Naru
3 Eu sou gay
Seu nome era Sakura, era alguns anos mais velha, um pouco mais baixa que eu. Magra, olhos verdes. Nada de mais. Exceto por aquele cabelo que chamava muita atenção. E como falava, tagarelava desde que começamos a andar até agora, as vezes eu bocejava ou simplesmente viajava ela percebia e me dava um tapa na nuca, eu olhava de cara feia e ela sorria.
Desde que cheguei tenho tido sonhos e, por alguma razão, estou mais sensível. Por isso enquanto caminhávamos eu levava as mãos ao rosto e ela percebia. Aquilo estava me dando agonia. Eu parei e ela logo em seguida.
— Obrigado por não perguntar.
— Obrigada você — suspendi os olhos que antes fitavam o chão — Tenho certeza que você reparou — disse apontando para o cabelo.
Sorri, me sentindo mais leve, como se eu pudesse confia-la meus segredos mais perturbadores.
Minha mãe abriu a porta e acenou pra mim. Quando eu tinha chegado em casa? Sakura se despediu e eu entrei. Aquela me esperava com um sorriso que eu conhecia bem.
— Seus tios vêm passar o natal aqui — pode crer, mas o sorriso não é por isso — E quem era aquela sua amiga? — Tava demorando.
— Eu conheci ela no parque. O nome dela é Sakura — disse já virando as costas.
Tchau, mãe.
Seria mesmo muito mais provável tentar ficar com a Sakura. E eu sempre fui de escolher o mais difícil. Acho que é por isso que quebrei a cara tantas vezes, mas não sou de desistir fácil.
Troquei de roupa e desci para beliscar alguma coisa, minha mãe conversava com alguém e depois ouvi ela bater a porta.
— Quem era, mãe?
— O Sasuke — senti uma pontada no peito — parece que você esqueceu uma coisa na praça e ele fez a gentileza de trazer.
— Kyuubi!
— Trate de cuidar bem desse bicho que você me infernizou pra ter.
Eu sempre quis ter um cachorro e como eu praticamente não tinha amigos minha mãe cedeu. Ela (a cadela) foi minha confidente desde então. Como eu fui me esquecer de algo tão importante.
— Aconteceu alguma coisa?
— Hein?
— O Sasuke parecia preocupado com você. Ele ficava me perguntando como você estava.
— Eu tô bem.
Ela sabe muito bem quando falta dar alguma explicação.
— É só que eu levei uma bolada no rosto.
Minha sorte é que ela acreditava em qualquer coisa. Nunca conseguia ver nada além.
— Não come isso o almoço tá pronto.
E o resto do dia foi um tédio até a hora de dormir. Troquei de roupa, tá muito quente, o que me fez ficar de pé na janela vendo a rua vazia. Dei uma olhada em volta do quarto, mirei Kyuubi que se escondia debaixo da cama pra dormir.
— Me desculpe — murmurei.
Me deitei ouvindo musica até pegar no sono. O povo daquela cidade me encarava novamente até que, do meio deles saiu a Sakura gritando feito uma louca e me acertando com força.
— Acorda, Naruto.
— O que você tá fazendo aqui?
— Sua mãe me deixou entrar. Ela acha que eu vou ser a nora dela. Não e engraçado?
— Ok Sakura. O que veio fazer aqui?
— E depois ela me convidou pra ficar e almoçar.
— E por que tá aqui? A gente mal se conhece direito.
— DÁ PRA PARAR DE SER GROSSO — ela se levantou e puxou minha coberta — vim te fazer uma visita, então levanta e me dá atenção.
Peguei o travesseiro e pus na cabeça, ela em seguida o arrancou com uma força que me fez ir pra traz. Não tem jeito. Uma das poucas coisas que sei sobre ela é que fica insuportável quando quer atenção.
Fiz a cara mais feia que consegui no momento, ela não deu a mínima.
Revirou os olhos e sentou do meu lado. Agora ela estava completamente séria e fitava um ponto qualquer no chão.
— Quando eu tinha oito anos eu ganhei um gato, desde então conversava com ela com se fosse um irmão. Já aos doze anos meus pais separaram então passei uma fase difícil, daí eu tive a estúpida ideia de pintar seu pelo de rosa, e eu nem gosta tanto dessa cor, pra isso usei uma tinta qualquer — ela parou, mas não chorava — e aí...
Minha primeira reação foi ter vontade de rir. Que tipo de pessoa pinta o cabelo todo por causa disso? Mas se aquilo a fez fazer isso deve realmente incomodar. E depois pensei em kyuubi e o que ela significava para mim. De qualquer forma não se comparava ao que eu passei.
— Então?
Trapaceira. Ela já tinha se recomposto e espera algo de mim.
— Tenho certeza que você guarda muitas estorias perturbadoras dentro de si. Contar pra alguém faz tudo melhorar.
Cínica. Você já veio aqui com a intenção de arrancar algo de mim e agora fica me olhando com essa cara de trouxa.
Lá vai. Mais cedo ou mais tarde ela descobriria mesmo e, de qualquer forma, depois eu posso negar tudo e dizer que foi brincadeira, não é?
— Tudo bem — ela sorriu triunfante — Eu sou gay.
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