Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
12 Capítulo 12 - Quinze anos para sempre
Lugar não identificado, São Paulo, 2020
Samanta acendeu uma fogueira e sentou-se bem perto do fogo. Às vezes sentia falta de certos aspectos de ser humano, como, por exemplo, perceber o calor e o frio. Porém, aquela fogueira não era para ela.
Cachorro Louco sentou-se ao lado da vampira. Nos momento de silêncio que seguiu ela não disse nada, apenas ouviu a respiração dele – quase um sussurro constante e ininterrupto. Respirar era outra coisa da qual Samanta sentia falta – principalmente da respiração matinal, logo quando acordava e abria a janela, quando o cheiro da grama molhada pelo orvalho parecia um presente de um deus generoso.
— Eu vou ajudá-lo, Cachorro Louco, mas antes preciso saber algumas coisas sobre você – sussurrou ela.
Ele assentiu e estendeu o braço direito.
A vampira negou com a cabeça.
— Não quero arrancar a verdade de você. Quero confiar em você. Quero acreditar no que você me disser.
Ele esboçou um sorriso. Gostou daquilo. Há muito tempo não conhecia alguém como Samanta. E foi totalmente por acaso que a encontrou.
Cachorro Louco fugia de uma gangue de humanos. Ele invadira o território deles para procurar comida, e então começaram a persegui-lo. O líder se chamava Vasco, e tinha um soco inglês com pontas de aço. Os dois amigos de Vasco levavam pedaços de madeira com pregos enferrujados. Você pode escapar de nós, mas não do tétano, diziam. Quando estavam prestes a alcançá-lo, Cachorro Louco entrou no beco. Era o fim da tarde e começo da noite, quando os últimos raios solares chegam, e os primeiros postes começam a se acender. Ele correu para dentro de uma caçamba de lixo, entrou, fechou a tampa, sentou-se e começou a rezar baixinho. Prometeu que, se escapasse daquela vez, seria um bom menino até o fim de sua vida. E procuraria pela mãe, a quem um dia abandonou para conhecer o mundo. Ouvia passos. Vasco e seus amigos se aproximavam. Sabemos que você está aí, diziam. É só uma questão de tempo até a gente te encontrar. Os passos se aproximavam mais e mais. Ainda rezando, Cachorro Louco viu a tampa da lixeira ser aberta, e os três olharem para ele ao mesmo tempo. Viu também o sorriso de Vasco de desfazer, então ele saiu correndo, seguido pelos amigos. Quando olhou para o lado, Cachorro Louco viu o corpo de uma garota. Ela estava com os olhos abertos, e mexia a cabeça lentamente para o lado dele.
— Quantos anos têm? – perguntou Samanta.
— Quinze.
— Quer ter quinze anos para sempre, Cachorro Louco?
Ele permaneceu em silêncio. Não havia raiva ou pesar na voz de Samanta, mas, mesmo assim, parecia um terrível aviso de que as coisas não poderiam ser resolver como ele gostaria.
— Você tem a mesma idade que eu, não tem?
— Eu não escolhi isso – disse ela, desta vez aparentando uma ponta de melancolia. – Fui obrigada a aceitar. Não quer crescer, saber como é ser adulto?
— Eu não me importo...
— Quer viver se escondendo do sol? Quer se esgueirar por aí, pelos becos escuros, faminto, sem amigos, à procura de alguém para atacar e sugar até a morte? Quer ser caçado por pessoas que te odeiam simplesmente existir? Por ser como é? É isso que você quer, Cachorro Louco?
— Eu... Eu... Você não entende, não é? – disse ele, limpando os olhos com as mãos.
— Por favor, me explique – pediu Samanta.
— Todos os dias as pessoas passam por mim e é como se eu não existisse. Eu vivo me esgueirando por aí, procurando comida no lixo, por um abrigo quando a noite vem. Fugindo de pessoas que me odeiam...
Samanta viu uma lágrima escorrer pelo rosto de Cachorro Louco. Com o dedo indicador, ela pegou a lágrima antes que se perdesse.
— Não sabe como é isso. É como se o tempo parasse, e tudo o seu redor se movimentasse na menor velocidade possível. Essa coisa estaciona você, e nunca mais você volta a se movimentar novamente. Você é imortal ao tempo, desde que não pare de sugar sangue. Se parar, você será tomado pela fome. Não é uma fome comum, é como se todas as células do seu corpo gritassem ao mesmo tempo, e você não consegue pensar em mais nada, a não ser em se alimentar. Sem sangue, você se resume a um trapo velho, jogado em um canto qualquer. Ninguém sabe direito quanto tempo podemos permanecer assim, só sabemos que não podemos chegar a esse estágio.
Cachorro Louco ouviu tudo em silêncio.
— Você estava assim quando eu te encontrei?
— Estava bem perto, eu acho.
— O que aconteceu? Como você foi parar naquela lixeira?
Samanta fechou os olhos brevemente. As coisas estavam um pouco confusas em sua cabeça. Lembrava-se de ter saído do esconderijo acompanhada e apenas isso. Sua memória parecia adulterada.
– Eu não me lembro direito... Eu não sei como fui parar naquele beco... Naquela lixeira...
— Tudo bem... Talvez se lembre mais tarde.
Ela concordou com os olhos.
— Eu vou ajudá-lo, Cachorro Louco. Vou levá-lo até a sua mãe – disse ela depois de um tempo. – Só não prometo convertê-lo. Vai me desculpar por isso.
— Tudo bem.
— Mas, antes disso, preciso que você me ajude. Você pode fazer isso, Cachorro Louco?
— É só pedir.
Ela sorriu.
— Nós vamos visitar alguns conhecidos meus esta noite. Talvez eu recupere minhas lembranças perdidas.
Samanta se levantou e encarou o fogo. Seus longos cabelos ruivos pareciam parte da fogueira, onde as chamas tremiam como em uma dança pagã, um presságio de que tudo daria certo – se tivesse de dar.
***
Londres, Inglaterra, 2020
Deve deixar sua linhagem prosseguir. Aquelas palavras proferidas por Lorde August ainda o assombravam. Desde então Simon havia se instalado em um quarto isolado, o mais distante de todos. Fora proibido de deixar seus aposentos, e apenas Florence ia vê-lo – tanto para levar as refeições, quanto para acender a lareira e recolher suas roupas.
No primeiro dia do inverno, dia 21 de dezembro, Lord August foi vê-lo. Simon soube que se tratava do vampiro, e não de Florence, por causa dos passos mais leves. O vampiro deu duas batidinhas à porta, e então ela se abriu.
— Meu belo Simon, está tudo bem com você? – perguntou August, entrando.
— Meu senhor! Como é bom vê-lo novamente. Não sabe a falta que me fez.
Lord August se manteve sério. Parecia bem diferente do homem que o seduzira diversas vezes há apenas alguns meses. Parecia distante.
— Sabe por que está aqui, Simon?
— Não, meu lorde.
— Está aqui para se desprender do mundo. Por isso o deixei isolado, e pedi que Florence não fizesse mais nada além de cuidar de suas necessidades.
— E ela tem cumprido sua função com maestria – lamentou Simon. – Tento conversar com, mas ela nunca responde.
— Ordens minhas, meu caro. Por favor, sente-se.
Simon se sentou na cama. Lorde August caminhou até a janela. Olhou detidamente para fora, onde o vento gélido do começo do inverno sacudia os galhos das árvores feito marionetes.
— Sabe qual é a coisa mais difícil do mundo, Simon?
— Não faço ideia, meu lorde.
— Se desprender da vida.
Lorde August virou-se para Simon, e pareceu sorrir brevemente. Caminhou até a cama, sentou-se ao lado de seu protegido e acariciou a perna dele. Gostava de Simon, de verdade. Talvez ele fosse o único rapaz que amara durante sua segunda vida. Na maioria das vezes, atraía jovens, tanto homens quanto mulheres, apenas para se aproveitar de seu sangue e do sexo. Depois descartava os cadáveres e os esquecia. Mas Simon não merecia aquele destino. Ele era diferente, carregava em suas veias o poder de mudar o mundo – e poucas pessoas tiveram esse poder. Percebeu isso assim que pôs os olhos nele.
— O que está dizendo, meu lorde?
— Estou dizendo que a decisão mais difícil que temos que tomar, é justamente aquela que nos tira desse plano. Aquela que nos tira as menores coisas. Mesmo se for para um bem comum, deixar a vida é a coisa mais difícil que temos que fazer. Alguns humanos o fazem com total desprendimento mas nós, que somos eternos, nos agarramos à existência como um direito que não sei se temos. Imagine se fôssemos todos eternos? As próximas gerações não teriam chance de ver a maravilha que é o mundo. Tudo depende do ângulo pelo qual você olha, entende Simon? Eu prefiro olhar pelo ângulo das coisas boas. Florence me fazendo um chá. Eu acariciando os cabelos dela. Passar manteiga em uma fatia de pão. Tomar licor de cassis. Cuidar do meu jardim de inverno. Colocar um casaco e andar na neve. Tomar leite quente. Dormir abraçado com quem se ama. Sentir o cheiro do orvalho de manhã, e o sabor das maçãs recém-colhidas. Sentir frio. Algumas dessas coisas já não são para mim, ficaram na outra vida quando eu a deixei. Mas eu sinto falta delas, Simon, da maioria delas. Acho que sinto falta até mesmo das dores de cabeça.
Riram.
– Tudo isso vai acabar se você obtiver êxito em sua missão – concluiu o vampiro.
Simon ficou parado por um tempo, como que paralisado.
– Não precisa ser assim... O senhor não precisa se sacrificar pela humanidade...
– Você se engana, Simon, tem que ser assim. Está escrito. Você sabe como a Ordem do Sol Nascente foi criada, Simon?
– Não me recordo, meu lorde.
— Nem poderia, eu nunca te contei essa história – disse ele, se acomodando na cama. – Mas chegou a hora de você saber da verdade. De toda ela.
Simon também se ajeitou.
Há muitos anos, quando as forças do mal despontaram, uma luz surgiu no horizonte. Foi criada a Ordem do Sol Nascente, uma legião de soldados dispostos a dar suas vidas para combater a ameaça dos vampiros. Esses soldados foram escolhidos pelo próprio Criador, ainda no ventre de suas mães, e estavam, predestinados a cuidarem dos selos que mantêm o portal para o mundo dos mortos fechado. Se esses selos forem rompidos, nada mais separará os vivos daqueles que já morreram. Vampiros e outras criaturas invadirão nosso mundo, trazendo pragas e doenças com elas. Escurecerá para sempre, e ninguém verá novamente o nascer do sol. Os soldados da Ordem do Sol Nascente ganharam a imortalidade ao tempo, tal qual os vampiros, porém ainda podem morrer por ferimentos. E muitos morreram na guerra contra eles. Os que sobraram se reuniram em locais protegidos, onde vampiro nenhum pode pisar, e guardam até hoje os selos.
A Ordem do Sol Nascente foi criada por um soldado chamado Javeed. Ele foi o primeiro a ser ordenado pelo próprio Criador. Javeed era um homem muito forte e justo. Depois dele vieram muitos outros irmãos, mas ele permaneceu como o líder da ordem. Todos sempre procuravam seus conselhos em momentos de desespero – e ele sempre sabia o que dizer. Paciente, ensinava os mais jovens com pulso firme, porém cheio de amor. E por saber que ele era o elo mais forte da corrente, os vampiros se uniram para derrotá-lo. Armaram um plano. Fizeram um ataque minuciosamente planejado a um vilarejo isolado. Javeed e um grupo de vinte soldados partiram, somente Javeed voltou. Convertido.
Ele havia dado as costas para o Criador. E o Criador deu as costas para ele também.
Não se engane, Simon. Não ache que o mal descansa. Retrocede. Desiste. Ele apenas se esconde nas sombras, de onde planeja seu retorno. Ele cria raízes silenciosas enquanto nos envenena. E, o mais importante, ele não pára nunca. Neste momento, inclusive, o Príncipe dos Mortos, a Reencarnação do Mal, caminha entre nós. Ele deseja romper os selos e abrir o portal. E contará com a ajuda de todos os vampiros para isso. Nós não temos como interferir em sua empreitada, mas podemos atrapalhar um pouco. Se destruirmos o primogênito da linhagem dos vampiros que aqui vivem, todos na linhagem morrerão, e o exército dele será reduzido àqueles que atravessarem o portal. Talvez a humanidade tenha uma chance, pequena, tenho de admitir, mas ainda assim uma chance. Simples assim. O problema é chegar até ele. Ele está muito bem guardado, não em um lugar escondido, mas na frente dos olhos de toda a humanidade. Sua missão é chegar até ele e destruí-lo. Então a morte chegará para todos de sua linhagem.
— Você é o Javeed.
Lorde August assentiu.
— Eu caí, Simon. Sucumbi ao meu mais profundo desejo, e esqueci da minha missão. Sou a criatura mais vil que já caminhou sobre a terra, e por isso preciso me redimir de meus pecados. Preciso da sua ajuda.
— Sinto muito que tenha que ser assim – lamentou Simon.
— Não se preocupe. Tudo ficará bem. Desde que você cumpra sua missão. E, a propósito, a partir de hoje receberá a visita de uma dama, todas as noites, até que sua semente a fecunde.
— Meu lorde... Isso é mesmo necessário?
— Está escrito, meu belo rapaz. Precisa fazer isso por mim. Por toda a humanidade.
— Então, eu o farei.
O vampiro acariciou o ombro do rapaz, e deixou o recinto silenciosamente.
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