Nascida do Ar
1 Nova cidade, nova vida, mesmos problemas
Notas iniciais
A paisagem passava como um borrão pela janela do carro. Eu não conseguia prestar atenção em nada, nem na música que tocava nos fones de ouvido. Passamos pela placa de "Bem-vindos" na entrada da cidade e bufei.
– Não vai ser tão ruim quanto você pensa minha querida.- Disse minha mãe arrancando arrancando meus fones.
Explicando melhor, eu e meus pais estamos mudando porque meu pai recebeu uma promoção na empresa que o fez ter que se mudar para uma filial para uma cidade da Inglaterra. Aí já viu né? Quem sofre são os filhos por ter que abandonar a vida que tinham. O carro parou e olhei para a casa a minha frente. Um sobrado branco de arquitetura moderna, nada de fantástico. Escutei o caminhão da mudança parando logo atrás de nos. Ele trazia apenas as coisas da sala e cozinha já que meus pais haviam vindo ontem mesmo para organizar o andar de cima.
Desci do carro e olhei ao redor, uma senhora de idade que regava suas rosas em frente da sua casa me acenou. Sorri e acenei de volta. Peguei minha bolsa com poucas coisas, a gaiola da meu gato e entrei. Passando pela sala totalmente vazia subi dois lances de escada e apoiei a gaiola no banco do piano de minha mãe.
– Hey filho- disse abrindo a portinha e pegando meu gatinho preto e acariciando-o atras da orelha- quer esticar as pernas meu amor?
– Alice?! Onde você está minha querida?!- Minha mãe gritou.
– Em cima!- Gritei de volta.
– Última porta a esquerda meu amor!
Fui até lá já sabendo que ela estava falando do meu quarto. Entrei, fechei a porta e soltei o gato no chão que correu direto para uma cama de casal. Ele já estava inteiro mobiliado e totalmente arrumado. Deixei a bolsa no chão, fui me juntar ao monte ronronante de pelos negros em cima da cama e fiquei encarando o teto. Não muito tempo depois a porta se abriu e meu pai ficou parado no batente.
– Você sabe que se sua mãe ver essa bolsa jogada no chão e não pendurada no gancho atrás da porta ela vai gritar com você certo?
– E ela precisa de motivos para gritar comigo?
Ele riu e se sentou ao meu lado ajustando os óculos.
– Nós teremos um convidado importante hoje para o jantar.
– Quem é?
Disse deitando a cabeça em seu colo e ele começou a acariciar meus cabelos.
– Apenas vá tomar um banho e se arrume, ele chega em uma hora.
– Duvido que vocês arrumem tudo a tempo.
– Sua mãe já está terminando.
Disse ele rindo e se levantando. Quando ele fechou a porta fui para o banheiro tomar banho.
***
Pronta, sai do quarto e desci as escadas. Fui em direção a cozinha ajudar minha mãe mas parei quando escutei a voz de meus pais e mais um terceiro vindas do escritório dele.
– Já está tudo pronto. Acho que já chegou a hora.
Disse a terceira voz.
– Mas será que não podemos esperar um pouco mais? Acho que ainda não é tempo.
Meu pai falou.
– Eu agradeço pelo que você fez pela minha família mas, além do treinamento que ela terá que receber, há leis que deverão ser cumpridas Argent, e ainda há a....
O estranho não concluiu a frase porque Atlas, meu gato, foi correndo em direção ao escritório e eu tentei impedi-lo mas, quando peguei ele no colo percebi que já estava no meio da sala. Ergui meu corpo lentamente com o gato no colo planejando como matá-lo e encarei o homem a minha frente apoiado na mesa de carvalho com os braços cruzados e um sorriso zombeteiro.
– Não é educado escutar conversas atras da porta. Pensei que tinha ensinado-a isso Sarah.
Ele disse isso a minha mãe mas olhando a para mim. Ergui o meu queixo orgulhosamente e disse:
– Não estava escutando. Estava apenas perseguindo o gato que ocasionalmente entrou no recinto no meio da conversa.
Ele abafou o riso enquanto minha mãe levantava exasperada do sofá em que ela estava sentada ao lado do meu pai e vinha em minha direção.
– Perdoe-me pelos maus modos dela.- Disse enquanto arrumava meu cabelo desnecessariamente e alisava minha camisa e saia.- Culpa minha, Alice venha comigo.
Fui a seguindo me perguntando se aquele não era meu possível noivo de um casamento arranjado. Até porque, da minha mãe se esperar tudo ainda é pouco.
Fui arrumando a mesa enquanto ela trazia a comida.
– Quem é ele?
– Ninguém muito importante.
Ela respondeu como alguém comenta sobre o tempo.
– Se não fosse importante você não ficaria tão nervosa quanto a....
– Eles estão voltando.
Meu pai entrou com nosso convidado e parei para reparar melhor nele. Corpo magro e musculoso, cabelos totalmente brancos que contrastavam com as roupas pretas e olhos cinzentos, quase prateados diria. Ele rolava um anel com o polegar do dedo indicador enquanto conversava com meu pai e de repente, parou. Olhei para o seu rosto e vi que ele me encarava, sério.
– Sentem-se por favor.
Minha mãe disse e sentou-se a mesa. Todos a acompanharam, meu pai se sentando na cabeceira com o homem a sua esquerda e minha mãe a sua direita seguida por mim.
O inicio da refeição foi estritamente silencioso. Não se escutava nem os mínimos ruídos dos talheres contra o prato. Eu encarava meu prato o tempo inteiro brincando apenas com a comida pois estava sem fome até que escutei um pigarreio e levantei os olhos.
– Acho que não fomos devidamente apresentados, sou Sebastian.
– Alice.
– Então, Alice, tem algum hobbie?
– Arco e Flecha e esgrima.
– Alice foi campeã estadual quando tinha doze em arco e flecha.
Dei um leve chute no pé de minha mãe por ter contado isso.
– Dizem que ou se é bom em esgrima, ou em arco.
– Pelo jeito essa regra não se aplica a mim.
Agora foi a minha vez de receber o chute.
Antes que ele me fizesse mais uma pergunta seu celular tocou. Ele pediu licença e se retirou para atender a ligação.
– Isso não são modos Alice!
– Não se preocupe Sarah. Até parece que não viu que ele estava se divertindo.
Meu pai disse olhando por cima dos óculos para ela que ficou vermelha não sei se de vergonha ou de raiva.
– Não acho que posso ficar mas tempo mas, mesmo assim, agradeço a hospitalidade.
Sebastian voltou de onde estava e meu pai se levantou para um aperto de mãos.
– Foi muito bom que você tenha vindo aqui. Volte sempre.
– Algum dia talvez. Tem uma esposa agradável e uma filha encantadora.
Me levantei e estendi minha mão para apertar a sua formalmente quando ele me surpreendeu com um beijo nas costas da mesma.
– Eu lhe acompanho até a porta senhor Salazar.
Disse minha mãe e sumiu com o cara. Eu cutuquei meu pai de lado e sussurrei com o canto da boca.
– Mamãe não ta com nenhuma ideia idiota de me arranjar com esse cara né?
Ele jogou a cabeça para trás e riu alto e saiu sem me dar explicação de quem Sebastian era ou o que veio fazer aqui.
***
No outro dia já estava pronta para ir a escola. Arrumei minha touca sobre os cabelos loiros e desci até a cozinha. Quando cheguei lá sentei na cadeira da bancada e joguei minha bolsa do meu lado.
– Bom dia querida.
Minha mãe disse enquanto cozinhava os ovos. Meu pai me olhou por cima da armação dos óculos como ele sempre costuma fazer, me acenou e voltou a ler o jornal. Peguei uma maçã e mordi.
– Tenho que ir mesmo?
Disse me referindo a escola. Não tenho um bom histórico escolar se assim posso dizer sem entrar em muitos detalhes. Para ser sincera fui expulsa de todas as que já estudei tipo, todas mesmo.
Meu pai pigarreou e ajeitou o jornal.
– Já discutimos sobre isso Alice.- Minha mãe me disse sem olhar para mim ainda concentrada na frigideira.- Você vai e ponto.
– To no carro.
Disse largando a maçã e indo para a garagem. Minha mãe faz o tipo: "Quer discutir? Vamos ver quanto tempo você aguenta até desistir e eu ganhar"
Entrei no carro e fiquei esperando até meu pai chegar. Ele entrou sem dizer nada e deu partida. Ficamos em silêncio o caminho inteiro mas, não aquele silêncio desconfortável. Era assim nossa relação. Palavras não eram necessárias.
Ele parou o carro e eu soltei um gemidinho de frustração.
– Vou ter que te jogar do carro? Ou melhor, entrar com você no colo?
Ele disse brincalhão. Baixei o espelho do quebra sol, arrumei a touca e sai. Enquanto adentrava na escola eu tentava achar meu horário dentro da bolsa. Quando eu o achei preferia não ter o feito. Química seria minhas duas primeiras aulas.
Depois de pedir algumas informações e passar no meu armário encontrei a sala que ainda estava quase vazia. Me sentei em uma das bancadas do meio-janela e peguei os fones. Na metade da música eu vi um garoto de óculos de armação redondas, cabelos acobreados, algumas espinhas e sardas sentar do meu lado.
– Não estou no seu lugar certo?
– Na verdade eu me sento sozinho. -Disse ele sorrindo.- Pode fazer dupla comigo, a professora não vai ligar.
– Obrigada.
Sorri de volta e coloquei os fones aumentando o volume dando a entender que não estava muito afim de conversar. Uns cinco minutos depois vieram a manada. Incrível como em todo lugar sempre tem aquele grupo de garotas fúteis que acham que são o centro do universo. Batia o indicador na mesa no ritmo da música enquanto uma delas estava parada na minha frente. Duas delas tinham ido para o fundo da sala enquanto a quarta e ultima se sentava virada para mim na carteira da frente. Eu encarava a morena que estava em pé a minha frente enquanto ela me analisava com os olhos apertados. A loira a minha frente se esticou e arrancou os fones.
– Pedir com educação nunca matou ninguém sabia?
Disse para a loira ainda encarando a morena. O garoto se mexeu desconfortável ao meu lado.
– Deveria colocar uma focinheira na sua namoradinha Peter.
– Não implique com a garota já logo no primeiro dia dela.
O garoto ao meu lado, Peter, disse um pouco a vontade. A loirinha riu.
– Que bonitinho ele defendendo a novata.
– Todos em seus lugares!
Disse uma senhora de meia idade entrando na sala, a professora imagino. As duas garotas se sentaram na mesa de trás mas não sem antes me darem aquele olhar de como quando um cachorrinho olha para um novo bichinho de pelúcia que o dono comprou para ele o estraçalhar.
A professora começou a dar a aula e disse que faríamos alguns experimentos. Ela nos deu os ingredientes e foi ditando os passos que deveríamos seguir para tudo ocorrer certo. Peter e eu combinamos que enquanto eu escrevia os passos ele mexeria com os ingredientes já que ele tinha a letra quase ilegível e eu era uma negação com química.
– Cuidado com a cabeça.
Umas das garotas disse atras de mim e jogou algo dentro do nosso recipiente que logo começou a borbulhar, espumar e subir. A espuma chegou a tocar minha mão a queimando um pouco e eu explodi. Bem, tecnicamente outra coisa fez isso por mim. A janela em que estavamos sentados simplesmente explodiu
Fale com o autor