Notas iniciais
Boa leitura.

Evie acordou com barulhos de sapatos batendo contra o chão de madeira encerada de sua casa. Mesmo sem abrir os olhos, sabia que a empregada estava entrando no quarto para acorda-la.

–Queridinha, acorde. Sua aula de piano começa daqui a pouco.

A garota resmungou e se mexeu na cama, com os olhos ainda fechados. Ela não queria sair do conforto de seus edredons brancos. Seus cabelos negros se espalhavam pelo travesseiro de penas e seus pés chegavam só na metade da cama.

–Não quero ir para aula. -ela resmungou abrindo os olhos-

–Ó, mas você deve! Sua mãe ficará muito brava se a senhorita não for novamente. -disse a empregada chegando mais perto da cama, com as mãos entrelaçadas sobre o avental-

–Você sabe que ela não é minha mãe, Joena! -a menina não suportava a madrasta. Ela era rude, feia e ranzinza- E já disse que não quero ir! Depois me entendo com ela.

Evie tinha apenas doze anos naquela época, mas já era uma garota extremamente esperta.

–M-mas, senhorita! Fui ordenada a faze-la acordar e ir para aula de piano. -disse a pobre empregada. Evie tinha pena dela. Sua madrasta a mandava fazer tudo-

A menina se sentou na cama, deixando o edredom cair até sua cintura, mostrando sua camisola de cetim branco.

–Minha cara, você me conhece! Acha mesmo que vou deixar aquela megera me vencer? Caso ela lhe indagar algo, diga que eu mesma irei dar-lhe explicações.

–Tu-tudo bem, senhorita. -ela deu um sorriso nervoso, virou e foi caminhando depressa para o corredor. Seu sapatos faziam um barulho engraçado a cada pisada.

A garotinha sorriu, levantou sem a mínima pressa, amarrou seus cabelos bagunçados em um coque sem ao menos pentear, tirou sua camisola, deixando-a no chão e foi se vestir.

Ela foi até uma porta ao lado esquerdo de sua cama e a abriu. A porta dava para uma salinha pequena, sem janelas, onde ficavam as roupas da menina. Evie não tinha muitos vestidos, mas mais que a maioria das garotas da sua idade. Então pegou um sem muitos adornos e o vestiu.

Na noite anterior ela ficou pensando em um jeito de sair daquela casa. Ela sabia que tinha uma vida muito boa se comparada a dos outros Londrinos. Tinha comida todos os dias, uma cama confortável, saúde e dinheiro, mas aquilo não bastava.

Seu pai nunca estava presente por causa do trabalho e sua mãe morrera antes mesmo dela nascer. Sua madrasta convencia o pai dela a colocar a garota em aulas de etiqueta, piano, bordado, e várias outras coisas. O problema é que Evie odiava ser obrigada a fazer coisas que não gostava. Ela se sentia sufocada.

Ela mal saía já que estudava em casa. Não tinha amigas e passava os dias sozinha, no quarto. Seu cabelos voavam quase em câmera lenta quando ela pulava nos móveis, brincando que o chão era feito de lava. Já fora fada, sereia, pirata, princesa e ninja. Tinha vários "amigos" e todos a ajudavam a escapar de grandes perigos. Só que no quarto só havia ela.

Evie bolou então um plano para sair dali. Ninguém sentiria dela falta mesmo. Se ela passasse mais um dia sem ter ninguém para conversar, para rir com ela, a tocar, talvez simplesmente a cumprimentar ou para se preocupar por ela como os heróis dos folhetins que ela lia faziam, a garota se esgotaria. Não teria mais forças para fazer qualquer coisa. Nada de aulas, nem brincadeiras nem até mesmo seus estimados livros.

Todos os dias, as nove horas da noite, os portões da casa dela fechavam e dois guardas iam para frente deles. Como a janela do quarto dela dava para a frente da casa, ela sempre os via. Sabia que eles levavam alguns minutos para fechar o portão e aí seria sua brecha.

Ela ia descer as escadas da forma mais quieta possível, passar pela porta da frente e passar pelo portão bem na hora que os guardas estivessem fechando. Não iam conseguir correr atrás dela. O portão era pesado, então teriam que terminar de fecha-lo primeiro. Os funcionários da casa ficavam na cozinha e sua madrasta já teria dormido nessa hora. Ninguém a impediria.

Eram dez horas da manhã quando ela terminou de se arrumar. Desceu as escadas e deu de cara com a madrasta.

–Porque você não está na aula de piano? -falou ela pausadamente com uma expressão de ódio no rosto.- Boas damas obedecem, sua imunda!

–Porque eu não quis, Elizabeth! Você não pode me obrigar como faz com todo o resto.

–Quem disse que não? Você é minha filha agora!

–EU NUNCA VOU SER SUA FILHA! -a garota gritou.

Elizabeth, a madrasta má, apenas riu. Indignada, Evie a empurrou para o lado e foi correndo para o lado de fora da casa. Os guardas olharam para ela incrédulos, e a madrasta abriu a porta e disse, em tom de superioridade:

–Deixem-na sair! Ela não vai muito longe.

Os guardas se olharam e assentiram com as cabeças, e assim Evie saiu de casa. Foi mais fácil que a garota supôs... No início.

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Ela tinha dezessete anos. Seus cabelos eram como cascatas negras, batendo em sua cintura. Tinha um belo corpo e seus olhos verdes cintilavam. No começo fora difícil. A garota não sabia para onde ir, nem o que fazer. Mas só de ver pessoas nas ruas sorrindo para ela, pessoas trabalhando ou fazendo qualquer coisa que fosse, Evie se sentia deslumbrada.

Algumas vezes ela voltava para casa, pegava dinheiro sem dar explicações, -Ninguém notava a falta de dinheiro. Seu pai ganhava mais e mais todo o dia- pegava algumas roupas e sumia novamente. Nenhum criado a questionava e ela não via mais sua madrasta ou seu pai pela casa. Ela desejava que a madrasta houvesse morrido, mas infelizmente ela sabia que a víbora não morreria tão cedo.

Depois de um tempo ela começou a trabalhar fazendo bolos em uma confeitaria. Não era muito comum mulheres trabalharem naquela época, mas ela precisava do dinheiro, então ficava dentro da cozinha e as vezes atendia no balcão.

Ela não pedia mais dinheiro de sua família, saiu de casa definitivamente e alugou um quartinho em cima da confeitaria. Não era tão confortável quanto sua antiga casa, mas ela se sentia bem mais livre.

Pela primeira vez na vida tinha amigos. Eles não eram muito bons, -alguns roubavam, outros eram donos de bordeis, algumas prostitutas...- mas eram amigos.

Afinal, Evie também não havia se tornado uma pessoa muito boa. Sempre que podia pegava dinheiro a mais dos clientes e, as vezes, quando tinha sorte, conseguia um jeito de pegar suas carteiras. Quando ela queria algum dinheiro a mais, -geralmente para comprar livros. Evie sempre amou palavras.- ela analisava os clientes mais ricos e quando ela ia atende-los, fazia todos se apaixonarem. Então os levava para cama dela, no andar de cima e depois de uma longa noite os fazendo felizes, Evie pegava seus dinheiros enquanto eles ainda arfavam nus em sua cama e os mandava embora.

Ela não se importava. Sua paixão eram os livros e nada mais. Fazia o que tivesse de ser feito para compra-los e nada a impedia. A garota até se sentia bem sendo desejada.

Notas finais
Ta achando meio confuso? Muitas histórias sem conexão nenhuma? haha calma que logo logo tudo vai fazer sentido! Prometo.