Nascida de Dutran
1 Mudança de planos.
Notas iniciais
Comer de colher de plástico, não era lá uma das minhas coisas preferidas. Meu rabo de cavalo sim. Mas como estar num acampamento, onde todos se divertem menos você, preencher o vazio da fome com uma comida quase crua e fria, sua mãe tomando o tempo possível e o impossível para jogar-lhe toneladas de repelente com um cheiro estupidamente enjoativo, e usar uma colher de plastico , é quase nada.
Basicamente , todas as minhas férias de verão eram deste mesmo modo: Com a família materna e paterna juntas em um acampamento, num lugar esquisito e sem sinal algum com o mundo. Apenas algumas vezes, o sinal do celular pegava. Mas era uma esperança quase nunca realizada. Grace, minha melhor amiga, sempre abre portas convidativas para que eu possa passar esta temporada de veraneio, na casa de seus avós. Entre os nove anos de amizade minha e de Grace, minha mãe só aceitou o convite duas vezes. Ela era bastante insistente no aspecto: Família junta e fortalecida pelos laços de amizade e blá, blá, blá.
Para ser mais pratica, pode-se dizer que todos os meus verões foram uma grande merda. E foram mesmo. Até minha mãe ceder à Grace este ano. Mas , a partir daí tudo na minha vida começaria a mudar. Completamente.
(...)
- Tem certeza que não esqueceu a escova reserva Thalia? — Minha mãe não descançava enquanto tudo não estivesse dentro do carro. E estávamos à três dias antes da viajem.
- Teresa Goullard, Faltam três dias, TRÊS. Eu ainda nem separei minhas roupas. — Eu estava em minha cama lendo meu livro favorito, da qual tenho convicção que , pela décima ou quinquagésima vez, e minha mãe na sala , colocando todos os repelentes possíveis na sua maleta rosa pink.
- Desça aqui. JÁ! — O som de sua voz ecoou até meu quarto.
Desci, e lá estava ela, com seus braços rígidos e os punhos fechados.
- Eu já disse que você é muito teimosa? — Ela falou quase gritando. A única coisa que ela gritava na vida era com isso. Ela se importava bastante.
- Mãe, quantas vezes eu já disse que eu odeio ir pra aquele lugar? É todo carrasquento e vocês só sabem fazer fogueiras e comer carne. É totalmente sem graça, e você nunca me deixa passar com Grace. Eu odeio aquele lugar. — Eu falara tudo, o que já havia falado a muito tempo. Era quase uma gravação.
- Você é realmente muito, muito chata. Nunca aceita o que eu peço. E já disse para você não me chamar de "você". — Ela me fuzilava com o olhar a medida que suas palavras saíam.
- Tudo bem mãe. De nada vai adiantar brigarmos. — Ela assentiu e sorriu como se tivesse dito: Eu sei disso garota — Por que eu sei que você é cabeça dura, e nunca vai mudar de ideia — Sua expressão de concordância fechou-se dentre uma piscada e outra.
- "Senhora".
- Tudo bem senhora. — Eu ri, e ela balançou a cabeça negativamente enquanto ria junto.
Subi para o meu quarto e liguei para Grace. Chamou quatro vezes até ela atender.
- Lia, você não tem noção do que aconteceu hoje.
- Oi, bom dia pra você também.
- Sabe o Brian? Ele terminou com a Nick e me pediu em namoro. Você pode acreditar? Em namoro. Namoro.
Brian era o garoto que ela gostava a dois anos. E ele nunca deu a mínima , até agora.
- Jura? Creio que a sua resposta foi sim.
- Sim, quer dizer não, não foi um 'sim' imediato. Foi tipo: Ah! Meu Deus! Estou tão feliz, vou jogar gelo em mim, mas por enquanto vou pensando. E ele concordou. — Dava para ver o sorriso de um olho a outro no rosto de Grace, mesmo pelo telefone.
- Ah! Que ótimo. Estou realmente feliz por você.
- Seca como sempre.
- Sério, estou realmente feliz. Sei que é o que você queria. Mas, eu liguei para saber se você não quer tentar falar com minha mãe. Para saber ao menos, hm, se ela não deixaria eu passar minhas férias com você e com sua avó. — Ela demorou um pouco para responder. — Grace?
- Ah! Claro , com o maior prazer. Quero muito ouvir a voz da tia novamente. Faz um tempão desde que nos falamos.
- O.k, só um segundo.
Chamei minha mãe três vezes até ela aparecer.
- Sim?!
- Grace quer falar com você, ela disse que está com ... Saudades.- Gritara um pouco na parte do 'saudades' para que Grace escutasse do telefone e repetisse com minha mãe as mesmas palavras.
- Grace? Oh meu amor, tudo bem? Não sabia que você estava aqui!
- Mãe? — Ela procurava Grace pelos cantos do meu quarto.- Mãe!
- O que é Thalia?!
- Ela está pelo telefone.- Passei a mão pelo rosto e revirei os olhos.
- Ah! — Ela segurou o telefone desajeitadamente. — Oi minha linda! Tudo bem com você? — Minha mãe sorria, enquanto eu estava sentada na cama esperando daqui a pouco ela dar um de seus chiliques e sermões por não ter avisado que Grace iria falar sobre o assunto viajem. Ela assentia enquanto Grace falava. Até um certo momento.
- Olha meu anjo, você sabe que eu gosto de passar as minhas férias em família. Você se quiser pode vir conosco, mas ela passar as férias aí... Hm, eu meio que sinto medo. Ela é muito novinha para passar um feriado longe de mim. Lembra das outras vezes? Ela quebrou três pratos. Uma relíquia de seus avós.
- Mãe, pelo amor de Deus! Eu tinha dez anos! — coloquei as duas mãos em concha em meu rosto, e esperei a conversa terminar. Até que escutei uma afirmação da parte de minha mãe. Meu coração saltou.
- Tudo bem, tudo bem! Eu passo na casa de seus avós quando eu voltar de férias do acampamento. Tem certeza de que não quer vir? A gente faz coisas bastantes legais lá sabia? — Minha mãe confirmava enquanto Grace conversava. Nem acredito que minha mãe aceitara o convite. Iria me jogar aos pés dela e a beijar muito!
— Tudo bem então. Obrigada pelo convite. Tchau Grace! — Minha mãe colocara o telefone no gancho.
Assim que ela fizera o gesto , eu lhe ataquei com abraços e beijos.
- Ahn! Obrigada, obrigada, obrigadaaa! — Ela dera uma gargalhada.
- Sou uma mãe legal, não sou?
- Sim, sim, sim você é. — E lhe dei um grande beijo no rosto.
- Ela disse que vai passar por aqui amanhã de manhã.
- Tudo bem! Vou arrumar minhas malas.
Ela me encarou.
- Para ir pro acampamento é um velório não é? — Ela me olhou com uma cara de buldogue insatisfeito, e depois saiu do meu quarto. O dia seria longo para arrumar minhas coisas.
(...)
Logo pela manhã, talvez umas 7:30 , o carro da sra. Hunter para na frente da minha casa. Eu esperava na porta com todas as malas prontas.
- Lia! — Grace me dera um abraço como se não tivéssemos nos visto a uma semana ,antes das férias começarem.
- Tia Jessie! — Cumprimentei a mãe de Grace. Gostava muito dela, por mais doida que a mesma fosse. Ela realmente sabia aproveitar a vida cada segundo. E acho que Grace puxou muito este lado "desfrutador".
Depois de termos conversado de como seria a viajem, e ela e minha mãe se cumprimentarem, beijei minha mãe e disse que a amava. Pensei que por um momento as lágrimas em seu rosto rolariam, e dei uma breve gargalhada. Eu amava minha mãe com todas as minhas forças. Ela sempre cuidou de mim como se fosse a pessoa mais rara do mundo. Ou ao menos era assim que me sentia ao ficar perto dela. Meu pai, já separado da minha mãe, viajava muito, por ser piloto de avião. Voltava semanas e semanas depois. Não me lembro em nenhum momento de minha vida, de meu pai dizendo a mim que me amava. Não guardava mágoa, nem rancor. Apenas o tratava como uma pessoa normal.
Entramos no carro, a sra. Hunter deu partida. No banco de trás, eu e Grace conversávamos.
- Ainda acho que ele seja um cafajeste. Ninguém termina com alguém e poucas horas depois começa a namorar outra. Ele é esquisito e infantil. Não gosto dele , você sabe disto- Falávamos de Brian, e como sempre, Grace o defendia.
- Ele apenas descobriu que eu existia. E gostou de mim. E me achou casualmente interessante. Eu quero muito que dê certo. — Ela mordeu o lábio inferior. — Ainda acho que ele é muito para mim. Penso que ele vai desistir de primeira quando achar alguém melhor.
Grace tinha os cabelos compridos e ondulados de uma cor ruiva intensa. Seus olhos eram cor de mel, bastante cintilantes. Tinha sardas espalhadas pelo rosto. Era realmente muito bonita e uma irmã.
- Oi? O quê? Não, realmente desta vez Grace, você se superou. Onde que aquele babaca é muita areia pro seu caminhão? Sinceramente, ele não passa de um mané gostosão que se acha por "pegar" todas. Não passa de um babaca infantil. Não apoio.
Em apoio , a sra. Jessie confirmou.
- Também acho Lia, mas ela não me ouve. Acha ele o cara perfeito. — Dava para ver sua expressão de desprezo sobre a situação.
- O.k. Talvez ele seja um pouco infantil , mas vamos lá ele está se esforçando. Nada se compara ao Henderson. Aquele sim, era um grande babaca. Desgraçado.
Henderson, era realmente a descrição de Grace. Os dois namoravam, havia cinco meses e ele e a garota da qual Grace a considerou sua amiga por muito tempo trairam-na. E o pior: A traição dos dois com Grace foi na casa dela. E ele ainda disse que ela estava louca. Que não havia visto nada, e que eles estavam apenas conversando, quando estavam realmente no décimo amasso.
Depois de uma hora no carro, e atravessar quase seis cidades, chegamos à casa dos avós de Grace. Como sempre a sra. Hunter, deixava a filha na casa de seus pais. E ela amava. Das duas últimas vezes em que passara lá, as coisas eram diferentes. Por que 1) Lá, nós não dormiamos numa cabana com um colchão empoeirado e fedorento como no acampamento, também por que 2) A avó de Grace, nunca deixava de fazer bolo, e por incrível que pareça, mesmo sendo uma casa distante da cidade ao menos 3) Tinha sinal com o mundo . Mas o que mais me marcou das últimas vezes em que passei o verão lá foi a sensação de estar sendo vigiada. Eu acordava de noite, com o suor pingando e não dormia mais. As vezes quando sentava numa janela próxima à cama, sentia sempre o vento mais forte. E parecia que sempre estava tentando esmurrar meus cabelos que chacoteavam à luz de uma lua, sempre cheia. Intensa.
Àquelas lembranças sempre me faziam sentir um certo arrepio. Houve uma vez em que senti tanto medo que acabei acordando Grace, que passou toda a noite acordada comigo, conversando e me fazendo esquecer os pensamentos medrosos. Mas algo, sempre me levava a querer voltar ao mesmo lugar. Algo me prendia a ele. E eu não fazia idéia do por que. Sabia apenas que tudo ficava bem no final. Mas desta vez não iria ficar. Eu sentia isso.
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