Namoro por Aluguel
4 Banho de loja...Ops, lojas.
Notas iniciais
O ônibus para no ponto da esquina.
Desço rapidamente, abrindo o guarda chuva antes que a chuva possa me molhar. Atravessando a rua, sento-me em um dos bancos da praça central.
Confiro o relógio do celular. 11:30, Miguel deveria estar aqui. Mando uma mensagem, indagando onde ele está, mas não obtenho resposta imediata.
Bufo. Observo uma família correr da chuva, enquanto um casal se beija sobre ela. É realmente incrível o quanto as pessoas agem de maneiras diferentes, mesmo com o mesmo tipo de situação. Como minha mãe reagiria se tivesse sido proposta para a mesma coisa que eu fui? Será que aceitaria ser namorada de aluguel? Bom, provavelmente não, consideraria isso uma coisa suja, de mulher das ruas, não seria atitude de uma moça de família. Não na opinião dela.
Ouço um carro buzinar, é Miguel. Corro até o carro importado, pisando em uma poça de água no caminho.
–Merda– Xingo.
– O que? Eu ter atrasado? – Indaga o moreno.
– Não, eu ter pisado na poça de água. Por isso odeio sandálias, se estivesse de tênis meu pé estaria seco.
– E não combinaria com a roupa, também. Gostei do vestido, deveria abandonar as calças e usar somente vestidos. – Comenta.
Olho para mim mesma, o vestido vermelho-sangue vai até um palmo antes do joelho, e acompanha um cinto fino e preto. Realmente, tênis não combinaria com aquela roupa. Ignoro a segunda frase do rapaz.
– Para onde vamos? – Indago
– Para o shopping, em primeiro lugar. Jure solenemente que vestirá tudo rapidamente, evitando o tédio que nós, homens, sofremos quando ficamos do lado de fora do provador.
– Juro solenemente blá blá blá. – Repito.
Ele dá a partida no carro.
* * *
– Sr.Miguel Belmonte,é um prazer recebê-lo. No que posso ajudar? – Indaga a vendedora.
É a primeira loja na qual paramos, de grife, sem dúvida alguma. As vendedoras são simpáticas com todos os que entram e aparentem ter dinheiro, oferecendo champanhe, bolinhos e até mesmo uma massagem. A loja, trabalhada com tons de dourado e branco, exala um cheiro delicioso de lavanda.
– Sabrina, meu doce, vim em busca de roupas para essa moça adorável ao meu lado. – Fala, com uma classe forçada.
– Certo. Sua mãe também veio? Recebemos algumas peças novas hoje, mas ainda não consegui convoca — lá.
– Ela não veio, infelizmente. Mas se nos atender, pode mostrar algumas peças novas também.
A mulher, que aparenta ter vinte e poucos anos, nos conduz até uma parte afastada da loja. Miguel coloca a jaqueta de couro em um divã branco.
– Já tem alguma roupa em mente? – A vendedora indaga. Antes que eu possa responder, Miguel responde:
– Vestidos em tons pastéis, calças brancas, blusas de diversos modelos e cores, algumas coisas no preto básico.
– Só isso?
– Por enquanto, sim.
– Me acompanhem.
Ela nos leva para o outro lado da loja, onde várias araras exibem roupas de diversos tipos.
– Fiquem à vontade. – Diz, se retirando.
– Pode separar tudo que é do seu tamanho? – Miguel indaga – Assim fica mais fácil decidir o que levar.
–Ok. – Respondo.
Começo a separar as roupas, o rapaz me ajudando a segurá-las (Tamanho M quase sempre é maioria). Quando chega à certo ponto, Miguel separa algumas e me manda para o provador.
Vou admitir: Sempre odiei provar roupas na loja. O provador sempre é pequeno demais, não tem apoio (na maioria das vezes, somente um banquinho fica lá, só para diminuir o espaço do lugar) e o pior de tudo : Sempre bagunça o seu cabelo. Pego a primeira peça: Um vestido curto e branco, com um laço preto na frente. Visto-a, arruinando a divisão do cabelo loiro, jogando fios para todos os lados. O tecido macio desliza por minha pele, com delicadeza. Assim que termino, saio do cubículo.
– E então? – Indago Miguel, que estava conversando com a vendedora enquanto bebericava o vinho, faz uma expressão de felicidade.
– Exatamente a roupa que meu pai aprovaria. Pode separar esse, que vamos levar.
Volto para o provador e coloco a peça sobre o banquinho, olho a etiqueta e quase levo um susto. Duzentos reais, noventa e nove centavos. Isso, com certeza, estaria fora de cogitação para mim e meu pobre salário. Visto a segunda peça de roupa: Vestido mullet verde mar.
E assim se passam duas horas naquela loja: Vestindo roupas, mostrando para Miguel, obtendo sua resposta, separando na pilha do “levaremos” ou na do “deixaremos na loja”. Tento, em vão, calcular o quanto ele irá gastar no dia de hoje, e se os pais não irão se importar. Seria possível falir de tanto comprar roupas?
Quando, finalmente, saímos daquela loja, entramos em outra. E o ciclo recomeça.
* * *
– Batata frita média, por favor. – Peço.
O atendente da rede de fast-food pergunta se quero algo mais. Nego, dando o dinheiro para a comida. Algum tempo depois, ele me dá a batata. Vou até a mesa que Miguel encontrou.
Ele leva um susto ao me ver, já que observava uma garota em trajes vulgares que cruzou o corredor.
– Nossa, já pegou sua batata?
– É, por isso se chama Fast-food, é comida rápida.
– Obrigado, Google tradutor.
– De nada.- Respondo.
Passamos o resto da refeição em silêncio, com Miguel observando (Lê se: secando) todas as garotas que passavam em nossa frente. Todas mesmo: As que estavam sozinhas, as que estavam com acompanhadas de homem, as que estavam acompanhadas de mulher, as que levavam crianças no colo.Chega a ser doentio.
– Por que eu não posso usar as minhas roupas? Precisa mesmo comprar novas? – Pergunto.
– Porque são de loja de departamento. E, para meu pai, a garota ideal deve ter posses. Além de tudo isso,eu gosto de movimentar meu dinheiro.
– Movimentar é uma coisa, torrar com coisas fúteis é outra.
– Isso não foi nada. Uma vez, dei meu carro para uma ficante. Só porque o dela tinha quebrado.- Diz ele
– Bom pra ela.
– Já acabou? – Ele pergunta, referindo-se às batatas.
– Sim, já acabei.
– Então, vamos até a loja de sapatos.
* * *
– Pode me deixar aqui. – Falo.
Já são sete da noite e estou esgotada. O domingo inteiro foi arruinado por causa das roupas, etiqueta. Um precioso tempo de sono perdido por conta desse “emprego” que arrumei.
– Não, vou te deixar na porta de casa. Como pretende levar todas essas sacolas?
– Não pretendo levá-las.
– O que? – Indaga Miguel, irritado – Como assim não?
– Se eu chegar em casa com sacolas da Lacoste, da Zara, Da Le lis Blanc e de outras diversas marcas, seria um pouco estranho.
– Fale que foi um presente, ué.
– Tudo isso? São mais de vinte sacolas. Que tipo de presente seria esse?
– Droga, você tem razão. – Faz uma pause, depois continua – Lembre-se de que terça vai almoçar em casa, não é?
– Claro, o dia do feriado.
– É. Vou fazer algumas perguntas, para ver se você decorou tudo, ok?
– Tá.
– Minha mãe é? – Indaga, como em um programa de perguntas e respostas.
– Carmem Alissa Flores Belmonte.
– Correto. Nome do meu pai?
– Elias Belmonte.
– Correto. Idade deles?
– Sua mãe tem quarenta e cinco, seu pai cinqüenta.
– Errado, ele tem quarenta e nove. Quem é você e qual a sua história?
– Sou Ana Clara, esqueci meu sobrenome falso.
– Campos. Ana Clara Campos.
– Ta. Ana Clara Campos. Minha família mora na Bélgica, então moro em um apartamento com uma amiga.
– Correto. Como nos conhecemos?
– Você estava no mesmo prédio em que eu moro, eu estava com sacolas do mercado na mão. Você segurou a porta do elevador para mim, eu te agradeci, mas acabei derrubando uma maçã. Você me ajudou a pegar, e rolou aquela coisa meio “filme adolescente”. Amor à primeira vista.
– Certo. Do que minha mãe gosta em uma nora?
– Classe.
– E meu pai?
– Classe, educação, intelectualidade.
– Posso dizer que está mais do que preparada para isso. Vou deixar suas roupas no porta malas do carro, assim sempre que precisar é só me chamar.
– Ok.
– Amanhã não vou à aula, então só nos veremos na terça, às dez da manhã em frente à praça central.
– Já decorei.
Desço do carro, batendo a porta levemente.
– Tchau, Ana. – Ele grita. Finalmente acertando meu nome.
– Tchau.
Caminho até minha casa.
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