Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis

9 Capítulo 9 - Orações no escuro


Lugar não identificado, São Paulo, 2020

Cachorro Louco indicou o lugar e, pela primeira vez desde que saíram, o velho pareceu realmente desconfiado.

Samanta estava lá embaixo, escondida e, quando chegasse a hora, ele precisaria dar um jeito no velho para que Samanta se alimentasse de seu sangue.

— Tem certeza de que ela está aí embaixo? Se estiver mentindo para mim – ameaçou o velho.

Cachorro Louco apoiou a mão no ombro do velho.

— Não estou mentindo, ela está aí dentro.

O velho observou melhor a construção. Era um sobrado abandonado, com as janelas cobertas por tábuas – assim como a porta de entrada. Parte do teto desabara, e estava escuro como a mais escura das noites.

— Esse lugar não parece seguro.

— Acredite em mim, é seguro, se não ela não estaria aí... A entrada fica lá atrás – disse Cachorro Louco, dando dois passos à frente.

O velho começou a movimentar a cadeira de rodas, que fazia um guincho absurdamente alto.

Deram a volta por um beco, onde trepadeiras caíam do alto como garras de monstros prestes a devorar suas vítimas. Enquanto se dirigia para sua morte (ainda que não soubesse disso), o velho pensou na vida que tivera. Flashes de uma infância relativamente feliz em Guadalajara, misturadas a uma vida adulta solitária e desgostosa no Brasil apareciam em sua mente, como um prelúdio do que estava por vir.

Quando chegaram à parte traseira do sobrado, eles encontraram o que parecia ser a entrada de um porão. Cachorro Louco levantou a tampa de madeira, e então o velho parou a cadeira de rodas há cinco metros da entrada.

– Acho que aqui está bom. Diga para sua amiga vir me atender aqui em cima mesmo, não pretendo demorar – disse o velho.

Cachorro Louco se aproximou da cadeira de rodas.

— Está tão perto...

— Não posso descer com essa cadeira por escadas.

— Não são escadas, é uma rampa – mentiu Cachorro Louco. – Se chegar mais perto conseguirá ver que é fácil descer.

O velho olhou para Cachorro Louco como se ele tivesse uma doença contagiosa. Negou com um movimento da cabeça. Estava desistindo, estragando o plano de Cachorro Louco. E ele não poderia permitir isso em hipótese alguma.

— Para quantos sanguessugas pretende me dar como alimento, seu verme maldito? – gritou o velho, dando a volta com a cadeira.

Cachorro Louco correu na direção da cadeira. Estava tão perto, não poderia desistir agora. Agarrou os braços da cadeira e começou a empurrá-la na direção do porão.

— O que está fazendo? Pare com isso!

O velho tentava frear a cadeira com as mãos, mas, o máximo que conseguiu foi machucá-las nas rodas. Cachorro Louco continuou a empurrar a cadeira, a despeito dos gritos do velho, e empurrou-o no porão. A cadeira desceu de lado pelas escadas, então tombou e derrubou o velho em cima de uma pilha de escombros.

Por um momento tudo permaneceu em silêncio. Então a porta do porão foi fechada com um estrondo seco.

No fundo do porão escuro algo pareceu se movimentar lentamente.

— Quem está aí? – gritou o velho. – Se for um sanguessuga, saiba que eu tenho uma pistola de água benta aqui comigo, e não vou hesitar em usá-la.

Uma sombra se moveu.

No escuro e com medo, o velho rapidamente enfiou a mão dentro da camisa e retirou um crucifixo de lá de dentro. Beijou-o, depois o apontou para frente.

— Alguém me ajude!

Nada. Apenas a escuridão que parecia engoli-lo lentamente.

— Não adianta pedir ajuda, ninguém virá – disse Cachorro Louco. – Ninguém sabe que está aqui, e mesmo se soubessem não se importariam. É uma boca a menos com quem dividir a comida do albergue.

O velho cuspiu.

— Seu verme filho da puta! Se eu agarrar esse seu pescocinho, vou fazer com que se arrependa de ter me trazido para esta ratoeira!

— Que boca suja – Disse uma voz que parecia emergir da escuridão.

O velho sentiu os pelos do corpo se arrepiarem. Olhou para frente, e viu a silhueta de uma garota, no meio do porão, os cabelos iluminados pela luz da lua que entrava por algumas frestas. Parecia um fantasma aterrorizante, recém-saído de algum livro de terror.

Dios te salve, María, llena de gracia, el Señor es contigo...

Antes que pudesse terminar sua oração, o velho foi atingido na cabeça por algo pesado. Sentiu uma dor lancinante na base do crânio, então caiu para frente. Tentou segurar o crucifixo, mas Cachorro Louco pisou em sua mão.

Ferido e sem conseguir se movimentar, o velho desistiu de lutar pela vida. A garota se aproximou sorrateiramente, e agarrou-o pelo colarinho. Não importava se ele fedia como cem gatos mortos, ela cravou os dentes no pescoço dele e sugou o sangue quente que jorrou de sua jugular, enquanto os gritos do homem se misturavam a orações em espanhol.

Bendita eres entre todas las mujeres y bendito es el fruto de tu vientre, Jesús. Ahhhhh... Santa María, Madre de Dios, ruega por nosotros pecadores ahora y en la hora de nuestra muerte... Ahhhhh...

Então ele morreu.

– Amém – disse Samanta, com os lábios vermelhos de sangue.

***

Subsolo do Centro de Investigação Criminal, São Paulo, Brasil, 2020

Lea abriu os olhos e estava deitada sobre uma mesa de aço inoxidável.

Girou o pescoço lentamente e, ao seu lado, um cadáver repousava. Outro cadáver, logo concluiria.

Não sabia exatamente o que estava acontecendo. A última coisa que se lembrava era de olhar pela janela, e ver Edgar flutuando do lado de fora, sorrindo para ela. Ele era o único sorriso que ela via. Dos outros, só risos de deboche. Tentou se levantar, então percebeu que suas mãos estavam amarradas à cama de metal.

O interessante é que, apesar de estar completamente nua sobre uma placa de metal, Lea não sentia frio. Na verdade, não sentia nada. Dor. Alegria. Fome. Sede. Tristeza. Nada. Apenas uma leve sensação desconhecida, algo muito parecido com o desespero, que subia por sua garganta e ia até a boca, e forçava seus dentes a se projetarem para fora.

— Você acordou – disse uma voz que parecia sair da escuridão.

Lea procurou pelo dono da voz por todo o campo de visão que tinha – e não era muito. Então, ele saiu das sombras. um belo jovem de jaleco branco salpicado por manchas vermelhas que eram sangue.

— O que está acontecendo? – sussurrou Lea.

O jovem se aproximou e sorriu para ela.

— Você é uma vampira.

A jovem pareceu confusa. Negou brevemente com um movimento da cabeça.

— Como isso aconteceu? Edgar disse que não queria me transformar... Que eu sofreria ainda mais...

— Parece que ele mudou de ideia, Lea... Ele a mordeu bem no pescoço, você morreu e ressuscitou, e agora é uma vampira. Deve estar faminta.

— Não sei o que dizer.

O jovem acariciou os cabelos de Lea. Ajeitou algumas mechas que escapavam.

— Tenho uma bolsa de sangue aqui. De agora em diante você terá que se alimentar de sangue, ou então, sua eternidade será abreviada.

— Vai me alimentar? Por que faria isso?

— Preciso de um favor seu. Ajude-me e eu a ajudarei, Lea.

Lea assentiu. A sensação nova crescia dentro de si, e agora ela sabia que era fome. Na verdade, sede. Precisava tomar sangue para ter uma chance de ver a eternidade.

***

Centro de Investigação Criminal, São Paulo, Brasil, 2020

Quando a nuvem de poeira abaixou, o policial Carlos estava de pé, entre Cíntia, Victor e o elevador que os levaria para a sala de contenção.

Cíntia mal podia acreditar no que via. Carlos parecia outra pessoa, como se renascesse diante deles após uma passagem pelo inferno.

Ele estalou os ossos do pescoço com um movimento.

— Ora ora, estavam tentando fugir antes do melhor da festa!

— Carlos? O que aconteceu? – perguntou a investigadora.

O policial-vampiro encarou Cíntia. Victor mantinha a arma apontada para ele, mas ele não parecia se importar. Deu dois passos na direção dos policiais.

— Pare, ou eu atiro! – gritou Victor.

Carlos olhou para o chão, então sorriu. As marcas de dentes em seu pescoço eram evidentes: dois furinhos vermelhos. Foi com total horror que Cíntia viu seu ex-amigo projetar os caninos e exibi-los.

— Você deveria experimentar isso, Cíntia. Não sabe como é libertador!

— Não posso acreditar que Edgar fez isso com você, Carlos!

— Só tenho a agradecer a ele. Não percebe que agora comecei a viver?

— O que está dizendo?

— Estou dizendo que minha vida era uma merda, e agora eu me sinto o máximo! Quer ver o que eu posso fazer?

O vampiro abaixou-se, apoiou as mãos no chão e pegou um impulso. Grudou-se no teto e ficou de ponta cabeça, preso pelos pés que, de alguma forma, aderiam ao teto como se tivessem ventosas invisíveis.

— Precisa aprender a ver as coisas por outro ângulo, investigadora – disse ele.

Victor mantinha a pistola apontada para a cabeça de Carlos, que caminhava pelo teto.

Cíntia encostou-se na parede e deixou-se cair, até tocar o chão.

— Já chega, vou matá-lo!

— Não, Victor!

O policial puxou o gatilho, mas ouviu-se apenas um clique e nada aconteceu depois. Aquelas balas de água-benta costumavam falhar – e geralmente nas piores horas.

O vampiro desceu do teto e encarou os dois.

— Parece que seu tiro falhou, policial.

— Mas o próximo com certeza não vai – respondeu Victor.

— Se fizer isso, vai se arrepender. Não quer saber o que aconteceu com seu irmão?

Victor olhou para Carlos, atônito, e então afastou o dedo do gatilho lentamente.