre ele e a pedra.

– Cíntia, por favor... Deixe-me fazer isso, se alguém tem que se tornar um fora-da-lei, que seja eu – sussurrou ele. – Filipe é o meu irmão.

Ela não resistiu. Deixou que Victor agarrasse o pingente.

As câmeras, pensou ele. Se alguém estiver nos observando por elas, está tudo acabado. Um policial dando um fragmento de lápis-lazúli a um vampiro. Quem fizer isso será condenado à pena capital. Estou condenado, por Deus.

Victor agarrou o distintivo que ostentava com tanto orgulho. Sem tirar os olhos do vampiro, estendeu o artefato para a câmera de segurança que pairava sobre eles. Então, atirou-o ao chão. Ninguém entendeu aquele movimento. Não sou mais policial, não sou mais nada.

Então Victor estendeu a mão com o pingente para o vampiro, que segurou a pedra. Com a outra mão, apontava a pistola com balas de água benta.

— Primeiro, me diga onde ele está, então lhe darei a pedra.

– Tenho sua palavra de policial?

– Tão certo quanto o fato de você estar morto.

– Seu irmão e a vampira chamada Lea vão procurar pelos Cavaleiros do Apocalipse. Edgar presenteou-a com a Marca de Sangue. Eles devem estar deixando o prédio neste momento, se é que já não o fizeram.

– Por que meu irmão faria isso?

– Acho que ele pensa que pode parar isso...

Victor olhou para Cíntia e pensou que, definitivamente, não se pode confiar em um sanguessuga, tanto quanto não se pode confiar em um humano.

Então puxou o gatilho.

***

Na televisão da pequena sala de vigilância era possível imagens da Força Nacional desembarcando em São Paulo.

Acabou, os vampiros devem se retirar agora. Estão acabados.

Filipe Salvador parou o carro. A cabine estava vazia, não havia ninguém para abrir o portão. Estava, também, muito escuro. Segurando uma pistola de luz, ele desceu do carro. Deixou Lea deitada no banco detrás, ainda se acostumando com sua nova vida. O controle remoto da coleira de contenção estava em seu bolso, e ele o apalpou. Bom menino.

Fora do carro, Filipe caminhou a passos largos até a cabine. Passou o cartão de acesso A1 no leitor que emitia uma luz vermelha, ela ficou verde e a porta de abriu. Foi até o painel e apertou o botão que deveria abrir o portão. O portão começou a se erguer lentamente. Ele programou para que se fechasse novamente em um minuto e voltou para o carro.

Filipe entrou no carro e deu a partida.

Quando os faróis se acenderam uma silhueta estranha estava na frente do portão, no caminho do carro.

Ele sabia que não era humano. Não poderia ser. Enquanto o portão se abria lentamente, Filipe pensou no que estava acontecendo ali. Os vampiros atacavam o Centro de Investigação Criminal, cérebro da inteligência da polícia, logo após descobrirem que um grupo terrorista chamado Cavaleiros do Apocalipse estava se organizando. Então, aquela garota que agora dormia no banco detrás, apareceu em sua mesa de autópsia com uma marca estranha, semelhante a um número quatro tatuado em suas costas. Quando acordou, a garota disse que não queria aquilo, que não desejava fazer o mal. Tinha pai e mãe, e mesmo sendo odiada pelos colegas de escola, não os queria mortos. Por isso aceitou ajudá-lo.

A garota também sabia de uma coisa estranha: um caminho secreto. Talvez tivesse a ver com aquela marca. Quando fechava os olhos ela dizia ver um caminho em sua mente.

O portão terminou de abrir. Voltaria a se fechar em sessenta segundos.

O estranho continuava lá, parado no meio da pista.

Filipe ouviu um rangido leve. O portão voltava a se fechar. Se queria mesmo sair dali, tinha de ser rápido. Sem pensar duas vezes, acelerou na direção da figura, que saltou de uma forma inumana, e se chocou contra o teto do carro. A criatura enfiou uma das mãos através da lataria do teto, e tentou agarrar Filipe.

Meio abaixado e acelerando com tudo, Filipe atravessou no momento em que o portão estava pela metade. O teto foi raspado pelo portão, e a criatura se foi. Filipe olhou para o buraco no teto, pelo qual via algumas estrelas distantes.

Desejou que não chovesse.

***

Gigante dos Mares, Ilhas Virgens Americanas

Kassius desembarcou na Ilha de São Tomás para a parada de vinte quatro horas do Gigante dos Mares. Com seus óculos de sol, caminhou pelo píer. As praias estavam cheias de turistas que falavam várias línguas diferentes e, pela primeira vez em muitos anos, ele se sentiu confortável.

Não precisava temer o sol. Aquela bolha amarelada de gás não representava mais perigo enquanto o fragmento de lápis-lazúli estivesse dentro de seu coração. Tampouco precisava temer os humanos, eram apenas animais que serviram de alimento. A maioria sequer imaginava o que se passava nos bastidores da vida: logo os vampiros seriam a espécie dominante, e não havia nada que eles pudessem fazer para evitar.

Parou em um quiosque. A televisão estava ligada no noticiário internacional. As eleições, adiadas para dezembro por causa de numerosos e tumultuados protestos, chegava ao fim. A democrata Jackeline Steiner reconhecia sua derrota para o republicano Edmund Bekker. Parece que o mundo ficou mais conservador, pensou Kassius. Ou, talvez nunca tivesse deixado de ser. Vampiros eram perseguidos no passado e assim seria no futuro. A não ser que as coisas mudassem, não havia razão para esperar por algo diferente.

O atendente aproximou-se.

– ¿Quieres algo, señor?

– No gracias.

Recostou-se no balcão. O atendente foi embora.

A vida, o grande mistério do universo. Algumas pessoas simplesmente tomavam sol. Outras mergulhavam no mar. Crianças brincavam, correndo pela praia. Adultos jogavam vôlei. O grande clichê da vida. Ninguém se importava. Estavam todos felizes com a ignorância. A morte, por outro lado, já não lhe parecia tão secreta assim. Afinal, sua raça a vencia todos os dias e, embora ainda dependessem dos vivos, se sentiam livres. Sem medos. Sem dúvidas. Sem débitos.

Kassius deixou o quiosque e caminhou pela praia.

Lembrou-se de tudo o que passou enquanto estava com Clarissa e sua turma. Todas as mentiras. Todo o fingimento. A dissimulação. Só precisava que ela fizesse o que ele queria. Mas ela descobriu a verdade. E a verdade o levou até onde ele estava agora. Pobre Clarissa, mal sabia ela o que fazia quando aceitou ajudá-lo. Juliette. Marcos. Evan. Douglas. Isaac. Tolos. Humanos são fáceis de manipular, têm o coração fraco.

Caminhando pela praia enquanto esperava o navio retomar seu curso, Kassius viu um grupo de crianças fazendo castelos de areia. Aproximou-se de uma delas – uma garotinha de cabelos longo e loiros, com sardazinhas no nariz.

– Mas que castelo lindo – disse o vampiro, inclinando-se um pouco.

A garotinha olhou para o alto e sorriu. Continuou com sua brincadeira, empilhando areia moldada por um balde. Do lado dela, dois garotinhos também faziam castelos – e eram todos loiros.

Uma mulher se aproximou. Levava um coco na mão, e usava um enorme chapéu rosa. Tropeçando na areia, correu até eles.

— Olá, senhor...

Kassius fingiu surpresa, como se não a tivesse percebido antes.

— Olá, são seus filhos?

— Sim, são meus...

Quando olhou dentro dos olhos da mulher hipnotizou-a imediatamente. Ela deixou o coco cair, e ele rolou para o mar. Nem tudo o que o mar leva, ele devolve. A maioria das coisas volta, mas algumas são simplesmente irrecuperáveis.

— São gêmeos... Beatrice, Enrico e Lorenzo.

— Onde está o pai? – perguntou Kassius.

— Um velho. Matei-o para ficar com a herança – disse ela.

Kassius riu. Os humanos, como são fracos. Gostava de se aproveitar da desgraça da existência humana, dos pequenos detalhes sórdidos.

— Como foi?

— Durante uma relação sexual. Dei a ele mais azulzinhos do que ele conseguia aguentar.

A mulher parecia um fantoche. Os braços caídos, os olhos com uma expressão distante, como se desligados. Kassius segurou-a pelos ombros.

— Há alguma coisa de interessante nessa ilha, algo que eu deva ver?

— A mulher na cabana. No fim da trilha.

— Certo querida, agora, porque não vai nadar um pouco? – sussurrou ele.

A mulher olhou para as crianças.

— Preciso cuidar das crianças...

— Não se preocupe, eu tomo conta deles. Pode ir.

A mulher olhou de relance para os filhos. Sim, poderia ir. Não precisava mais deles. Não precisava de nada. Sem olhar para trás, caminhou mar adentro, até desaparecer por completo.

Kassius olhou novamente para a garotinha de construía castelos de areia.