Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
8 Capítulo 8 - Estou cansado da eternidade
Flórida, lugar não identificado
Juliette abriu os olhos.
A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi Evan – e em tudo o que aconteceu antes de se separarem dos outros. Foi como se uma enxurrada de lembranças invadisse sua mente de uma única vez, causando uma terrível dor de cabeça.
Lembrava-se de ver Isaac perder a cabeça, e depois tudo ficara muito confuso. Quando a bomba explodiu, a coisa só piorou.
Agora, estava em um quarto semi-iluminado pela luz do sol, em uma cama com lençóis que uma dia foram brancos, mas que atualmente exibiam tons amarelados.
Sentou-se, desnorteada. O lugar mais parecia um centro cirúrgico abandonado, com diversos aparelhos empilhados nos cantos. Da parede à direita a luz do sol entrava por uma janela.
Procurou por Evan em toda a extensão do quarto, mas foi em vão. Ele não estava lá. Tentou se levantar, mas se sentiu fraca demais. Então percebeu o soro ligado à veia. Arrancou-o com um puxão e levantou-se de sobressalto, caindo em seguida.
— Evan! Evan! Evan! – gritou, começando a chorar.
Evan não apareceu.
Juliette estava caída no chão frio, e tentava a todo custo se levantar, mas seus esforços foram em vão. Estava muito fraca. Pior, não sabia onde se encontrava, nem mesmo há quanto permanecera ali.
Passando os olhos pelo quarto, ela viu uma velha cadeira de rodas. Precisava sair dali, encontrar Evan e voltar para onde estavam os outros. Clarissa e Douglas, certamente precisavam deles. Juliette começou a se arrastar pelo chão, primeiro vigorosamente, com todas as forças de que ainda dispunha, depois sentindo um grande peso. A cadeira de rodas estava em um canto, com algumas caixas em cima dela, nem quarenta metros os separavam, mas Juliette sentia como se fossem quilômetros, tamanho o esforço que teve de desprender para chegar até ela.
Quando chegou ainda teve que derrubar as caixas e, depois, de se arrastar lentamente para a cadeira. Quando cumpriu seu objetivo, Juliette descansou um pouco. Evan de repente invadiu seus pensamentos. Agora via, amava-o verdadeiramente, e quando tivesse a chance, confessaria seu amor. Não queria mais perder tempo.
Começou a movimentar a cadeira na direção da porta do quarto e saiu.
Um enorme corredor se estendia à frente de Juliette, que, com todas as forças, seguia em frente com a cadeira. Por diversas vezes sentiu que os braços não a obedeciam, e teve de parar, até alcançar portas duplas. Passou pelas portas e então viu uma cortina de luz quase cegá-la. Estava no que parecia ser a recepção do estranho hospital – que também estava vazia.
— Evan?
Apenas o eco de sua voz se propagando pelo espaço.
Juliette continuou com a cadeira e saiu pelas portas da frente do hospital.
Então os viu. Havia muitos deles, todos vestidos de branco. Juliette parou a cadeira e observou as pessoas caminhando tranquilamente, trabalhando, cuidando umas das outras ou simplesmente admirando a natureza.
Uma delas se aproximou. Uma mulher de longos cabelos louros.
— Vejo que deixou seu leito – disse ela. – Não deveria ter feito isso. Ainda não está totalmente recuperada.
Juliette a encarou com obstinação.
— Quem é você? Onde estou?
— Você está em segurança, é o que importa... Agora, vamos voltar ao seu leito...
A mulher agarrou a cadeira de rodas e começou a movimentá-la de volta ao corredor. Juliette segurou-a pelo braço. A mulher parou de empurrar a cadeira, desconcertada.
— Onde estou? Não quero machucá-la.
A mulher apenas sorriu.
— No Paraíso, onde mais?
***
Londres, Inglaterra, 2020
Simon Von Bauer, primeiramente, achou que fosse apenas um sonho. Ainda estava deitado em sua cama e tinha três anos, e a mãe cantava tristes histórias de ninar para ele.
Mas não era um sonho.
Quando Lorde August avançou sobre Simon e cheirou-lhe o pescoço – fungando feito um cão de caça –, ele achou que estava morto – ou acordaria como vampiro, o que dava no mesmo. Porém, o vampiro não o mordeu. Limitou-se a prová-lo, como se provaria um vinho. Os lábios no pescoço e uma das mãos dentro das calças de Simon, em um movimento ousado – mas longe de ser desagradável. August acariciou o sexo de Simon vigorosamente, enquanto o jovem ficava cada vez mais excitado. Simon fechou os olhos e pensou na garota que amava, Valentina, mas com quem não pudera se casar quando o destino o destituíra de sua posição social. Lorde August agora era Valentina, com seus longos cabelos loiros e seus olhos azuis como o céu.
— Valentina... – sussurrou Lorde August.
Por um ou dois instantes Simon acreditou que era mesmo Valentina que estava ali, na sua frente, fitando-o. Chegou a acariciar o rosto de August, e a imagem da bela mulher desapareceu lentamente à medida que o vampiro se libertava de seu disfarce.
Simon não escondeu sua expressão de decepção.
Quando Lorde August terminou sua degustação, Florence chegava em casa com o assado e licor de amoras. Era mandada por seu chefe porque ela sempre conseguia um desconto nas compras, o qual August jamais obtinha.
– Não tinha de licor cassis – explicou ela, colocando a garrafa sobre a mesa.
Lorde August sorriu – pelo menos a carne estava bem assada. Ele serviu uma generosa fatia a Simon, então sentou-se para vê-lo comer. Florence permanecia ao seu lado, a cabeça apoiada no ombro do vampiro. Certamente conversam por pensamento, pensou Simon, erguendo os olhos lentamente para o estranho casal.
– Como está o jantar?
– Perfeito, meu lorde.
Lorde August encarou Florence severamente.
– Onde estão seus modos? Sirva um pouco de licor para nosso hóspede.
Florence levantou-se de sobressalto.
– Claro, meu lorde.
Pegou três taças na cozinha e encheu-as com licor. Lorde August ergueu a taça dele e os outros dois fizeram o mesmo.
— À nova vida que espera por nós – disse o vampiro.
Brindaram, e Simon bebeu seu licor de uma única vez.
Quando terminaram o jantar, Florence cuidou de arrumar a louça – nisso ela era boa.
Simon foi encontrar Lorde August observando as plantas do jardim de inverno, que era um cômodo de dezesseis metros quadrados, com duas das quatro paredes feitas de vidro e sem um teto, de modo que as plantas recebiam irrigação natural quando chovia.
— Meu lorde – disse Simon, se aproximando.
— Ah, é você Simon...
— Podemos conversar um pouco?
— Claro que sim. Conversemos enquanto cuido das plantas... Elas estão morrendo... – disse August, cortando algumas videiras com a ajuda de uma enorme tesoura de jardineiro.
Simon entrou no jardim de inverno.
— Posso cuidar do jardim mais tarde, se desejar. Terei o maior prazer de fazer o que o senhor precisar, meu lorde.
Lorde August sorriu. Deixou a tesoura de lado e sentou-se em um belo banco de madeira. Deu alguns tapinhas do seu lado, indicando que Simon deveria se sentar ali. Simon obedeceu.
— Essas plantas estão morrendo, e não há outra forma de salvar meu jardim a não ser arrancando-as e plantando outras no lugar – disse August. – Sabe, Simon, eu construí essa mansão antes de... Antes de você sabe o quê ter acontecido comigo... Coloquei cada uma destas pedras, ergui esses muros, plantei essas plantas... Elas são minha responsabilidade, por isso, preciso cuidar delas... Isso foi o meu sonho, antes de tudo... Você tem sonhos, Simon?
Simon Von Bauer negou com a cabeça.
– Meus sonhos foram despedaçados, meu lorde.
Lorde August segurou a mão de Simon com delicadeza. Embora não conseguisse sentir, sabia que ela era quente, como todas as mãos dos que ainda viviam e cujos corações impulsionavam o sangue pelas veias e artérias – vermelho vivo.
— Então, deveria reconstruí-los. Nada é pior do que um jovem sem sonhos.
— Sonhos só me trouxeram dor e solidão, meu lorde.
Lorde August sorriu.
— Você é uma criança, Simon, dor e solidão não combinam com você. Além disso, agora estamos juntos, e espero conseguir diminuir pelo menos sua solidão.
Simon sorriu. Seus olhos se encontraram com o do vampiro. Lorde Augusto tinha cabelos pretos como a noite, e assim seria por toda a eternidade. Havia poucas rugas em seu rosto, e não haveria outras, pois ele estacionara nos quarenta anos e deles nunca mais sairia.
— É sobre isso que venho lhe falar, meu lorde... Não quero parecer petulante, mas, não entendo porque não me transforma logo... O que está esperando...
Os olhos de Simon brilhavam enquanto falava com Lorde August.
O vampiro cruzou os braços e encarou o jovem. Aquele rapaz de aparência humilde, porém agradável de olhar, de traços fortes, queixo quadrado e olhar penetrante, era parte de algo grande, maior do que qualquer outra coisa que já existiu.
— Meu belo Simon, você não merece o castigo da vida eterna, da prisão carnal que nos mantém vivos mesmo após a morte – Lorde August acariciou o rosto do jovem. – Terás que viver e morrer como todo ser humano. Terás suas paixões, suas raízes, suas dúvidas e medos.
– Meu lorde...
Novamente Lorde August era Valentina. Os longos cabelos loiros pareciam ainda mais sedosos do que ele se lembrava, assim como os olhos de um profundo azul. Valentina estava ali, na sua frente, era ela, com as mesmas vestes que ele se lembrava.
Simon inclinou-se na direção de Valentina, seu amor há tanto tempo perdido. Segurou seu rosto e beijou-a, as mãos acariciando-a nos cabelos. Quando se separou, a mágica havia desaparecido. Ele abaixou os olhos, envergonhado.
– Por que me torturas, meu lorde?
– Desculpe-me, Simon... Mas, se quiser me ajudar, terás que ser mais forte do que a mais real das ilusões.
— Ajudá-lo como?
Lorde August pareceu mais taciturno do que jamais fora.
— Eu tenho uma missão para você, Simon Von Bauer. E preciso que cumpra essa missão como humano, e não como semi-vivo.
— Que missão, meu lorde?
— Você sabe o significado de seu sobrenome?
— Sei que é um bom sobrenome, meu lorde.
— Acredite, é muito mais do que um bom sobrenome, Simon.
Simon encarou Lorde August, que desta vez não sorria. Seus olhos estavam vermelhos, e ele parecia ver o interior da alma do jovem.
— Sua família vem matando vampiros há séculos. São caçadores, nossos inimigos naturais. Enquanto vocês existirem, nossa existência estará ameaçada... Mas você é o último de sua linhagem, então, acho que não temos muito com o que nos preocuparmos...
A revelação deixou Simon Von Bauer boquiaberto. O jovem negou com os olhos, depois pareceu digerir lentamente as informações. Se era verdade que ele era descendente de caçadores de vampiros, então, sua missão falhara miseravelmente, pois os vampiros não apenas haviam sobrevivido através dos séculos, como também eram aceitos em muitos países – ainda que a Inglaterra os recusasse terminantemente.
— Então, o que estou fazendo aqui, agora, ao lado de um vampiro?
— A vida e a morte são estranhas, Simon. Você nunca sabe onde encontrará uma ou outra – Lorde August sorriu.
— Meu lorde, por favor seja claro – pediu August.
— Como eu disse, tenho uma missão para você... Para isso, basta dizer sim...
Simon pareceu ficar tenso. O vampiro ainda segurava sua mão, os olhos dentro de sua alma, como se a lesse tal qual se lê um livro.
— Eu digo...
— Mas, antes, escute o que tenho para dizer... Essa não será uma missão qualquer, estará arriscando sua vida nela. Eles usarão todas as armas para impedi-lo de cumpri-la. Tentarão você com seus desejos mais profundos, mas será tudo ilusão. Antes de dizer sim, precisa saber que não poderá voltar atrás em sua decisão. Porém, se aceitar, terá a garantia de uma vida feliz e livre dos maiores medos que hoje nos afligem.
Simon suspirou. Aquele homem salvara sua vida, e agora dava a ela um propósito.
— Eu digo... sim, meu lorde.
Lorde August apertou a mão de Simon.
— Primeiro, deve treinar luta com espada e tiro. Depois, deve deixar sua linhagem prosseguir, para o caso de falhar e, então, partirá para Roma, onde cumprirá sua missão.
— E qual seria essa missão, meu lorde?
A face de August ficou ainda mais soturna.
— Preciso que ponha um fim na linhagem dos vampiros.
As palavras ecoaram pelo jardim de inverno, reverberando nas paredes de vidro. Os olhos de Simon se arregalaram, e sua boca se abriu de estupefação.
— Por que faria isso com sua própria espécie?
August voltou a sorrir.
— Acho que estou cansado da eternidade.
Fale com o autor