Estava frio.

Mesmo vestindo roupas apropriadas para o frio da montanha, o rapaz não conseguia deixar de sentir seu corpo gelar mais do que normalmente gelaria naquelas condições. Talvez a natureza estivesse lhe castigando por sentar-se na grama para observar a água do canal, milhas e milhas adiante.

“Engraçado, não me lembro de sentir tanto frio da outra vez”.

Olhou para o céu, onde as estrelas estavam acompanhadas por luzes e mais luzes coloridas. Aquilo, pensou, lhe aquecia muito mais do que a fogueira que crepitava ao seu lado.

Estava frio.

O estômago roncou com força, fazendo-lhe parar para pensar qual fora a última vez que tivera uma refeição decente. A dor lhe fez voltar a sentir o cansaço nos ombros, o cansaço nos membros que usou para subir até ali. Também não lembrava qual fora a última vez que se esforçara tanto para chegar a algum lugar que não fosse a própria cama.

Talvez na última vez em que estivera naquele lugar.

A visão que ele poderia ter do canal caso olhasse para baixo naquele momento deveria ser um verdadeiro privilégio, com os trechos de terra formando uma paisagem belíssima, repleta de pinheiros e rochas que pareciam esculpidas por um artista.

Mas para ele, o maior privilégio estava em observar as estrelas.

Escutou passos pelos arbustos ali perto.

Fechou os olhos.

E o frio se foi.

— Você estava me esperando, não estava? — perguntou uma voz feminina e serena, que o fez abrir os olhos de novo.

Ao se virar para a dona da voz, enxergou uma mulher de pele pálida, cabelos e vestido escuro, algo que em situações normais seria no mínimo esquisito considerando o local onde estavam. Mas o que mais lhe tomou o interesse foi o rosto. Ah, como era familiar aquele rosto. Tão familiar que seu peito doeria caso pudesse sentir alguma coisa.

— O seu rosto... — O rapaz soltou um sorriso pesaroso. — Se parece muito com o dela.

— Ossos do ofício. — A dama deu de ombros enquanto se aproximava. — Posso?

— Por que não poderia? — respondeu, apontando para um lugar na grama ao seu lado.

— A maioria das pessoas hesita depois de me reconhecerem. — Ela se sentou com leveza, levando os olhos escuros para o mesmo céu estrelado que o jovem observava até alguns instantes atrás. — Mas você está calmo, talvez até contente. E me reconheceu assim que me viu.

— “Reconhecer” não é o mesmo que dizer que já nos vimos antes? — Ele soltou um riso abafado. — Não acho que seja o caso, mas já que me deu essa conversa de presente, o mínimo que posso fazer é me apresentar.

— Eu sei quem você é, Ian. — Ela retribuiu o sorriso, mas apenas usando o canto da boca. — E eu não usei as palavras erradas, nós já nos conhecemos.

Ele se calou por um instante.

— Tem razão, nós já nos conhecemos.

— E é por nos conhecermos que acabamos juntos nesse mesmo lugar, não?

— Sim... — Ian espreguiçou os braços, mais por costume do que por necessidade. Afinal, sequer conseguia sentir a dor nos seus músculos. — Mas eu confesso que esperava um roupão encapuzado, um rosto de caveira e uma foice.

— As pessoas não me dão essa forma há muitos séculos.

— Então a culpa de você se parecer tanto com ela é...

— “Culpa” é uma palavra muito forte, mesmo em um momento como esse. — Ela suspirou. — Não é tão incomum que as pessoas me vejam como aqueles que já se foram. O que é ainda mais verdade para a época em que você vive, e para aqueles que perderam seus amantes.

— Entendo. — Ian respirou fundo. — O que acontece agora?

— Na maioria das vezes eu sou agredida ou tentam fugir de mim, e ambos acontecem em conjunto mais vezes do que eu gostaria de assumir.

— Deve ser uma bosta.

— Sem dúvida. — A dama de negro sorriu, dessa vez com sinceridade. — Mas agora, o que acontece pelos próximos minutos fica por sua conta. Eu não me importaria de escutar o que você tem a dizer, já que estamos num lugar tão tranquilo.

— Não vai me pedir uma moeda ou algo do tipo?

— Eu tenho cara de barqueira?

Ian riu.

— A única coisa em que consigo pensar agora é nela, mas você já deve saber como nós nos conhecemos, já que...

— Sim, ela não parava de falar sobre você.

— Jura?

— E também em como tinha medo de que você fizesse alguma besteira.

— Isso... — O pesar voltou ao rosto dele. — Essa foi mais uma promessa que não consegui cumprir.

— Eu já vi muitas pessoas que desejavam me encontrar mudarem de ideia na mesma hora em que perceberam quem eu era, Ian. E cada uma delas teve que suportar uma dor que era grande demais para os próprios padrões. Mas eu raramente...

— Engraçado, minha psicóloga me disse o mesmo quando julgou que eu era um caso perdido. Eles sempre apelam para o arrependimento nessas horas.

— A única pessoa que julgou você como um caso perdido foi você mesmo, Ian.

— Qual é o ponto de me dizer isso sendo que estamos aqui conversando?

— O que eu ia dizer antes de você me interromper é que eu raramente vejo uma pessoa realmente contente em ir para o outro lado. Existe sempre um arrependimento, por menor que seja.

— Me desculpe... — Ian abaixou os olhos para o canal. Os pinheiros estavam mortos, e a água tão escura quanto os olhos da dama. — Eu pensei em muitas coisas antes de vir até aqui. Alguns meses atrás, quando eu ainda estava com raiva do que aconteceu com ela, eu me perguntava todo o tempo se a culpa era sua, ou de deus, ou se por um acaso o destino simplesmente existia e estava fazendo de tudo para destruir a vida que ela tinha construído. Mas hoje eu entendo...

— O quê?

— Nada disso faz diferença.

— Nem mesmo sua viagem sem volta até essa montanha?

— Eu já fiz tudo o que podia fazer, ou aguentava fazer. Quando ela estava por perto, e até mesmo antes disso. Em alguns momentos pensei até mesmo que ela era um presente do universo, para me recompensar pelo esforço de todos aqueles anos me importando demais com tudo. Estúpido, eu sei. Mas sempre que eu olhava para ela, naqueles momentos em que ela estava distraída, sabe... nessas horas eu pensava que tudo valia a pena.

— Ela provavelmente pensava em você da mesma forma. O maior arrependimento dela foi não conseguir continuar ao seu lado na vida que você estava levando.

Ian se levantou.

E a fogueira se apagou, deixando apenas a luz do luar iluminando a face pálida da dama de negro.

— Então por quê? Por que isso aconteceu com ela?

— Você quer saber se existe um propósito, ou um juiz onipotente que julga cada um de vocês? — Ela se deitou na grama, usando suas mãos como travesseiro. — Eu não saberia lhe dizer. Eu mesma tenho essa dúvida, Ian. Mas se me permite, eu não acho que seja sua culpa, ou culpa dela, e isso importa mais do que você imagina.

— Eu...

— Você só desejou tanto por essa conversa porque quer que eu o leve até o encontro dela, não é mesmo? Mas a verdade é que eu não sei o que lhe espera do outro lado, tudo o que eu posso fazer é abrir uma porta. Acredito que até Caronte, que os deuses o tenham, tinha um pouco mais de liberdade em seu trabalho.

— Mas se existir uma chance, por menor que seja...

Os pontos de luz no céu se apagaram aos poucos, deixando o rosto da dama cada vez mais escuro, até que suas feições ficassem quase irreconhecíveis.

— Você está disposto a abandonar a si mesmo, a pessoa que ela amava, só por uma chance de encontrá-la outra vez? — perguntou a mulher, agora com uma voz ausente de qualquer empatia ou emoção. — Isso sim me parece não fazer diferença alguma. — Foi a vez dela se levantar. — Você me perguntou antes o que iria acontecer de agora em diante, então me permita responder novamente com outras palavras.

Ian recuou ao perceber os passos que a dama deu em sua direção.

Sua visão estava começando a falhar.

— Você vai me dizer suas últimas palavras Ian, de uma maneira ou de outra, e eu vou estar disposta a ouvi-las. Mas se o universo não lhe recompensou enviando Cristine para sua vida, deixe que ao menos eu lhe recompense pelas sensações que me permitiu sentir, mesmo que por tão pouco tempo.

— O que você vai fazer? — rosnou Ian, se arrastando pela grama, incapaz de enxergar.

— Eu lhe disse não? Tudo o que eu posso fazer é abrir uma porta.

Ian gritou, seu peito apertado por um medo repentino.

Ou talvez fosse um grito de dor.

Afinal, estava frio.

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