Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
13 Capítulo 13 - Betelgeuse, a supergigante vermelha
Flórida, Estados Unidos, 2020
Douglas estava desfalecendo.
Clarissa – ou o corpo dela, controlado por Isaac – esganava-o. Ela parecia ter o dobro de força (ou Douglas achava isso por não querer machucá-la). Mas, se não fizesse alguma coisa, inevitavelmente morreria. Sua visão estava embaçada, e ele se sentia cada vez mais distante de si mesmo. Então, isso era morrer.
Douglas viu o recipiente com o resto de água benta sobre a mesa e, juntando suas últimas forças, tentou agarrá-lo. Talvez conseguisse afastar o espírito por um tempo, até conseguir juntar forças e escapar.
Com muito custo, conseguiu segurar o recipiente. Espatifou-o contra o rosto de Clarissa, torcendo para não machucá-la. Ela gritou, e soltou-o momentaneamente.
— Filho de uma puta!
Cobrindo os olhos com as mãos, Clarissa começou a se afastar de Douglas.
Ele se pôs de pé, ainda um pouco tonto. Segurou-se na mesa, e procurou pelo crucifixo, na esperança de conseguir exorcizar o espírito do corpo de Clarissa, antes que fosse tarde demais. Mas ele havia desaparecido, talvez estivesse debaixo de algum móvel. De qualquer forma, havia outros em sua mochila.
Além do crucifixo, ainda precisava se lembrar das orações necessárias. Assistira a um ritual de exorcismo uma vez enquanto ainda era seminarista, mas não tinha certeza se era capaz de realizá-lo – e naquele momento a lembrança à qual se agarrava parecia tão distante quanto o sol da Terra.
Cambaleando, Douglas deixou a sala de estar e entrou no quarto. Precisava recuperar as forças, e salvar Clarissa.
Assim que adentrou o quarto se sentiu completamente desorientado. Sua cabeça doía, como se alguém a apertasse com as duas mãos. Talvez o espírito estivesse fazendo aquilo. Talvez não. Era difícil pensar sob tamanha pressão.
Vamos, onde está você mochila?
Olhou em volta, e não a encontrou. Pensou em se abaixar e procurar embaixo da cama, mas desistiu quando se imaginou desmaiando. Era melhor se recuperar um pouco mais. Abriu o guarda-roupa, e começou a jogar as roupas para fora. Mas a mochila não estava lá. Tomou um fôlego, e se abaixou para olhar. Não estava lá também.
A cozinha, claro!
Chegaram da rua e deixaram as coisas lá.
Antes de deixar o quarto, espiou para ter certeza de que não sofreria um ataque surpresa. Estava tudo calmo. Nenhum sinal de Clarissa.
Douglas entrou na cozinha, mas as mochilas também não estavam lá.
Será possível que...
Sentiu uma corrente de vento atingi-lo. Alguém abrira as portas que davam para a sacada. Ele se virou lentamente. As cortinas se movimentavam para um lado e para o outro. Havia uma silhueta do lado de fora, próxima ao parapeito.
Douglas caminhou lentamente na direção da sacada.
Clarissa estava lá, e segurava a mochila sobre o vazio.
— Estava procurando por isso? – perguntou com a voz de Isaac.
— Não faça isso... Não se atreva...
— As pessoas são muito apegadas aos bens materiais, não é mesmo Douglas? Que acha de se libertar um pouco?
Clarissa abriu as mãos, e a mochila caiu.
— Não! – gritou Douglas.
Tudo o que tinha de mais importante para sua empreitada estava naquela mochila. O livro sagrado. O pedaço de mapa. Crucifixos. Água-benta. Estacas.
— Acho que começamos com o pé esquerdo, mas ainda podemos nos acertar – disse Clarissa. – Sempre é possível recomeçar, não é mesmo Douglas?
Dizendo isso, começou a caminhar de volta para dentro do apartamento, na direção de Douglas.
***
Gigante dos Mares, algum lugar do oceano
Purificação.
Essa palavra não saía da mente de Kassius.
Todos os híbridos (também chamados de impuros) deveriam ser destruídos. Essa seria a providência inicial que os Primeiros tomariam assim que chegassem. Somente aqueles que recebiam diretamente a bênção de um Primeiro poderiam ser considerados vampiros verdadeiros. Os demais eram como cães. Não poderiam mais se reproduzir. Talvez pudessem ser usados como escravos, mas isso era algo que seus superiores deveriam decidir. E, é claro, não poderiam saber disso. Não antes que os portões estivessem abertos e, com a destruição das Pedras Primeiras, impossíveis de serem fechados novamente.
Enquanto voltava para sua cabine, Kassius pensou na primeira providência a tomar quando chegasse ao Brasil. Não tinha tempo a perder, precisava chegar à Amazônia o mais rápido possível, e localizar a Pedra. Depois que ela fosse destruída o mapa indicaria a posição da próxima. Aí, faltaria apenas uma. Estava mais próximo de seu objetivo a cada passo que dava.
Sorriu.
Precisava ver se Betelgeuse estava bem. Por enquanto ela era o mais próximo de uma família que ele tinha – mas isso mudaria quando os portões fossem abertos. Ela era um híbrido e, tal qual todos os outros, seria inevitavelmente destruída ou, no mínimo, destituída de tudo e transformada em escrava. Às vezes Kassius desconfiava que Betelgeuse sabia disso – ou pelo menos desconfiava. No entanto, ela nunca transparecia. E jamais hesitava diante do futuro incerto. Se realmente essa ideia passava pela cabeça dela, Betelgeuse a escondia com maestria.
Ele caminhou tranquilmente para o setor de cargas do navio. Hipnotizou o segurança e convenceu-o a ir tomar algo no bar do navio por uma hora. Era tempo suficiente para conversar com sua mais fiel subordinada.
A caixa onde a vampira estava ficava bem no fundo do compartimento de carga, parte da garantia de que ninguém a incomodaria. Kassius sentou-se ao lado dela, sobre algumas caixas menores cobertas por uma lona suja. Alguns ratos passaram por entre as pernas dele, e Kassius pensou que o tempo de se alimentar de roedores havia ficado para trás. Agora que ele tinha a maioria de seus poderes de volta, podia se dar ao luxo de morder um pescoço humano sem levantar suspeitas.
— Você está bem? – sussurrou ao lado do caixão de Betelgeuse.
— Sim meu lorde – respondeu ela imediatamente.
— Não está dormindo, Bete? Deveria descansar. Quando chegarmos ao Brasil tenho a impressão de que precisaremos lutar muito para conquistar nossos objetivos.
Betelgeuse pareceu pensar por um tempo. Era curioso Kassius chamá-la de Bete. Engraçado até. Sem poder controlar os pensamentos, imaginou-se escolhida por ele para ser sua rainha eterna. Bobagem, censurou-se em seguida. Ele jamais a veria desse jeito – e, se quisesse continuar servindo-o, também não poderia cultivar esses pensamentos. O pai a chamava de cabeça-de-vento. Das vagas lembranças que tinha de sua vida, essa era a que mais a perturbava. Bete-cabeça-de-vento. Era impressionante como aquilo anda a incomodava, mesmo depois da morte.
— Algum problema, meu senhor? – perguntou depois de algum tempo.
Kassius cutucava a unha com um pedaço de madeira que arrancou de um caixote. Não precisava de nenhum dom para saber que Betelgeuse estava pensativa, melancólica talvez – supondo que vampiros pudessem sentir alguma coisa desse tipo. Era sempre rápida em suas respostas. Nunca hesitava. Nunca demonstrava medo ou receio.
— Não, nenhum com o qual deva se preocupar. Clarissa veio até mim por meio de projeção astral – explicou. – Mas eu já a expulsei daqui. Criei um probleminha para ela e seu amigo resolverem. Acho que nos deixarão em paz por uma noite.
— Não entendo porque o senhor não rastreia o lugar onde eles estão e os destrói – disse Betelgeuse de uma vez.
— Porque não é necessário, pelo menos por enquanto. Sua obstinação inútil me diverte. Você sabe, a eternidade pode ser bem chata às vezes. Além disso, não quero chamar muito a atenção. Eles têm o pedaço de mapa que falta, e certamente virão atrás de nós. Quando estivermos em plena floresta tropical, isolados, nada poderá protegê-la.
— O senhor sente alguma coisa por ela?
Logo após pronunciar as palavras Betelgeuse se arrependeu do que disse, mas já era tarde demais. Podia sentir a tensão no ar, como se fios desencapados se tocassem em um terrível curto-circuito. Kassius manteve-se quieto por um tempo – e ela sabia exatamente como era a expressão dele, mesmo sem vê-la.
— Peço perdão por minha insolência, meu mestre...
— Não precisa – sussurrou ele. – Entendo sua curiosidade.
Betelgeuse nunca sabia exatamente qual seria a reação de Kassius. Se ele explodiria feito um vulcão em erupção ou se manteria calmo feito um lago no meio do nada. Naquele momento ele pareceu ser o lago.
— Você se lembra como eu a encontrei, Bete? – perguntou ele, mas o Bete assumiu um tom de escárnio dessa vez.
— Daria todo o ouro do mundo para esquecer, meu mestre.
— Pois eu vou lembrá-la exatamente como foi: caída em uma poça de sangue que escorria de sua vagina, largada em uma estrebaria para morrer lentamente por quem você mais amou em vida.
A voz de Kassius soava como uma sinfonia amaldiçoada, machucando os ouvidos dela. Betelgeuse fechou os olhos, e foi como voltar àquela noite maldita. Depois dela não seria mais Bete, sim, agora se lembrava de tudo perfeitamente, como se visse acontecendo na sua frente: morreria e renasceria como Betelgeuse, a supergigante vermelha, tal qual seu sangue derramado.
Naquela ela noite saiu para encontrar o namorado Samuel, um belo rapaz da cidadezinha do interior onde morava. Ainda não era Betelgeuse, era Elizabeth, uma morena alta e de longos e cacheados cabelos. Todos na cidade a admiravam – e muitos rapazes dariam um braço para tê-la. Mas Samuel a conquistara – e ela o amava de todo o coração.
E como todas as coisas que amamos demais, aquela também teve um fim. Samuel a traiu. Vendeu-a por alguns trocados para comprar heroína – seu amor secreto. Naquela noite, ele convenceu-a a encontrá-la em um lugar mais reservado – uma estrebaria abandonada, um pouco distante da cidade. Elizabeth não tinha razões para desconfiar do namorado – se já fosse Betelgeuse, Samuel é que acabaria em uma poça de sangue. Lá, a pretexto de ver a lua, Samuel a entregou a seis homens. Elizabeth foi estuprada, e deixada para morrer.
Então, Kassius a mordeu e ela renasceu como a gigante vermelha. Aprendeu técnicas de luta – com diferentes armas ou as próprias mãos. Aprendeu a controlar sua força. A não temer inimigo algum. Devia sua nova vida a Kassius, e sabia que aquela era uma dúvida impossível de ser paga com apenas uma eternidade.
— O senhor tem razão, meu senhor.
— Ainda sente alguma coisa pelo... Como era mesmo o nome dele, Samuel?
— Nada, meu senhor.
— Não brinque comigo, Betelgeuse. Você esqueceu como eu me chamo? – perguntou ele.
— Sir. Kassiano Francisco III, meu senhor.
— Pois então, jamais se esqueça disso. Não está lidando com um vampiro qualquer. Eu sou aquele que abrirá os portões do submundo, e levará nossa espécie ao topo da cadeia alimentar. Essa é a única razão para a qual eu existo. E qualquer um que atravessar meu caminho será aniquilado sem hesitação. Entendeu?
— Sim, meu senhor – limitou-se a responder.
Dito isto, Kassius deixou o compartimento de carga em silêncio.
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