Nas Cordas De Um Violão
1 E que a emoção comece de uma vez...
– Victória!
Ele me chamou, como sempre fazia. Sabe que odeio que gritem meu nome em lugares públicos. Quando ia me virando, pronta pra ignorar total e fingir que não foi comigo, ele grita ainda mais.
– Victóriaaaaaaaa! Vic! Victóriaaaaaa!
Ele sabia que estava fula da vida, mas como ele é uma gracinha, ama me provocar. Estava vendo a hora de ele pular em cima da mesa do refeitório, por isso decidi ir até onde o tão bocó estava. Com a cabeça abaixada, fui caminhando até sua mesa.
– Caralho! Já não disse que odeio quando me grita desse jeito, Gustavo? – falei, irritada.
– De novo? Qual é cara! – disse a Larissa – Senta logo aí Vic... Diminui o stress porque todo dia vocês discutem pelo mesmo motivo.
– Não importa! Vamos continuar discutindo até ele parar!
– Então vamos brigar até o fim do colegial, Vic... – ele disse, sorrindo de canto, para me provocar, como sempre.
– Isso nunca vai adiantar, né? – falei, não conseguindo deixar escapar um sorriso.
– Desista. – Gustavo riu – Você nunca vai conseguir brigar comigo, cara...
– Provoca mais, Guga... Quero ver quando ela atirar o prato de salada todinho na sua cara! – disse a Lari, mexendo no Ipod.
– Deixa ele Lari, deixa ele... – falei, rindo – Ta vendo o que aí?
– O blog do colégio... Parece que vai entrar um novato aqui no primeiro ano.
– Poxa, estamos no meio do ano... Pode isso?
– Acho que sim Gu, depende só da diretora.
– É né Vic, mas do jeito que aquela mulher é um projeto de caveira, é meio improvável imaginar seja aberta essa exceção! – disse o Gu.
– Estou rezando pra que isso aconteça, cara! Esse colégio ta um saco, na boa. Ta monótono pra caramba...
– Só pra você não é, Vic? Já pra Larissa...
– OPA, OPA, OPA. – falei, fazendo com que a Lari arregalasse os olhos – Quero saber de tudo, mano. Por que não me disseram antes?
– Puta boca a tua, ein Gustavo? – ela disse, ficando vermelha. – Não foi nada demais, Vi. Eu fiquei com um cara, só isso.
– Só isso? Qual foi! Por que não me disse antes?
– Porque não é um acontecimento histórico, não é? É bobagem... E eu ia contar, mas não agora.
– Porra, eu passo um final de semana viajando e minha melhor amiga já ta passando o rodo.
– Gustavo, to sem paciência nenhuma... Explica a história pra Victória aí.
– Bom, por onde começar? – ele pois-se a rir – No sábado, a Mariana nos chamou pra ir numa festa aí que ela organizou. Ficamos em dúvida, mas acabamos indo. Lá um menino começou a paquerar a Larissa. Depois de umas biritadas, ela se jogou e ficou com ele...
– Arrasando corações, cara. – falei, me acabando de rir.
– Frase clichê, não curti, cala a boca Victória. – disse Larissa, irritada.
– Mas espera, se tudo foi tão legal, por que ela ta emburrada desse jeito?
– Simples Vic: Larissa gostou do cara. O cara gostou dela. Ele não é daqui.
– Mensagens subliminares as tuas, não é Gustavo? Eu nunca disse que gostei dele.
– Sua cara diz, rapaz! – retrucou o Gu.
– E você Gustavo? Não vai me dizer que ficou chupando dedo...
– Eu fiquei com uma garota lá... Mas só fiquei mesmo.
– E ela é daqui do colégio?
– Gustavo todo aproveitador, Vic... Pegou a dona da festa.
– Você pegou Mariana Balorini?!
– Não entendi o espanto... – ele disse, ficando com as bochechas meio rosadas. – Ficamos sim. Mas foi bobagem, coisa de momento.
– Dúvido!
– Não duvide Vic! – Lari disse, rindo – Depois do Gustavo, a Mari ficou com uns 10!
– Acho isso tão escroto, cara... – falei, sorrindo. – Que horas são, Gu?
– 10 pras 15h.
– Já? Temos que ir pro treino, Lari.
– Sério Vic? Tô cansada demais.
– Mês que vem são as competições.
– É mesmo... Vamos logo, se não o treinador nos enforca.
– E você Guzinho? Vai ficar fazendo o que no colégio? – perguntei.
– Reforço de Química. – ele falou, com um certo desprezo.
– Olha que sorte!- falei com ironia — Que professor?
– Professora Gilda. Nome feio, mas até que ela é gente boa.
– Ok, vou lá... Beijo!
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– E aí filha, como foi o treino?
– Cansativo, pai. – falei, suspirando. – Rodei a quadra cinco vezes!
– Mas tudo isso é porque as estaduais estão perto, tio... Aposto que em outubro ele começa a pegar mais leve.
– Sai daí Larissa! Eu quero que ele pegue pesado mesmo. Nos dias que tem treino de futsal, a Vic chega em casa cansada, vai estudar e não enche meu saco... Tô amando isso.
– Af, pai... Bom saber. Agora vou infernizar tua vida!
– Nem energia pra isso você vai ter... – ele riu. – E a Lari vai pra lá pra casa ou pra casa dela?
– Minha mãe saiu... Vou ficar lá até ela me pegar a noite, pode ser?
– Tranquilo.
Chegando em casa, subi direto pro meu quarto. Ainda eram 16h45. Tinha academia as 17h30, mas estava prestes a faltar. Entrei no banheiro pra tomar banho, estava molhada de suor.
– Me empresta uma roupa, Vi?
– Depende Laris... Você vai pra academia comigo?
– Sério que você vai hoje? Quero ficar aqui, cara. Precisamos estudar um pouco pra prova de quinta-feira.
– Química, não é? – falei, já ligando o chuveiro. – Tudo bem então. Pegue qualquer roupa nas gavetas.
Ao terminar o banho, Larissa estava me esperando na porta do banheiro. Quando saí, ela entrou e fechou o box.
Terminamos de nos arrumar e sentamos na cama, com os livros e cadernos nas mãos. Química. Sinceramente nunca vi matéria tão chata... Formulas e mais formulas. Minha sorte é que pego assuntos fácil, pois se dependesse da explicação da professora, tava lascada. No meio do estudo, senti que a Laris tava bem desligada, então a chamei pra conversar.
– Qual foi, cara? Você parece estar no mundo da lua!
– Nada não rapaz! Tô viajando nessa formula aqui... Parada mais escrota.
– Que nada! Isso é bem fácil... É só olhar o primeiro termo.
– VICTÓRIAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. – meu pai gritou-me lá de baixo.
– QUE FOI?
– DESCE QUE EU PEDI PIZZA.
Descemos voando rapidamente. Naquele momento, não havia ninguém com mais fome que eu. Os estudos podiam esperar.
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– Bom dia!
– Bom dia, Portela. – disse o professor Carlos, com uma leve mania de chamar os alunos pelo sobrenome. – Por que chegou atrasada?
– Meu pai se atrasou quando estava indo para a empresa. Como tava chovendo, não pude vir de bicicleta.
– Tudo bem então. Olha, os alunos começaram uma atividade em dupla. Como não tem mais ninguém sozinho, escolha uma dupla e forme um trio.
– Beleza.
Rodei um pouco a sala, procurando uma dupla na qual pudesse me juntar. A primeira pessoa que eu vi foi o Gustavo, sentado com o João. E ao lado deles, estava a Larissa com um garoto que eu nunca tinha visto antes. Ele tinha cabelos pretos e olhos meio esverdeados. Com um alargador na olheira direita, tinha um sorriso de ponta a ponta... Ele era realmente lindo.
Mesmo assim, decidi sentar com o Gu. Não iria interromper a conversa da Lari e do garoto... Além do mais, queria saber quem ele era antes de puxar algum papo, afinal, de onde ele surgiu? Nunca o vi no colégio.
– Oi Jão, oi Gu... Posso sentar aqui?
– De boa Vi! – disse o João.
– Gu, quem é aquele cara com a Lari?
– Ah, o novato... O nome dele é Leonardo, eu acho.
– Já ta interessada, Victória?
– Ah, vai se foder João! – eu ri – Só queria saber ué...
Fomos fazer a tal tarefa de história e com o tempo, acabei desviando meus pensamentos do tal novato.
Passei os últimos horários antes do intervalo brisando mais um pouco. Pensando como tudo estava chato, sem emoção alguma. O mais estranho é que essa sensação era só minha. Meus melhores amigos não ligam pra esse tipo de coisa. Só que pra mim isso não dá certo. Até a vontade de estudar anda sumindo – se é que algum dia ela existiu. De repente, o sinal bateu e o Gustavo saiu correndo com o João e o Leonardo. A Laris sorriu pra mim, me puxando e me levando até o refeitório.
– Viu o Leo? – ela perguntou.
– Que Leo? O novato?
– É.
– Ah, vi sim.
– Só isso? Não vai falar mais nada?
– Ué, o que quer que eu diga? – ri
– Você não disse que queria emoção? Pois então, aí está a emoção. E que emoção, cara. – ela falou, mordendo os lábios.
– Se gostou tanto, fique com ele pra você. – sorri.
– Ah, não... Ele não faz meu tipo. Gosto dos fodões. Que me trate bem, claro, mas que me traga aventuras.
– É, sei disso, colega, pode crer!
– Pois é. E o Leo é muito gente boa, mas muito meiguinho e fofo. Parece ser um bom amigo, mas só isso.
Só a Larissa mesmo pra dizer que um cara fofo é simplesmente um amigo... Uma estranha ela! Resolvi sorrir pra mudarmos de assunto. Do jeito que ela é, iria descrever toda a vida do garoto, e naquela hora, só pensava em comer. Entramos na fila, falando de um show que do Avenged Sevenfold que ia rolar na cidade, e que com certeza iríamos. Peguei meu lanche e fui sentar na cadeira junto com a Lari. Ficamos em silêncio por enquanto, até ela se recordar de uma coisa.
– Cara, qual é o número daquela casa em frente a sua?
– A que está a venda?
– É! Essa mesmo.
– Pra que você quer saber?
– O Leo ta procurando uma casa pra morar... Pensei em ser lá.
– Larissa, Larissa... – falei com um ar de reprovação. – não dê uma de cupido, ok?
– Relaxe aí vá! Eu só quero ajudar o garoto.
– Ta bom então, hoje a tarde te ligo e passo o número.
– Perfeito!
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