Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
6 Capítulo 6 - Nos braços do vampiro
Cíntia e Vítor estavam sentados em um cubículo onde mal cabia um deles, com a parca luz de um celular os iluminando. Era um armário de metal, em uma das salas onde guardavam produtos químicos. O cheiro de formol estava quase sufocando os dois policiais.
As pernas de Victor estavam esticadas, e ele olhava detidamente para um terço que pendia por entre os dedos. Cíntia estava com as pernas encolhidas, envolvidas em um auto-abraço. Olhava para o chão.
— Como é mesmo que está escrito? Os mansos herdarão a Terra?— perguntou Victor, ainda olhando o terço. – Não foi exatamente isso que aconteceu.
Cíntia manteve-se calada. Estava exausta.
Quando Victor a encontrara, minutos antes, ela estava em um dilema: não conseguiria sair da situação em que se encontrava sem um confronto. Por mais que tentasse evitar matar um ser humano (se é que os vampiros assim poderiam ser considerados), sabia que havia situações em que teria e fazê-lo.
Então Victor apareceu e lançou uma bomba de luz – suficiente apenas para causar algumas queimaduras nos semi-vivos, espantando-os.
— Carlos... Ele é um deles agora, ainda deve estar por aí – sussurrou ela.
Victor negou com um movimento da cabeça.
— Não pode ser.
— Edgar me contou. Ele o transformou.
Victor cerrou os punhos. Queria ficar sozinho com Edgar por apenas um minuto, e ele veria do que os policiais são feitos.
— Escute, não encontrei o Filipe, espero que ele tenha sido esperto o suficiente para não cair nas mãos dos sanguessugas – sussurrou ele. – Agora, precisamos sair daqui. É um prédio grande demais, não é seguro. Pelo menos até amanhecer temos que ficar escondidos... Pensei na sala de contenção.
Cíntia suspirou. Provavelmente não eram os primeiros a ter essa ideia, e a sala de contenção – um cubo de concreto de cinquenta metros quadrados com uma enorme porta de aço de noventa centímetros de espessura – ficava no subsolo, talvez longe demais para que a alcançassem antes de serem pegos.
— A sala de contenção fica muito longe.
— Eu sei, mas estamos juntos, e vamos conseguir se formos cuidadosos.
— Não dá pra ser cuidadoso com um bando de vampiros soltos por aí – sibilou Cíntia.
Não, claro que não. Victor sabia muito bem disso. Por isso destravou a arma. Clic!
— O que está fazendo?
— Só precisamos chegar ao elevador, apertar B3 e então caminhar duzentos metros...
— Victor...
O policial sacudiu Cíntia pelos ombros.
— Reaja! Cíntia, pelo amor de Deus! Carlos morreu, mas nós estamos vivos, e fizemos um juramento... Precisa reagir por ele...
Cíntia pareceu acordar para o que estava acontecendo. Ergueu os olhos de encontro aos de Victor.
— Ele sempre sonhou com esse emprego, nós crescemos juntos, e brincávamos de polícia e ladrão, e ele nunca queria ser o ladrão... Victor, aquele vampiro roubou os sonhos do Carlos.
— Eu sei... Eu sei... E não podemos deixar que ele roube os nossos também.
Victor abraçou-a de repente, e Cíntia não se afastou. Permitiu que ele a envolvesse com seus braços, e encostou a cabeça no peito do policial.
— Sarah não atendeu ao telefone, Victor... Estou com medo...
— Escute – Ele segurou o rosto de Cíntia com ambas as mãos. – Ficará tudo bem, nós podemos continuar tentando falar com ela da sala de contenção e, quando amanhecer, pegamos a viatura e vamos encontrá-la.
Cíntia assentiu.
Eles se separaram. Edgar empurrou a porta do armário de metal com uma das mãos, enquanto empunhava a arma com a outra. Cíntia seguia logo atrás dele, aliviada por deixar aquele lugar apertado. Ele apontou para o corredor, sairia primeiro. Cíntia saiu logo depois.
O corredor estava estranhamente silencioso. Passo a passo, os dois policiais seguiram rumo ao elevador.
Então, uma placa de aço desprendeu-se do teto, caindo com um estrondo ensurdecedor, e levantando uma nuvem de poeira. Em cima da placa estava o policial Carlos. Vestia apenas as calças, e sua pele era branca feito gelo.
Encarou Cíntia e Victor com sedentos olhos vermelhos.
***
Gigante dos Mares, em algum lugar do oceano
Tony era um rapaz moreno, de quase dois metros de altura, musculoso e com os cabelos raspados. Trabalhava fazendo a segurança do navio e, naquele momento, aproveitava sua folga para banhar-se em uma das banheiras privativas de uma suíte vazia. Completamente nu, ele entrou na banheira e fechou os olhos.
Marie, a comissária, estava atrasada. Deveria ter chegado há duas horas. Mas ele não desistira, sabia que ela nunca furava com ele. Por isso, decidira esperar, pelo tempo que fosse. Talvez um dos passageiros tenha pedido algo de última hora, e ela tenha adiado sua folga.
Enquanto isso, ele esperava curtindo as águas mornas da banheira.
Escutou um barulho, e concluiu ser Marie, pois ninguém mais sabia que estava ali – naqueles momentos sabia por que o Gigante dos Mares recebera esse nome.
Os passos se aproximaram lentamente, então a silhueta da comissária apareceu. Tony sorriu, e sentou-se na banheira.
— Achei que não viria mais – disse ele.
Marie apenas sorriu. Aproximou-se e sentou-se na borda da banheira.
— Por que não tira as roupas e vem pra cá? Ou quer que eu as tire para você?
Marie encarou-o. Seus lábios se contorceram em um sorriso maquiavélico, e então ela (ou o que quer que fosse) mordeu-o no pescoço, de sobressalto. Foi tão rápido que o homem não conseguiu desviar. Tony tentou socar a criatura que o mordia, mas sentia-se anestesiado, sonolento. Começou a se debater, e em seguida deslizou lentamente para os braços do vampiro.
Kassius deixou que a imagem de Marie desvanecesse até desaparecer por completo. Tinha sua refeição, e também a quem culpar. Isso era perfeito, pois viajar como vampiro não-declarado poderia lhe custar a vida.
Afastou tais pensamentos e continuou a sugar o sangue de Tony.
Fale com o autor