Naruto: O Caminho do Coração espadachim
25 Capítulo 24 – Entre Palavras e Silêncios
Capítulo 24 – Entre Palavras e Silêncios
O sol da tarde tingia Konoha com um tom morno, quase preguiçoso. Raios dourados se infiltravam entre as folhas das árvores altas, criando desenhos irregulares no chão. O ar carregava o cheiro de pão recém-assado vindo de uma padaria próxima, misturado com o leve aroma das flores do canteiro central.
Na praça, alguns times de genin treinavam, cada grupo ao seu próprio ritmo. O som dos impactos no chão, passos correndo e vozes chamando comandos se misturava num murmúrio constante. Perto de uma fonte, Chōji mastigava um pacote de salgadinhos enquanto conversava com Shikamaru, e Naruto gesticulava de forma exagerada, rindo alto de alguma história que só ele parecia achar tão engraçada.
Mais afastada, quase escondida pela sombra de uma árvore, Hinata Hyūga observava a cena. Seus dedos se entrelaçavam e soltavam num movimento repetitivo, nervoso. O Byakugan não estava ativo, mas o olhar estava fixo — como se a simples visão dele ali fosse suficiente para deixá-la sem fôlego.
Ryoma vinha caminhando pela lateral da praça, sem pressa. Não tinha planejado passar por ali, mas a movimentação o fez desacelerar. Reconheceu Hinata antes mesmo de chegar perto. Ela estava tão absorta que não notou sua aproximação.
— Observando de longe? — disse ele em voz baixa, ficando a poucos passos dela. — Eu jurava que os lobos preferiam se mover junto da presa, não esperar que ela note.
Hinata se sobressaltou, o corpo inteiro se encolhendo por reflexo.
— R-Ryoma-san! Eu… não estava… — a voz dela quase sumiu na última palavra.
Ele levantou as mãos num gesto leve, quase de rendição.
— Calma. Não estou aqui pra te pegar no flagra. — O tom era mais suave do que provocador.
Hinata piscou algumas vezes, como se ainda estivesse tentando entender se ele estava brincando ou não. O rosto dela, no entanto, já denunciava um rubor forte.
— Eu… só estava… — ela começou, mas a frase morreu no ar.
Ryoma desviou o olhar por um momento, acompanhando Naruto que ria do outro lado.
— Sabe… — começou devagar — às vezes é mais fácil ficar na sombra. Você consegue ver tudo, mas ninguém vê você. Só que… isso também significa que podem passar sem te notar.
Não foi dito com peso ou julgamento, apenas como quem estava pensando alto. Hinata mordeu o lábio inferior, absorvendo as palavras.
Ele deu um leve sorriso, mas não completou com nenhuma frase de efeito. Simplesmente ficou ali por um segundo, como se estivesse avaliando se deveria dizer mais. No fim, apenas assentiu para ela e se afastou, deixando espaço para que o silêncio fosse resposta.
Seguindo pela trilha que levava à parte mais arborizada da praça, Ryoma encontrou Kurenai. Ela estava com seu time: Kiba, que já parecia impaciente para treinar algo físico; Shino, imóvel e observador como sempre; e Hinata, que se juntara a eles discretamente logo depois.
Kurenai cruzou os braços, sorrindo de leve ao vê-lo.
— Sempre surgindo como um bom Inuzuka. Está pensando em se aposentar da espada?
Ele soltou um pequeno som, algo entre riso e suspiro.
— Espadachim não se aposenta. — Olhou para o chão, como se buscasse as palavras. — Só… muda a forma de usar a lâmina.
Kurenai inclinou a cabeça, talvez notando que havia mais na frase do que parecia.
— E como está a vila pra você? Mais leve?
Ryoma respirou fundo.
— A vila… não muda tanto. Mas eu acho que aprendi a caminhar de forma mais firme aqui dentro. — Deu de ombros, como se não quisesse dar mais importância ao assunto.
Kiba, que claramente não tinha paciência para conversas lentas, se intrometeu com um sorriso largo.
— Eu já falei, né? Se não fosse pelo meu tio Ryoma, eu e o Akamaru ainda íamos estar patinando no básico!
Shino virou ligeiramente a cabeça na direção dele.
— Evolução rápida não substitui fundamentos sólidos.
Kiba revirou os olhos.
— Tá, tá, eu sei.
Ryoma olhou para o sobrinho e deu um sorriso de canto.
— Escuta ele, Kiba. Não porque ele tem razão em tudo… mas porque ver o mundo pelos olhos de outra pessoa às vezes evita que a gente tropece onde não precisa.
Kiba coçou a nuca, meio constrangido, mas acabou sorrindo.
Enquanto isso, um pequeno movimento sob o casaco de Ryoma chamou atenção. Ele desabotoou levemente a parte interna e, de lá, surgiu Tsumi em forma de filhote. Os olhos dourados do cão estavam semicerrados, como se não aprovasse o barulho ao redor.
Kurenai ergueu uma sobrancelha.
— Ele anda aí dentro o tempo todo? Sempre imaginei que você fosse mais de carregar aço, não pelos.
Ryoma olhou para o cão e depois para ela.
— O aço corta. Ele morde. Mas… às vezes, um corta mais fundo que o outro. — O tom foi mais de brincadeira do que de lição.
Hinata, quase imperceptível na conversa, deixou escapar em voz baixa:
— Isso é… bonito.
Ele virou o rosto para ela, surpreso.
— Talvez seja. Ou talvez seja só como eu vejo as coisas.
Kurenai fez menção de falar algo, mas Ryoma deu um pequeno aceno para o grupo.
— Vou andando. A praça está agitada demais pro meu gosto hoje.
Começou a se afastar pela rua principal. O céu já assumia um tom avermelhado, e o vento leve balançava as bandeirinhas penduradas entre as lojas. A cada passo, o som das conversas e treinamentos ficava mais distante.
No caminho, passou por comerciantes recolhendo mercadorias, crianças correndo com pipas e um velho shinobi sentado na frente de casa, afiando uma kunai com calma. Tudo parecia parte de um grande quadro vivo, um que mudava a cada dia, mas ainda assim guardava os mesmos rostos, os mesmos cheiros e as mesmas esquinas.
Ryoma não tinha todas as respostas. Talvez nunca tivesse. Mas havia algo reconfortante em perceber que, no meio de tantas batalhas e responsabilidades, ainda existiam momentos pequenos — como uma conversa na praça ou o peso quente de Tsumi aninhado sob o casaco — que mantinham a vida menos áspera.
E assim, com passos tranquilos, ele seguiu para o centro da vila, levando consigo não certezas, mas a sensação de que às vezes, ouvir e estar presente valia mais do que qualquer conselho.
Fale com o autor