Nasci Pra Você
1 First
Pulei da cama ainda trêmula, era incrível como mesmo depois de quatro anos do ocorrido ainda acordasse a noite com o mesmo pesadelo. “Isto tem que parar” – pensava comigo mesma. Então meu medo da escuridão era tão grande que ainda perdurava mesmo depois de já ter voltado pra Era Feudal? Apertei com as mãos o fino pano que cobria a cama de tatame, na esperança de que minha força levasse pra fora tudo o que me incomodava.
Olhei pro lado e um sorriso de canto de boca me escapou, “Fico feliz por não tê-lo acordado desta vez.”. Depositei agora minha mão nos longos cabelos prateados do meu amado, e subitamente ele acordou. Não era a minha intenção.
– Ka-Kagome? O que faz acordada a essa hora? – perguntou InuYasha, enquanto me consumia com seus olhos dourados.
– O mesmo pesadelo. É sempre o mesmo. – minha voz falhou um pouco.
– A Jóia de Quatro Almas foi destruída! Destruída por você, Kagome! Não se permita abrir espaço pra essas lembranças. – sabia que ele não gritava por estar chateado comigo, acho que ele só não conseguia entender o quanto aquela situação ainda me consumia.
Depois de mais umas duas ou três frases de conforto, me aninho nos braços de InuYasha, clamando pra que as más lembranças não conseguissem me alcançar.
Acordamos cedo no dia seguinte, feixes de luz solar adentraram pela janela incomodando a minha pupila e avisando que já era hora de sair da cama. Como num ritual, após meu banho vesti minhas roupas alvo e rubro e fui junto com a Rin buscas umas ervas. Alguns aldeões do vilarejo tinham ido exterminar um youkai ontem e voltaram com alguns ferimentos.
Quando voltei, InuYasha, Miroku e Sango estavam repousando na sombra de uma árvore, me juntei a eles, da mesma forma como tínhamos nos juntados anos atrás. Será que alguém imaginaria que uma amizade assim pudesse surgir entre pessoas que apenas se juntaram em busca de um interesse comum. “Acho que sim” – murmurei enquanto sentava.
– Disse alguma coisa? – perguntou Sango. Acho incrível como mesmo depois de ter três filhos ela ainda conserva a mesma aparência de antes.
– Só estava pensando alto. Gosto da forma como nós quatro chegamos até aqui. – deitei na grama. InuYasha me fitava enquanto eu falava. Acho que ele ainda está preocupado com a noite passada.
Miroku me olhou como se retribuísse o meu pensamento. Talvez ele já tivesse se pego pensando nas mesmas coisas que eu. Quem sabe?
O sol incidia fortemente no meu rosto, de forma que meus olhos ficaram fechados por um bom tempo. Coloquei minhas mãos pra cima na esperança de conseguir olhar pra frente. Entre encarar o céu e encarar minha mão, escolhi olhar pros meus dedos e pela forma como a ponta deles ficava avermelhada em contato com a luz. As noites em claro tinham servido pra que eu pensasse em coisas que, mesmo conhecendo essa era há um bom tempo, nunca tinham me passado pela mente. Resolvi compartilhar meus pensamentos.
– Quantos anos vive um youkai? – perguntei olhando pro InuYasha, ele me encarou por um tempo. Acho que não esperava esse tipo de pergunta.
– Isso depende. Sesshoumaru, por exemplo, já tem pra lá de 500 anos e eu também já passei dos 200.
– Entendo. É que eu estava pensando... – nesse momento me senti sendo observada por Miroku e Sango também – acho estranho como não tem youkais na era de onde eu vim.
Com exceção de InuYasha, todos pareceram ficar surpresos com o que eu disse, ora, mas eles não sabiam disso?
– Se não existisse uma Árvore Sagrada igual a essa no templo onde eu morava, — disse olhando pra árvore em cuja sombra nós repousávamos – eu diria que esta era não se trata do passado da minha era, mas sim de outra ligação, como numa realidade alternativa. As pessoas de onde eu vim não costumam falar de youkais como se eles realmente tivessem existido. Se um youkai pode viver mais de 500 anos, é certo pensar que eles deveriam existir do lado de lá também. – enquanto falava, um milhão de pensamentos afloravam na minha mente. Acho que esse tipo de coisa só acontece quando colocamos pra fora o que fica martelando dentro da nossa cabeça.
– Ora, Kagome, deixe de pensar besteira. Não fique ocupando sua mente com esse tipo de coisa. Quer ter problemas pra dormir de novo? – disse InuYasha, eu conseguia ver que, embora estivesse preocupado, ele também está se perguntando agora o porquê do que eu havia falado.
Miroku e Sango não tiveram reação. Abriram a boca pra falar alguma coisa, mas as palavras haviam fugido. Deve ser porque eles não conhecem minha era, ou simplesmente não sabem o que falar.
Depois de mais uns instantes, eles levantaram pra preparar o jantar pras crianças e o InuYasha se deitou ao meu lado na grama, apoiou minha cabeça em seu braço pra que eu ficasse mais confortável.
Ficamos sem falar nada por um tempo. Acho incrível a forma como posso me sentir a vontade do lado dele, a maioria das pessoas já teria dito qualquer coisa aleatória pra quebrar o silêncio. Acredito firmemente que só pessoas com uma ligação muito forte possam agir assim. Possam ser capazes de se sentir bem, mesmo quando palavra nenhuma percorra sua boca e seus ouvidos.
– Sabe, — disse enquanto virava a cabeça na direção dele pra que seu olhar mergulhasse no meu. – eu nasci pra você, InuYasha.
– Eu sei. – ele disse, aquele sorriso que eu adoro se estampou em sua face e eu senti que meu coração batia mais rápido. – E eu nasci pra você, Kagome. – completou.
– Não acredito que eu tenha vindo pra essa era apenas pra destruir a Jóia de Quatro Almas. Se fosse assim, o poço não teria se aberto pra mim novamente como há um ano. Não posso dizer que pertenço à essa era, mas posso dizer que pertenço a você. Minha alma pertence à sua, aliás. – Ele ainda me olhava com o mesmo sorriso em seu rosto. – Sei que essa não é a primeira vez que nos encontramos, e sei que ainda que vivamos mil vidas em mil mundos diferentes, minha alma sempre dará um jeito de encontrar a sua e eles ficarão juntas como estão agora. Eu nasci pra você e só pra você, InuYasha. Acho que tem pessoas que podem afirmar isso uma da outra.
Ele continuava me encarando, sorrindo, sem dizer uma palavra. Eu estava tão hipnotizada com seu olhar que fui pega de surpresa por um beijo seu. Ainda amo a sensação desse beijo, mesmo depois de tanto tempo.
– Existe uma estrela – ele disse enquanto olhava pro céu, acompanhei o olhar dele. – pra cada ser vivo nesse mundo. Uma estrela pra cada um de nós. Podemos passar a vida em busca dela, e não saberemos ao certo o que estamos procurando.
Não entendi logo de início. Em meio ao silêncio, ele me fita novamente e completa: “A minha estrela é você”.
Senti como se estivesse nos vendo de cima ao invés de estar vivendo aquele momento. Sorri. Sorri por dentro de por fora. Nada mais precisava ser dito.
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