Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis

26 Capítulo 26 - Nós não fazemos prisioneiros


Flórida, Quartel General da Ordem do Sol Nascente

Juliette encontrou Evan saindo da casa de banho.

Ele estava acompanhado de dois homens que Juliette não conhecia, e eles conversavam de uma forma bem animada, de uma forma que ela só conseguia imaginar em um bar, depois de ingerir muito álcool.

— Oi Juliette – disse Evan.

— Oi Evan. Nós podemos conversar.

Ele assentiu. Os outros dois foram embora, prometendo se reencontrarem mais tarde. Juliette acompanhou Evan até um banco no jardim, onde podiam ficar mais à vontade.

— Isso aqui não parece um pedacinho do paraíso? – disse ele, secando os cabelos com uma toalha dourada. – Nós tivemos sorte de ser resgatados por eles.

Juliette alisou os cabelos, como fazia quando queria conversar algo sério – um tique-nervoso, como dizia a avó. De repente sentiu saudades da senhora que a criou, imaginando-a sozinha, pensando o pior sobre sua “neta”. Sentiu também algo estranho, pois até aquele momento não pensou na avó.

— Tem algo de podre nesse paraíso – disse Juliette.

Evan pareceu surpreso.

— O que você tem, Juliette? Não parece feliz por estar aqui.

— E você parece feliz demais, Evan... Não percebe o que está acontecendo? Não temos informações sobre a Clarissa e o Douglas, aliás, sobre o mundo lá fora. É como se não estivesse acontecendo nada...

— Escute, você precisa relaxar um pouco.

— Não percebeu o que está acontecendo, Evan? Uma guerra começou. E nós não estamos lutando... Aliás, ninguém da Ordem parece estar... É como se eles se escondessem aqui...

Evan apoiou a cabeça com as mãos.

— Foi a Clarissa nos arrastou para o meio disso – disse ele.

— Ela morreria por nós, Evan. Enquanto estamos aqui, sentados discutindo.

— E de que adiantaria? Juliette, quando nós entramos nisso não sabíamos o que estávamos fazendo, mas agora sabemos, e eu estou treinando, todos os dias. Eu vou ficar mais forte, e proteger nós dois.

Juliette negou com a cabeça.

— Você não vai encontrar força ou coragem aqui, Evan. Esse lugar parece a porra de uma colônia de férias.

Evan pareceu surpreso.

— Juliette Von Bauer falando palavrão? O mundo está mesmo de ponta cabeça...

Antes que Juliette respondesse eles forma interrompidos por um jovem.

— Senhorita, senhor, o senhor comandante da Guarda do Solstício solicita que o vejam imediatamente.

***

O comandante da Guarda do Solstício, Leofrick, encontrou-os em seguida.

Ele era um homem alto, de longos cabelos louros e uma cicatriz na bochecha direita, que parecia ser resultado de um golpe de espada mal executado – para a sorte dele, claro –, e usava uma armadura inteiramente preta.

— Senhor, senhorita Von Bauer – cumprimentou. – Espero que estejam curtindo a estadia.

Juliette olhou para Evan. Pela conversa que tiveram anteriormente, ele já estava se sentindo em casa.

— Eu estou encantada com tudo – disse ela.

— Que bom. Trago notícias de seus amigos Clarissa e Douglas. Segundo nosso informante, eles estão bem, e nesse momento se encontram em um hotel, aqui mesmo, na Flórida.

Juliette levou a mão ao peito, exatamente onde fica o coração. Evan olhou-a com carinho. Eles estão vivos.

— Meu Deus! Como é bom saber que estão bem... Preciso vê-los.

— Nesse caso, terá que conversar com Gadric.

A fala de Leofrick pareceu de consternação. Juliette olhou para Evan, e ele desviou seu olhar para os próprios pés.

— Se me derem licença, senhor, senhorita.

— Obrigada Sir Leofrick – disse Juliette.

O cavaleiro da armadura preta assentiu com um movimento da cabeça e se retirou com passos rápidos. Juliette encarou Evan que, naquele momento parecia conformado, na falta de um termo melhor.

— Eu vou falar com o Gadric.

— Se é o que você quer, Juli, fique à vontade. Eu vou jogar dardos.

Evan saiu assoviando.

Juliette encontrou Gadric na biblioteca. O cavaleiro dourado lia um enorme manuscrito quando ela entrou.

— Juliette, que bom vê-la – disse ele, com visível empolgação na voz. – Estava mesmo pensando em você. E relembrando algumas coisas que não podem ser esquecidas: “A Guarda do Solstício foi criada para oferecer proteção extra à Ordem do Sol Nascente. Quando o Sol se encontra mais distante da Terra, as forças do mal se tornam mais fortes, por isso os cavaleiros da Guarda do Solstício fizeram um juramento diferente dos demais. A cada membro do Solstício morto, ficava mais difícil matar os demais.” Não é fascinante?

— Sim, é fascinante. E também é bom vê-lo – disse Juliette, se aproximando. – Vou direto ao assunto, Gadric: preciso encontrar Clarissa e Douglas.

Gadric ergueu uma das sobrancelhas, e fechou o livro com um estrondo seco que encheu a biblioteca. Depois, o silêncio total.

— Imaginei que seria sua primeira reação ao saber que estão vivos – disse ele.

— Esperava outra?

— Não, claro que não. Afinal, são seus amigos. É compreensível.

— Então, Evan e eu...

— Espero que compreenda, também, que não posso permitir que deixe este lugar – continuou ele.

Juliette cerrou os punhos. Sua expressão foi de total estupefação. Como ele ousava?

— Como assim?

— Aqui é o único lugar seguro para você. Neste momento Kassius se dirige para seu próximo objetivo, e isso culminará em uma guerra nunca antes vista.

— Eu não sabia que era uma prisioneira aqui.

— Por favor, Juliette, sejamos razoáveis. Você não é uma prisioneira. A Ordem do Sol Nascente foi criada para proteger a magia do mundo, para que ela não seja usada pelos vampiros. E os Von Bauer são parte dessa magia.

— É uma forma delicada de dizer que sou uma prisioneira.

Ele sorriu, mas pareceu perturbado.

— A Ordem do Sol Nascente não faz prisioneiros, criança.

— Não sou criança.

— Perto de mim, todos são. Tenho 940 anos – respondeu ele. – Todos aqui estão se aproximando ou já passaram do primeiro milênio de vida.

Juliette não escondeu a expressão de surpresa.

— Não vai mesmo me deixar ir, não é? – choramingou ela.

Gadric se levantou. Em um gesto ousado, aproximou-se de Juliette e, de frente para ela, segurou seus ombros com ambas as mãos.

— Se o comandante da Guarda do Sol Nascente deixasse um Von Bauer caminhar tranquilamente para a morte, ele seria amaldiçoado. E eu não serei esse comandante. Se me der licença.

Ele se foi, deixando Juliette sozinha na biblioteca.

Eu não acredito em você, nem um pouco. Mas preciso jogar o seu jogo se quiser sair dessa.