Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
25 Capítulo 25 - Um garoto caminha
A cabana ficava em uma parte isolada da ilha.
Kassius sabia que nada acontecia por acaso – tudo estava escrito em algum lugar do tecido do tempo. Ah, o tempo... Ele era um túnel pelo qual todos deveriam seguir e, embora não fosse capaz de saber tudo o que estava por acontecer, sabia uma boa parte. E sabia, também, que o oráculo sempre ajudava. Por isso estava ali.
A mulher que ele visitaria já foi um oráculo, há muito tempo. Mas perdera sua magia quando se colocara no caminho de Kassius, em outra existência. Perder a magia não significava perder seu dom, e Kassius ainda poderia usá-la para seus propósitos. Mesmo a mais inútil das criaturas poderia ter alguma utilidade nas mãos certas.
Caminhando pela areia sem deixar um único passo, Kassius chegou a uma grande rocha. Atrás da rocha estava a cabana. Qualquer um que passasse por ali acreditaria se tratar de um local abandonado, porém poucos se atreveriam a invadi-lo: ali a areia era coberta de ossos. Muitos eram arrastados pelas ondas, certamente, mas uma grande parte se decompunha, criando um trilho esbranquiçado.
Kassius deu mais alguns passos na direção da cabana, e esperou. Logo a porta se abriu, e de dentro dela saiu uma mulher assustadora. Seu rosto parecia esculpido em pedra, e estava coberto por musgo e mofo. A boca era um buraco onde não se via nada além de escuridão. Onde deveriam estar os olhos havia apenas duas cavidades ocas. Trajava um longo vestido preto, que se arrastava pelo chão.
— Então, agora o príncipe dos vampiros anda sob a luz do sol – disse ela, com uma voz rouca.
Kassius esboçou um sorriso. Há muito tempo não ouvia aquela voz.
— O Oráculo Caído – disse ele.
A mulher estremeceu.
— Veio zombar de mim, príncipe?
Kassius deu alguns passos adiante, e agora os ossos estralavam enquanto ele caminhava. Poderia flutuar, se quisesse. Mas também sabia que os mortos, à vezes, utilizavam o caminho dos vivos.
— Vim oferecer anistia – disse Kassius.
A mulher pareceu surpresa. Por mais que desejasse se livrar de seu sofrimento eterno, sabia dos truques de Kassius, e que o vampiro não era totalmente confiável (ainda que ninguém seja totalmente confiável).
— O que quer de mim, príncipe? – sussurrou ela. – Não há mais nada aqui que você possa amaldiçoar.
Kassius riu. Gargalhou na verdade. E o som de sua gargalhada ecoou pela ilha. O príncipe dos vampiros caminhou tranquilamente pela estrada de ossos até bem próximo do oráculo.
— Eu posso restituir parte do que você perdeu, se fizer uma única previsão para mim. E posso livrá-la da maldição que tanto a assola.
O rosto pétreo pareceu esboçar uma expressão esperançosa – ainda que temerosa. Ela sabia que as intenções do vampiro eram as piores possíveis, e seu acordo poderia dar um golpe terrível sobre a humanidade. Mas, também, sabia que Kassius poderia obter o que queria por outros meios, e aquele acordo era apenas o caminho mais curto para ele. O tempo estava contra Kassius.
— Uma única previsão, e o fim do meu sofrimento? – repetiu ela.
— Exatamente.
— Parece um acordo bom demais.
— O príncipe dos vampiros pode ser generoso de vez quando, você sabe disso.
A mulher assentiu com um movimento da cabeça. Há muito tempo ela sofria com a maldição de Kassius, castigada com a vida eterna e a solidão eterna. A única forma de parar a dor que sentia era se alimentar de humanos, pelo menos um por dia, pelo resto da eternidade. E as memórias daqueles humanos, sobretudo as tristezas, eram todas revividas por ela.
— Entre, príncipe, vamos conversar.
***
O interior da cabana era pouco iluminado.
Havia uma pilha de gravetos no centro, e dois bancos de madeira, um de frente para o outro. No fundo, um armário abarrotado de frascos antigos parecia prestes a cair. Havia, também, uma cama e um lavabo como segundo e único cômodo.
Kassius sentou-se em um dos bancos de madeira. O Oráculo Caído sentou-se no outro. Ela atirou um frasco na pilha de gravetos, e eles se incendiaram instantaneamente. Então, o interior da caverna se tornou mais iluminado, e as sombras de ambos se projetavam nas paredes, feito manchas negras.
— Dê-me o poder – pediu ela, estendendo um cálice para Kassius.
Com a unha o vampiro fez um pequeno corte no próprio pulso. Deixou que uma pequena porção de sangue escorresse para dentro do cálice. Os buracos que um dia foram os olhos da oráculo se estreitaram.
— Tem seu poder, dê-me minha previsão – disse o vampiro, estendendo o cálice para a mulher.
Ela agarrou o cálice e bebeu o sangue do vampiro como se fosse néctar. Depois de se deliciar, a mulher encarou Kassius. Sua expressão começou a mudar – o rosto deixava de ser pétreo, e a pele começava a ressurgir. Olhos de um verde profundo preencheram as cavidades vazias, e longos e belos cabelos negros cobriram sua cabeça. Depois de um minuto ela era uma jovem de vinte e poucos anos, bem diferente do cadáver que entrou naquela cabana.
O vampiro esboçou um sorriso.
— O tempo só te fez bem, Jezebel.
A mulher sorriu. A fome ainda estava lá, mas sua aparência mudara completamente. Kassius havia cumprido metade do acordo.
— Dê-me sua mão, príncipe dos vampiros – pediu ela.
Kassius obedeceu. A mão do vampiro estava aninhada entre as mãos da oráculo. Ela fechou os olhos, e esperou. As sombras na parede se movimentaram, e naquele momento foi como se o tempo estivesse à disposição de seus caprichos. Quando Jezebel abriu os olhos novamente, eles estavam completamente translúcidos.
— Eu vejo... Eu vejo um garotinho caminhando sozinho... Ele está muito assustado... Ele caminha, e chega a um muro... E atrás desse muro... Está o que ainda não é...
Kassius cerrou os dentes. Aquele garoto estava perdido, sim, mas ele precisava ser reencontrado.
— A garota... Clarissa... Ela precisa conhecer esse garoto. Então, só então, você terá o que tanto deseja... De nada adianta a destruição das Pedras Primeiras se sua linhagem morrer com você... Você deverá morrer e renascer, e ela deverá morrer e renascer... Então, sangue de seu sangue o destronará... E desposará a própria mãe... E assim você cumprirá sua demanda pela Noite Eterna.
O vampiro sorriu. Sim, agora ele entendia. Seu destino e o de Clarissa estavam entrelaçados desde o começo, e assim seguiriam até o fim.
— Muito bem, Jezebel. Cumpriu sua parte – disse o vampiro, se levantando.
A mulher encarou o vampiro e, naquele momento teve certeza de que ele a enganara. Kassius era ardiloso, e não cumpriria sua parte.
O vampiro virou as costas para a oráculo, e deu dois passos na direção da saída da cabana, sendo interrompido pelo protesto da mulher:
— Espere, príncipe... E quanto a mim?
Ele parou.
— Você trapaceia, Jezebel. Merece o destino que a aguarda. Achou que poderia me enganar no passado, e por isso recebeu o castigo merecido. Acha que pode me enganar agora? Mas não se preocupe, vou livrá-la de ter que se alimentar de humanos e reviver suas dores... Mas ainda terá que se alimentar de humanos pelo resto de sua existência.
Os olhos de Jezebel saltaram das órbitas quando o vampiro pulou sobre ela, cravando seus caninos proeminentes em sua jugular. Ela se debateu, tentando se livrar de Kassius, mas isso apenas o deixava mais motivado. Depois de sugar, ele jogou a mulher no chão.
— Eu... O amaldiçôo... Príncipe... – sussurrou ela, ainda caída.
Kassius sorriu.
— Então torça para que sua previsão esteja errada, Jezebel. Minha morte precoce a libertaria de seu novo sofrimento – disse ele, saindo da cabana.
Era noite quando Kassius caminhou de volta ao navio, com a lua como companhia. Agora, com a previsão do oráculo, ele sabia exatamente o que fazer para driblar os problemas que o atormentavam. Ainda precisava destruir as Pedras Primeiras e libertar a magia que elas encerravam, mas isso não seria suficiente.
Ao voltar para o navio Kassius, disfarçado de comerciante, foi informado de que averiguações policiais atrasariam a partida. Uma jovem camareira fora presa, acusada de assassinar um companheiro de serviço, cujo corpo desaparecera, restando apenas a cabeça em um quarto ensanguentado. Ela parecia em transe quando confessou tudo. Eram amantes, e se desentenderam. Pediram desculpas ao ilustre Abdul Kaluq, oferecendo champagne gratuito pelo resto da viagem pelo inconveniente de revistarem todos os aposentos. Não haveria atraso na data de chegada porque suprimiriam a parada em Bridgetown e aumentariam o ritmo de viagem.
Kassius não se importou. Era até interessante que permanecessem um pouco mais por ali. Precisava mesmo acertar os ponteiros com Clarissa.
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