Nascida nas Sombras
10 Capítulo 9
CAPÍTULO 9 — QUEM ODEIA FLORENCE WILLIS LEVANTE A MÃO! COMO ASSIM TODO MUNDO?
Florence estava completamente paralisada. Bem, pelo menos seus pensamentos sim, porque ela sentia que seu corpo tremia com a cena em sua frente. Talvez esse tenha sido um dos motivos para não ter percebido a multidão que se formava ao seu redor e no topo da escada. Era difícil dizer quais foram suas reações assim que avistaram o que antes fora Lindsay Miras, porque Florence quase nem sabia sobre si mesma.
Ela definitivamente não tinha ideia de como agir.
Claro, ela já tinha visto pessoas morrendo, mas geralmente eram em filmes ou séries que assistia, nunca desse jeito. Mas o mais apavorante era que o seu nome, juntamente com uma frase totalmente sem sentido, estava ao lado do corpo. E mesmo que gritasse para todas aquelas pessoas que não tinha nada a ver com aquilo, eles não ligariam. Porque se o nome da novata filha de um assassino está escrito ao lado de uma garota morta, não é algo para deixar para lá.
Quando Florence começou a tentar ignorar seus próprios pensamentos, percebeu mais o ambiente em sua volta. Haviam pessoas chorando, outras totalmente horrorizadas e ainda, algumas – como Anna Jones, com um pijama de ursinho esquisito – sem expressão alguma, como se estivessem chocadas demais para até sentir algo além disso.
–Todos vocês! – Rick gritou sobre os choros e as conversas. Florence nunca ficou tão feliz em ouvi-lo – Ei, todos vocês! Para seus quartos. Se quiserem parar de chorar, virem os rostos. Vocês são Filhos da Noite, mostrem força! Para o quarto!
Florence estava se preparando para ir embora, quando Rick a alcançou.
–Minerva, certamente, vai querer falar com vocês dois – ele disse, em frente a Alexander que só sabia assentir – Alguns alunos disseram que vocês encontraram o corpo, porque estavam aqui quando chegaram.
–Foi – Alexander conseguiu dizer.
–E, sem falar, dessa frase – Rick continuou, lançando um olhar com o canto do olho para Florence – Isso é realmente preocupante.
–Você acha que foram os...
–Quem mais seriam? – cortou rapidamente a pergunta que o sobrinho da diretoria iria fazer – Tenho quase certeza que sim. O jeito de matar, os recados enigmáticos, sem dúvida são eles. A pergunta que realmente importa é porquê agora.
–Eu realmente não preciso dizer que não faço ideia do que estão falando, não é? Ou apenas estão me ignorando? – Florence não reconheceu a própria voz. Parecia hesitante e rouca demais para ser dela – Quem são ‘’eles’’?
–Minerva disse á você sobre o exército do seu pai, não disse? – Alexander perguntou e Florence apenas concordou – Pois então, não era bem um exército, era mais como um grupo. Quando houve a Guerra, alguns membros conseguiram escapar. Todos nós sabíamos da existência deles, mas com a morte de seu pai, achamos que, bem, achamos que eles estavam ‘’aposentados’’.
–Talvez isso tenha sido um erro terrível – Rick completou, olhando mais uma vez o corpo.
Aos poucos a pessoas iam saindo do local, ainda assustadas, mas sem antes, é claro, lançar mais um olhar de desdém em direção a Florence. Embora, ela tenha percebido, agora era de um jeito diferente. Não era só desdém, também havia medo naqueles olhares. E, de certa forma, Florence os entendia, porque provavelmente era isso que também sentiria se tivesse no lugar deles. Anna Jones foi a última a deixar o local. Ela olhou para a garota que já considerava uma amiga, como se a avaliasse por alguns segundos, e quando percebeu que estava sendo observada, se apressou em ir para o quarto.
–Até a super boazinha Jones está com medo de mim – Florence comentou – Eu realmente estou ferrada.
Ninguém pareceu discordar.
–Oh, Meu Deus! – Minerva exclamou horrorizada, já na metade da escada – Quando me disseram eu simplesmente tentei me convencer de que estava apenas sendo alvo de brincadeiras. Isso é tão terrível!
–Sim, minha senhora – disse Rick – Se me derem licença, eu preciso avisar os responsáveis pela garota.
–Oh, pobre família – Minerva falou, já caminhando para ficar ao lado do sobrinho – Primeiro perderam os pais de Lindsay e agora a própria Lindsay. Eles ficarão arrasados.
–Sim, minha senhora, temo que sim – Rick fez um tipo de reverência e subiu as escadas novamente.
–Tudo bem, vocês dois – Minerva agora usava um tom diferente, algo parecido com o tom que uma mãe usa para encurralar o filho e fazê-lo conversar algo – Vocês... – ela deu uma rápida olhada no corpo – Vamos para o corredor, aqui não é um bom um lugar para conversar agora.
–Duvido que um dia volte a ser – resmungou Florence, tristemente. Ela pensou que ninguém a tinha ouvido, mas acertou apenas em parte. Minerva realmente não tinha escutado, mas Alexander sim. Ele não sabia o que pensar sobre esse comentário, porque parecia-lhe algo.. Bem, parecia que ela estava realmente tocada com a morte de uma garota que a chamou de monstro na frente de todo mundo.
–Diretora – Alexander chamou – Essa é a pegada de sangue que nós levou a ir até a escada — ele então apontou para a mancha de sangue – Sei lá, mas me parece uma boa pista.
–Sem dúvida – ela avaliou a pegada por mais alguns instantes e então encarou os dois adolescentes – A primeira coisa que quero saber é o que os dois estavam fazendo a essa hora aqui embaixo. Sei que não estavam no quarto. Não veriam a pegada e muito menos chegariam tão rápido, se estivessem.
–Bem, eu fui... – tentou Alexander.
–Eu queria... – falou ao mesmo tempo Florence.
Mas ninguém terminou a frase que estava tentando dizer.
–Eu ia beber um pouco de água... – Florence começou.
–Todas as noites as supervisoras levam uma jarra de água para os quartos, Florence, justamente para isso não acontecer — Minerva desmentiu.
–E ia pegar um livro – Florence continuou – Você não me deixou terminar, diretora.
–E você, Alexander? – Minerva não acreditou nem um pouco na garota, mas deixou isso para depois.
–Bem, eu estava sem sono e com medo de acordar Scotty, então sai do quarto. Mas estava quase voltando quando vi uma sombra no corredor e eu quis saber quem era – ele disse, recebendo um olhar cheio de avaliação – Para depois contar para a senhora, claro – claro que não. Ele não gostava de mentir para a tia, mas ele também não gostava de se encrencar.
Todos ficaram em silêncio.
–Sabe, vocês dois, mentem tão mal que eu poderia levar isso como uma grande piada, mas não é hora para risadas – Minerva comentou depois – Precisamos achar quem fez isso, porque é um ataque direto aos Filhos da Noite. Pode ser uma ameaça, uma grande ameaça.
–E o que a senhora acha da frase? – Alexander sempre tirava as palavras da boca de Florence, como se pudesse adivinhar seus pensamentos. Será que ele podia?
–Não parei para pensar sobre ela ainda, eu não consigo pensar sobre nada agora. Meu Deus, houve realmente uma morte em nossa escola! – ela exclamou como se fosse muito difícil de acreditar – Mas vocês viram ou ouviram algo?
–Só alguns gritos e um barulho de algo se chocando.
–Por ora, isso basta, Alexander.
–Mas, tia, e amanhã? Os alunos?
–Uma coisa de cada vez, querido, uma coisa de cada vez.
O engraçado era que para Florence tudo estava confuso e misturado demais para ela parar e pensar ‘’Calma, garota, uma coisa de cada vez’’.
Ela queria que tudo fosse resolvido agora, porque sua cabeça estava girando e não poderia provar que seu pai era uma pessoa diferente do que eles achavam quando o corpo de uma menina morta aparece no seu colégio com seu nome do lado.
Então que se dane ‘’Uma coisa de cada vez’’, diretora.
[...]
Todos estavam no refeitório. O mais longe possível de Florence, que se sentava solitária em uma mesa no fundo do salão. Há algumas horas atrás, ela se perguntava se a sua situação poderia se tornar pior e foi o que aconteceu. Ninguém achava que a Willis tinha matado Lindsay, já que Alexander deixou claro que a estava acompanhando, mas ninguém duvidava também que aquilo havia acontecido por causa dela.
O silêncio parecia ser uma lembrança muito dolorosa da noite anterior e Florence ficou feliz em se concentrar nas conversas a sua volta.
Alguém puxou uma cadeira e se sentou em sua frente.
–Sabe, definitivamente acho que você é inocente – Anna disse a ela – Acho que é uma vitima como todos nós e a própria Lindsay.
–Por que acha isso? – Florence não conseguiu não perguntar. Anna parecia estar sempre disposta a entender e ficar ao lado dela e meio que isso causou um pouco de espanto, em um primeiro momento.
–Porque eu vi, o tempo todo, as suas reações. Conheço a verdade quando vejo. Você estava sendo sincera com a tristeza e o horror que sentia ao ver o corpo da Lindsay.
–Mas é claro que estava.
–Alguns alunos não acham. Eles tem quase certeza que você tem a ver com a morte da garota e que estava fingindo tudo.
–Ai, minha nossa.
–Não se preocupe, Minerva vai tentar resolver isso, porque eu li todos os artigos sobre a nossa diretora e basicamente eles dizem que ela é a melhor administradora dessa escola de todos os tempos. Ou foi o que eu entendi.
Como se entendesse a menção do seu nome como um chamado urgente, Minerva entrou no refeitório sendo seguida por dois homem altos com ternos cinzas. Na verdade, eles estavam vestidos de cinza dos pés á cabeça. A única diferença, fisicamente, era que um tinha a pele branca e o outro negra.
Minerva pegou o microfone da mão de Rick, com toda a educação que parecia possuir.
–Bom dia, alunos – ela começou a dizer –Bem, eu sei que a noite de ontem ainda domina a mente de vocês e eu sei que o medo pode imperar, mas queria que ficassem tranquilos quanto a isso. Redobramos a segurança em todos os cantos do terreno e estamos tomando providências para achar os responsáveis pelo que ocorreu com a senhorita Lindsay Miras.
–Já não está claro isso? – uma menina falou atrás da mesa delas, mas Minerva não escutou. Acho que era esse o objetivo. Porque as únicas pessoas que pareceram escutar aquilo foram Florence e Anna. Bingo. Estava obvio que aquele comentário foi para atingir uma certa ruiva com um pai odiado por muitos.
–Esses dois senhores – a diretora continuou – São Joel e Adam, do Conselho. – houve várias exclamações de surpresa e todos pareciam incrédulos demais.
–O Conselho – sussurrou Anna, vendo a confusão nos olhos de Florence – São um grupo de Filhos da Noite super inteligentes que verificam se as regras são cumpridas ou até mesmo fazem regras e coisas assim, eles são como uma polícia especial e dificilmente saem de onde ficam. Só em casos bem preocupantes que merecem muita, muita atenção.
Florence assentiu.
–Não quero que se assustem com eles – Minerva pareceu perceber perfeitamente bem as reações – Eles estão aqui apenas para tentar descobrir mais sobre o caso. Isso tudo se resolverá, tenho certeza.
–As aulas serão paralisadas? – alguém perguntou.
–Mas é claro que não – Minerva respondeu – As aulas começam as 18:000 em ponto. Não se atrasem. – ela parou por um segundo e então continuou – Ah, Florence, você está proibida de faltar hoje. Se a senhorita não estiver lá na hora exata, terá problemas.
A garota quis xingar Minerva. Porque quando a diretora acabou de dizer isso, todos os olhares se voltaram para ela, inclusive os de Adam e Joel.
–Nossa, eles me dão medo – Anna comentou, assim que os alunos começaram a ir embora – Muito medo. Meu pai nunca gostou muito do Conselho, confesso, e sempre mostrou os pontos negativos deles o tempo todo para o resto da família e escondeu os positivos. Acho que quando se você cresce aprendendo uma coisa é difícil tirá-la depois da sua cabeça. Eu ainda tenho arrepios só de ouvir falar neles, como quando era criança.
–Você acha que eles vão ficar muito tempo?
–Provavelmente não. Eles nunca ficam. Fazem o que tem que fazer, dão as respostas que precisamos e então vão embora.
–Acho que talvez concordo com seu pai sobre eles — as duas se lavantaram e começaram a caminhar em direção a saída.
Alguém esabarrou em Florence, mas não pediu desculpas e nem ao menos virou para encará-la. ''Calma, calma, não pode enforcá-lo em publico, garota'' pensou.
–Ei, eu soube que a Amélia é sua colega de quarto, estou certa? – Anna disse, sem perceber a raiva de sua amiga.
–Sim, ela é.
–Então, por que ela dormiu no meu quarto ontem? Nossa, ela é a Brianna não pararam de conversar um segundo.
–Acho que ela está com medo de mim ou sei lá. Quando cheguei no quarto ela não estava.
–Você conseguiu dormir?
–Nenhum pouco. E você?
–Nenhum pouco – e de repente, Anna deu de ombros, como se estivesse deixando esse assunto de lado – Mas não devemos pensar sobre isso.
–Sobre o que devemos pensar?
–Seu primeiro dia de aula vai ser hoje, garota! – ela deu pulinhos de alegria, como se realmente fosse algo bom.
Bem, talvez a companhia de Anna Jones não fosse assim tão ruim.
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