Naquela Manhã de Outono
4 A cabana próxima ao lago!
Notas iniciais
Eu havia conseguido um emprego na padaria, no centro de Córdoba, de início eu seria apenas balconista, mas se mostrar melhor desempenho na cozinha, acredito que vou ser promovida.
Dentro de algumas horas, minha cozinha se encontrava em uma situação deplorável. Potes espalhados por toda a mesa, com o resto de leite, farinha e fermento mal misturados.
Esse era realmente o pior bolo que já vi.
****
Minhas aulas na faculdade eram muito boas, e eu sou bolsista, então tenho que aproveitar tudo que puder.
A noite enquanto voltava para casa vi o Senhor Judas caminhando com uma caixa comprida em uma mão e umas sacolas na outra.
— Licença, Seu Judas, o senhor precisa de ajuda? — Me ofereci.
— Não, não, fio. Eu chego em casa logo.
"Fio" era uma das palavras mais usadas por ele, era o modo como chamava as pessoas mais novas, uma questão de carinho.
— Vamos, deixa eu ajudar. — Insisti já pegando devagar a caixa da mão esquerda dele. Que por sinal estava muito pesada. — Que isso, Seu Judas, o que o senhor carrega aqui? — Ri.
— Ah, meu querido, são meus utensílios de trabalho.
— Mas que utensílios, hein. — Rimos.
Senhor Judas tinha a cabeça coberta por fios de cabelo branco, usava um óculos miúdo e roupas simples. Ele trabalhava como borracheiro, apesar da idade, e também consertava aparelhos elétricos, desde rádios até microondas.
— Meu fio, essa semana mesmo eu consegui finalmente alugar a minha cabana perto do lago. — Disse ele.
— Mas de que cabana o senhor fala?
— A do lago.
Ri disfarçadamente e repeti:
— Não, senhor, mas a que cabana o senhor se refere?
— A cabana do lago, fio.
Sorri quase rindo de novo e conclui:
— Aé? Que bom, Seu Judas, fico feliz pelo senhor.
— É, vendi pra uma moça tão boazinha e fofinha.
Será que se tratava dela? Da moça do parque?
— Ela parecia britânica. Igual você, Adam.
— Mas, Seu Judas... — Sorri ao falar. — Eu sou latino.
— Não, ela é britânica.
É, sempre amei conversar com Senhor Judas, mas nossas conversas sempre eram confusas assim.
****
Deitei-me finalmente com minha camisola de seda bege, eu já estava sentindo saudades da cidade grande, do movimento dos carro na rua, do som quase ensurdecedor do trânsito... Mas ao menos uma vez eu iria deitar para dormir em paz, sem me preocupar com meus casos não solucionados ou se meu celular vai me acordar no meio da madrugada com um novo caso, finalmente iria dormir tranquila.
Acordei cedo pela manhã, vesti meu uniforme, uma calça quase social preta e uma camisa cor creme, com o nome Cereza's Miel escrito atrás. Peguei as chaves de casa, a bolsa e um casaco curto, e fui à caminho do trabalho.
— Bom dia, senhorita, você é a nova contratada? — Perguntava uma moça de cabelos negros e encaracolados, presos em um coque, assim que entrei na padaria.
— Sou. — Respondi observando como a moça era mais alta e morena do que eu.
— Sou Briana, e vou te treinar essa semana. — Briana sorriu simpaticamente. — Prazer conhecê-la. — Estendeu a mão, hesitei, mas logo a cumprimentei.
Depois de poucas horas que Briana me ensinava o básico é que o estabelecimento foi aberto. E dentro de alguns minutos é que ouvi um sino soar, o que significava que a porta havia sido aberta. Por ser meu primeiro atendimento, fui até que razoável.
Depois do expediente Briana foi a primeira a tratar comigo, dizendo:
— Você foi muito bem, Kendra, vai se dar bem aqui com a gente.
— Agradeço. — Respondi ríspida.
— Eu sei fazer um bolo de pasta de avelã delicioso, gostaria de um dia...
— Desculpa, Briana... — Respondi quase ironicamente. — Eu não tenho tempo.
Embora seu convite fosse negado, vi que o sorriso de Briana não havia se desmanchado.
— Quando puder, vai ser bom ter você em casa. — Completou.
— Obrigada pelo convite. — Respondi pegando meu casaco, minha bolsa e minhas chaves. — Agora eu já vou indo.
Apressada abri a porta de madeira e vidro, e trombei com a pessoa que entrava, com isso minhas chaves caíram ao chão.
— Ah, foi mal, moça. — Ele se abaixou para pegar as chaves, enquanto eu o olhava irritada.
Aquele cabelo e timbre de voz eram inconfundíveis para mim, eu sabia que era Ele. Assim que se levantou para me entregar as chaves, olhou diretamente nos olhos.
— Olha só quem eu encontrei... — Disse ele sorrindo, deixando sua covinha na bochecha tão aparente quanto a covinha que tinha no centro do queixo.
— A loja já está fechada, se é isso que quer saber. — Esclareci.
— Eu não vim pela loja. — Ele sorriu.
— Desculpa, mas eu não tenho tempo para isso. — Sorri sarcasticamente.
— Tô vendo que aprendeu a sorrir. — Ele riu.
— Isso não foi um sorriso. — Respondi tomando as chaves de sua mão. — Obrigada e tchau. — O empurrei levemente para o lado e segui para atravessar a rua.
Foi quando senti que ele havia me segurado, e antes que eu pudesse ter o reflexo de olhar para ele, fiquei paralisada com o carro que acabara de passar tão perto, em minha frente. Empalideci.
— Devia tomar muito mais cuidado. — Alertou ele.
Puxei meu braço, assim tirando meu pulso dentre os dedos dele, e segui caminho para casa.
Ele tinha me salvado de um incidente, mas sou orgulhosa demais para agradecê-lo por isso.
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