Naquela noite
1 Capítulo único
Ele a encontrou numa noite de temperatura amena e ar de normalidade. Nada na atmosfera indicava que, a poucos metros dali, uma bela mulher jazia morta no chão de terra e pedras, às margens de um rio. Primeiramente, achou que anos de leitura e fantasia o estavam fazendo imaginar coisas. Porém, a cada passo que dava, sentia o peso da situação caindo sob si. Pura e trágica realidade.
Não pensara que um fim de semana com os amigos no chalé de um deles o levaria até ali. O único objetivo da viagem era descanso e diversão após um longo e árduo período na faculdade. Era pra ser só uma caminhada para explorar, algo que sempre fazia quando ia a novos lugares. Observar os animais, a vegetação, os sons noturnos. E depois, voltar calmamente para o chalé e dormir profundamente. Mas as coisas não foram tão normais naquela noite.
Antes de vê-la, teve seu olhar capturado por um pequeno ponto brilhante à frente. Olhou bem, mas, se quisesse descobrir do que se tratava, teria de chegar perto. Como ainda não estava muito longe da casa, resolveu seguir o brilho, não temendo perigo. Afinal, tudo ali era devidamente seguro e cercado. Haviam até feito uma vistoria antes. Caminhou, a luz ainda brilhando, mas mais fraco à medida que se aproximava.
Quando viu, parou. Piscou várias vezes, olhou para os lados, fechou os olhos, mas ao abri-los, continuava lá. Seu corpo gelou, não conseguia se mexer. Estranhamente, não tinha medo, mas o espanto e a admiração não lhe permitiam tomar nenhuma iniciativa. Respirou fundo e avançou, com passos pequenos. Suas mãos se coçavam, ansiando o toque. Tinha quase certeza que estava morta. Não havia nenhum movimento que indicasse o contrário. Porém, estranhamente, as bochechas continuavam coradas. Pensou consigo mesmo que, quando morresse, gostaria de aparentar tanta serenidade quanto à moça a sua frente.
Um pássaro branco desceu voando e pousou na garota. Não a bicou, apenas ficou ali, parado. De repente, viu de onde vinha o brilho. Um colar que ela segurava na mão, com uma pedra cristalina como pingente. Mesmo agora, parecia pulsar da pedra uma luz. Sentiu como se aquilo o chamasse, e se aproximou mais. Sentiu a água em seus pés. O rio terminava logo ali, onde metade do corpo da garota repousava. A grama crescia ali perto, e as pedras no chão estavam lisas. Equilibrou-se, tentando não pisar nos cabelos dela. Adorava aquela cor, meio acobreada, combinando com seu tom de pele branco. Olhou as pálpebras, que pareciam maquiadas. Não se conteve e tocou ali, nada surpreso por não sentir nenhum vestígio de sombra ou o que fosse, apenas a maciez de sua pele.
Qualquer outro, pensou ele, ao se deparar com aquilo, olharia diretamente para os seios dela, escondidos apenas por seu braço, que repousava sobre eles. Ele, porém, apesar de ser um homem, a admirava como um todo. Uma obra. Um tesouro. Até então tentara não se concentrar em suas pernas. Aliás, esse não é o termo mais apropriado. Sua cauda. As escamas cor de marfim, meio douradas, brilhavam com a água que havia passado por elas. Era como se aquela estrutura continuasse a partir de sua barriga. Como se fosse natural. Normal.
Sentia, sabia que devia se assustar, sair dali, mas não conseguia. O pássaro, quando ele se aproximou mais da cauda, saiu voando, cantando para os céus. Finalmente, não se conteve e a tocou. No início levemente, como se temesse machucar, mas depois, como se impelido por uma força maior, seus dedos percorriam toda a extensão, sentindo as escamas molhadas. Aspirou e, ao contrário do que pensava, o único cheiro que sentiu foi o da noite. Desejava que ela acordasse e lhe dissesse o porquê daquilo, lhe contasse o que aconteceu e como poderia ajudar. Sentiu uma angústia pela moça, que estava, inegavelmente, morta. Se entristeceu, como se fossem amigos, como se a conhecesse e sentisse muito pela perda. Talvez sentisse mesmo. Seu coração o dizia que sim.
Os joelhos molhados e doendo devido à agua e às pedras pareciam adormecidos, porque ele nada sentia. Isso simplesmente não o incomodava. Queria apenas olhar para ela. Pensou nunca ter querido tanto algo como queria, agora, se deitar ali e adormecer ao lado dela.
Ele havia visto. Estava ali, ao lado de uma sereia. Mas não pensou em tirar fotos, em chamar os amigos ou em divulgar o acontecido. Pelo contrário, queria protegê-la e guardá-la de olhares curiosos e espantados. Queria poder torna-la invisível para o mundo.
Pensou no que faria. Levaria ela dali? A esconderia? Não via alternativas. Porém, em sua mente, uma voz sedosa, cheia de carinho e aceitação disse uma única palavra:
“Nada”
Teve certeza, não sabe como, de que era ela. De que não deveria fazer nada. De que ela queria que a deixasse ali. Ele então deu-se conta do quanto gostara de ouvir aquela voz, e que não se importaria em ter de ouvi-la eternamente. Pegou em sua mão, que contrariando suas expectativas, não estava gelada. Mas sim quente e acolhedora. Tentou acordá-la. Não sabia como aquilo funcionava. Poderia estar viva? Mas, no fundo, sabia que não. Com o toque sentiu coisas tão boas, que não conseguiria em momento algum pôr em palavras.
Não sabe se foram horas, minutos ou segundos, mas agora a noite não era mais assim tão noite, e a manhã dava seus primeiros sinais. Sentiu que era hora de ir.
Sua mão, ainda segurando a dela, não queria soltá-la, mas mesmo assim o fez. Antes de ir, tocou seus lábios nos dela, rosados e acolhedores. Quem diria, beijando uma sereia morta. Queria lembrar-se desse momento para sempre, e achou que uma boa forma seria levando consigo aquele colar, que o atraíra até ali. Abriu a mão da moça e o pegou, sem o peso de estar roubando algo, pois o objeto parecia querer ser levado. O colocou no bolso. Tocou os cabelos dela, sentindo mais uma vez aquela coisa boa.
Saindo dali, sabia que teria que inventar alguma justificativa por ter passado a noite fora, no meio do nada. Provavelmente, diria que se perdeu. Não seria de todo uma mentira. Se perdeu mesmo ali, ao lado dela. Talvez o poder de encanto das sereias fosse real, e, mesmo morta, ainda funcionasse.
Andando, olhou uma última vez para trás, sentindo que parte de si permaneceria com ela para sempre. Nunca encontrou explicações para o que acontecera, e nem se surpreendeu ao constatar que, na noite seguinte, ela não estava mais lá. Não buscou motivos para o ocorrido, apenas sentiu. Era pra ser, então foi.
Soube também que, naquela noite, algo dentro dele mudou. Soube que, na situação mais improvável, depositou seus mais profundos e sinceros sentimentos numa exótica e bela desconhecida, que, ao desaparecer, levou também parte de seu coração.
E ele não queria essa parte de volta. Porque agora, era dela.
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