Nascida nas Sombras
21 Capítulo 20
CAPÍTULO 20 — EU ADORARIA SABER SEU NOME.
–Segundo você – Minerva encarava Florence, descrente – Alexander foi sequestrado por uma garota com um casaco?
–O Felipe...
–Philips – corrigiu a diretora.
–Tanto faz – Florence revirou os olhos, sem paciência – Ele disse foi atacado por mim, mas não foi.
–Está dizendo que, então, o assassino pegou meu sobrinho?
–Possivelmente – respondeu – Mas acho que não era a intenção inicial. Alexander seguiu uma garota, que bate com a descrição superficial feita pelo porteiro, e então ele sumiu.
–Não faz nem trinta minutos que o vi, Florence Willis, como tem tanta certeza que ele sumiu?
Ela encarou a diretora, sem saber o que falar. Deveria contar a verdade? Deveria dizer, que eles iriam se encontrar ali? Mas se Minerva pensasse aquilo de outra forma, como o Conselho?
–Eu vi uma garota com essa descrição e Alexander a seguiu e não parece estar em lugar algum agora...
–Senhora – Philips entrou na biblioteca, interrompendo a conversa. Minerva havia o mandado para fazer uma busca por Alexander na escola e ele acabara de voltar. Não parecia nervoso ou algo do tipo – Eu o encontrei.
Florence se levantou da cadeira que estava sentada com um pulo.
–Como o encontrou? – ela perguntou.
–Não precisei procurar muito – ele rebateu, ainda com raiva – Ele estava entregando os avisos como a senhora diretora havia pedido.
Minerva olhou para Florence como se dissesse ‘’Viu? Eu sei sobre tudo o que está acontecendo aqui’’
–Onde ele está então? – Florence ainda não conseguia acreditar..
–Estou aqui, na verdade – um Alexander despreocupado, entrou na sala. Ele olhou ao redor e para todas as pessoas que estavam ali, tentando entender o que acontecia – O que houve?
–Onde você estava?
–Onde eu estava, Florence? – confuso, trocou o peso de um pé para o outro – Entregando os papéis que eu tinha que entregar. Qual o problema?
–Florence disse que você havia sido sequestrado – Minerva respondeu, com algo como um meio sorriso no rosto – Quase me fez ficar louca.
–Sequestrado? Aqui? – ele riu.
–Não se esqueça que um assassino está solto por ai e já fez suas vitimas, por que não um sequestro? – Florence interviu.
–Tudo bem, então. Mas estou aqui e estou bem. Não precisa ficar tão preocupada comigo, Willis.
–Não estou.
–Então por que estava tremendo quando entrei na sala?
–Estava com frio. Isso é normal nessa época do ano, ainda mais com um ar condicionado tão ruim com esse.
–Agora eu terei que me meter, senhorita Willis – Minerva falou de imediato, se virando em direção a garota – O ar condicionado daqui é excelente, um dos melhores. E, como pode ver, perfeitamente, Alexander não sumiu.
–Azar o meu.
–E – continuou Minerva – Espero que isso tenha encerrado essa conversa.
–Que seja – ela deu de ombros.
–Uma coisa, Florence e Alexander – Minerva caminhou em direção a porta – O Conselho solicitou uma conversa com os dois novamente, mas, dessa vez, juntos. Daqui a dois dias, mais ou menos.
–Por quê?
–Florence, estamos na cena de um crime. Mesmo sendo Filhos da Noite, ainda encaramos um crime como um crime. Você foram as duas pessoas que chegaram mais perto de ver o assassino agir.
–Estaremos lá, tia. – Alexander sorriu para a diretora.
E, antes de sair pela porta e desaparecer pelos corredores, ela sorriu para ele.
[...]
DIAS DEPOIS
–Gente, que frango é esse? – Anna falava sem parar – Que comida é essa? Tudo está maravilhoso. Acho que estou pensando em ir lá na cozinha e dar um abraço em cada funcionário...
Mas Florence pouco se importava com a comida em seu prato. Seus olhos estavam cravados na figura de Alexander Woodley, conversando com Mayre Lys, na mesa do outro lado do salão — onde todos os alunos faziam o café da manhã normalmente.
Alexander parecia feliz. Mais feliz que qualquer um ali. Ele sorriu para Mayre como uma criança sorria ao ganhar algum presente. Docemente alegre.
Mas, além disso, ele mal falava com Florence agora. Quase a ignorava, a não ser pelos ‘’Bom dia’’ e ‘’Boa noite’’ que recebia no corredor de vez em quando. Será que ele estava tentando puni-la pelo que ela disse sobre seu pai? Será que queria desistir do acordo?
Florence temia que as respostas fossem sim.
–Eii, garota – Anna passou a mão em frente do rosto da amiga – Você está aqui?
–Estou ao seu lado, Anna – ela respondeu.
–Sinceramente? – ela voltou a cortar seu frango – Você parece estar muito preocupada com outra mesa.
–Não sei do que está falando – agora Florence resolveu finalmente comer algo. Eca, frango!
–Você teve algum problema com a May?
–Mayre Lys? – Anna fez que sim com um leve movimento – Definitivamente não.
–Então, por que está olhando para aquela direção?
–Por nada. Só estava pensando em algumas coisas e meus olhar parou por ali.
–Vamos fazer uma tarde de meninas hoje?
‘’Desculpe, Anna’’ pensou Florence ‘’Mas você é a pior amiga para se escolher uma roupa por duas horas’’
–Não dá – ela respondeu, grata por ser verdade – Preciso falar com o Conselho hoje.
–Ah, você me disse. Quanta coisa acontecendo, não?
–Sim – Florence suspirou – Mas quanto mais rápido isso acontecer, mais rápido acabará.
–Eu sinto muitíssimo. Acho que deve ser horrível o que está acontecendo com você. Eu e Alexander estávamos conversando sobre isso...
–Calma ai, você estava conversando com Alexander? Você conversa com Alexander?
–Aparentemente sim. Ele se sentou ao meu lado na primeira aula da noite passada e ele foi bem legal comigo. Me passou a reposta da terceira questão que eu nem mesmo fazia ideia.
–Sobre o que conversaram?
–Falamos sobre muitas coisas. Sobre mim, minhas roupas, você..
–Sobre mim? O que falaram sobre mim?
–Ele fez tipo perguntas sobre como você é. Sei lá. O que gosta de fazer, o que gost... – Anna parou de falar e olhou, paralisada, para Florence. Depois, animada, soltou alguns gritinhos.
–Eu sei o que está pensando, mas...
–Você acha que ele gosta de mim?
–De você?
–Ele deve ter perguntado algumas coisas sobre mim, para me conhecer melhor.
–E então por que perguntaria sobre mim no meio da conversa?
–Nunca ouviu que para conquistar uma mulher, você tem que conquistar as amigas dela primeiro?
–Na verdade, nunca ouvi isso.
–Pois agora ouviu. Se ele falar sobre mim...
–Senhorita Florence Willis e senhor Alexander Woodley – Minerva chamou, ao microfone – Por favor, o Conselho está esperando por vocês na sala de aula B.
Os dois, quase que ao mesmo tempo, se levantaram de seus lugares e caminharam até a saída. Alexander, nem por um segundo, perdeu seu alegre sorriso e Florence quis empurrá-lo de um lugar bem alto, só para testar se ele ainda manteria aquela alegria toda.
–O que aconteceu com você? – ela perguntou, enquanto andavam pelos corredores.
–Está um belo dia hoje, Florence, e eu estou me sentindo bem. Qual o problema?
Florence cerrou os olhos em sua direção, sem parar de andar.
–Várias pessoas morreram nas últimos dias, Alexander, não há motivos para nos sentirmos bem.
–Pare de ser tão pessimista.
–Realista.
–Chata, você quer dizer.
Antes que Florence pudesse rebater com mais alguma ofensa, Alexander abriu as portas da sala onde eram esperados. Os dois membros do Conselho, que ainda estavam na escola para fazer algo – mas que aparentemente não faziam nada – se mantinham sentados atrás de uma mesa retangular média. E um homem, de terno preto e fino, estava a frente dos dois, sorrindo para ambos.
Assim que Florence e Alexander entraram na sala de aula, a conversa, porém, cessou.
–Senhorita Willis e senhor Woodley. Que bom que estão aqui – Joel cumprimentou – Podem entrar.
A porta de fechou atrás deles, assim que fizeram o que foi pedido.
O homem, agora virado na direção dos dois, tinha traços fortes e um nariz pontiagudo. Sua postura era reta e carregava, preso em seu terno caro, um tipo de broche que se assemelhava a uma árvore sem folhas.
–Olá, meu querido – ele disse a Alexander, abrindo os abraços – Não vem dar um abraço em seu velho amigo?
O garoto, quase que hesitante, foi em sua direção e o abraçou, meio desconcertado.
–Ah, Alexander, como cresceu – o homem reparou, se afastando – Eu tentei vir o mais rápido que pude quando soube o que estava acontecendo aqui, mas foi complicado. Meu trabalho é. Tanto que já vou logo pedindo desculpas. Terei que partir na manhã seguinte.
–Eu entendo – Alexander disse, baixo demais.
Quem era aquele homem?
–Ah e essa é a garota, suponho – seu olhar agora se mantinha em Florence, juntamente com seu desdém e desprezo – Mal chegou ao lugar e já arrumou problemas?
–Sabe, quando eu era um bebê ainda, minha mãe me deu um nome. O que foi bem legal da parte dela, se quer saber minha opinião. Meu nome é Florence, prazer. – ela fez uma reverência, cheia de maldade – E eu não tenho nada a ver com os problemas que estão acontecendo aqui.
–Atrevida, eu vejo.
–Entediante, eu vejo.
–Sabe com quem está falando, garota insolente?
–Com um homem ranzinza e que se veste estranhamente previsível?
–Você me deve um pouco mais de respeito, menina.
–Ah, eu devo? Onde eu assinei meu nome me comprometendo com isso?
–Eu sou seu Comandante. – ele falou, fazendo Alexander o encarar mais profundamente, como se o avaliasse – Pelo menos, por enquanto.
–Não entendi. O Comandante está morto.
–Infelizmente, graças a seu querido pai – ele suspirou, cansado – Mas a vida continua e eu precisei assumir o cargo dele até que seu filho complete a idade estipulada pelos Filhos da Noite para tomar esse lugar que, por direito, é seu.
–Ah, então você é um simplório substituto?
–Não sou simplório coisa alguma.
–O que está fazendo no meio dessa conversa, senhor simplório Comandante?
–Para sua informação, eu vim observar você. Tenho quase certeza sobre quem matou essas pobres garotas.
–Sabe, senhor simplório Comandante, eu não vim até aqui perder meu tempo discutindo com você. Senhores – ela se virou para o Conselho – Minha atenção é somente de vocês.
E, vitoriosa pela careta direcionada a ela pelo Comandante, se sentou em uma das cadeiras em frente ao Conselho. Alexander fez o mesmo, logo depois, escondendo uma risadinha.
[...]
A conversa não foi muito diferente da última que teve com dois homens de ternos cinza, mas Florence se sentiu mais nervosa nessa. Talvez a razão tenha sido pelo olhar de Alexander em cima do seu ou o do Comandante. Ou talvez pela sensação de mal estar que entorpecia seus sentidos, a deixando tonta.
–E foi basicamente isso – disse por fim – É tudo o que sei.
–Tem certeza que não se lembra de mais nada? – Joel insistiu.
–Absoluta – confirmou.
–Senhores – Alexander se levantou de sua cadeira e caminhou em direção aos dois homem atrás da mesa – Eu poderia trocar algumas palavras com vocês?
–É claro – disseram.
Florence apenas suspirou, se perguntando, ao lado do carrancudo Comandante, quando poderia sair daquele lugar desconfortável.
‘’Titia’’ alguém chamou em algum lugar ‘’Titia’’
–Disse alguma coisa? – ela perguntou ao Comandante.
–Por que diria algo a você? – ele a olhou sem paciência e depois revirou os olhos – Tenho coisas mais importantes a fazer...
‘’Titia, por favor’’ a voz voltou a falar e Florence, finalmente percebeu, que só ela poderia escutá-la. Mas mais que isso. Ela percebeu também que aquela voz parecia-lhe conhecida.
‘’Alexander?’’ ela pensou.
‘’Florence?’’
Suas desconfianças se mostravam verdadeiras. Mas ela não entendia como.
‘’Por que está falando comigo?’’ era fácil ter uma conversa por pensamentos. Bastava imaginar as palavras.
‘’Não entendo’’ ele parou de falar por alguns segundos e então continuou ‘’Não era para ser você, eu acho’’
‘’Isso é alguma brincadeira?’’ ela perguntou ‘’Você não é aquela Voz que fez minha cabeça fritar, é?’’
‘’Não sou’’
‘’Poderia apenas não confiar em você, sabia?’’
‘’Precisa confiar em mim’’
‘’Não preciso nada’’ ela rebateu ‘’Mas eu confio. A sensação de suas palavras na minha cabeça é diferente de quando a Voz falou comigo antes. Estranho, não?’’
‘’Cada conversa por pensamento é muito delicada, Florence, e sentir sensações diferentes com cada pessoa que converse dessa forma é normal’’
‘’Mas você é bom’’
‘’Bom? Em quê?’’
‘’Eu não sei como, mas consegue falar comigo por pensamento e ainda conversar pessoalmente com o Conselho, ao mesmo tempo’’
‘’Não estou falando com ninguém mais’’
‘’Não ria de mim, Alexander. Estou vendo você, bem aqui, na minha frente’’
Ele se calou por mais tempo agora. Quando voltou a falar, sua voz parecia mais dura, como se fosse possível.
‘’Não demonstre reação alguma, mas essa pessoa que está em sua frente não sou eu. Eu nem mesmo sei onde estou. Acordei em uma sala escura, onde mal consigo ver meus próprios pés. Acho que alguém bateu em minha cabeça, porque ela está doendo e está molhada. Sinto cheiro de sangue mais do que qualquer outra coisa aqui’’ ele falou em sua cabeça, quase como se suplicasse perto de seus ouvidos ‘’Preciso de sua ajuda, Florence’’
Mas ela não respondeu de imediato. Seus pensamentos estavam ocupados demais com ideias se misturando a dor de cabeça que começava a sentir aos poucos.
Quem, então, estava em sua frente e por que sentia que não queria saber a resposta?
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