Namoro de brincadeira
5 Video-game
Notas iniciais
–Só que você sabe que vai passar vergonha, né? – Ele me olhou com cara de dó. – E eu não vou fazer nada para te proteger ou coisa do tipo.
–Não preciso disso querido.
–Bom mesmo que você saiba.
Ele começou a andar e eu sem saber para onde ia, segui-o. Cheguei ao lado dele e andamos lado a lado até um supermercado. Mas que diabos a gente ta fazendo em um supermercado? Depois da dona de casa fazer suas comprar voltamos a rua e andamos mais um pouco até o prédio de Mateus. Não preciso nem dizer que nesse percurso todo não trocamos quase nenhuma palavra, era como se todos os assuntos tivessem acabados. Chegando no apartamento dele, eu tenho que admitir, fiquei de queixo caído. Além de ser cobertura, duplex e com no mínimo uns 250m² em cada andar, ele ainda tinha sua própria piscina e churrasqueira. Diziam que ele é rico, mas não imagina uma casa assim. Cada cômodo tinha sua própria decoração, bem enfeitada. A sala com uma parede preta e as outras brancas, era inteira em ‘preto e branco’, a televisão presa a parede fica de frente ao um sofá preto enorme e nos dois lados há dois sofás brancos. Mateus me mostrou o caminho da cozinha para eu deixar as sacolas e a cozinha conseguia ser mais bonita que a sala. Com uma parede de armários espelhados vermelhos, na parede oposta, o fogão, geladeira e armários pretos baixos, por último, uma bancada que cortava a cozinha também d4e preto espelhado.
–Sei que minha mãe é legal, mas não precisa fazer cara de uma criancinha vendo um bolo pelo vidro da loja.
–Ai como você é exagerado. – respondi fazendo uma careta para ele e voltando para sala. – Quando seus amigos chegam afinal?
–Daqui umas 2 horas.
–E por que você me chamou tão cedo para vim para cá então? – perguntei sentando no sofá que era mais confortável que minha cama.
–Te encontrei na rua aquele horário, foi coincidência.
–Mas você poderia ter me avisado e eu vinha só daqui duas horas.
–Vem cá, desde quando você tem essa mania de reclamar ou questionar tudo? – ele perguntou aparecendo na passagem da cozinha para a sala com um pano de prato na mão. – Você vai querer almoçar?
–Seria legal, mas ainda nem meio dia é?
–Mas puta que pariu. Eu não vou fazer nada também. – ele respondeu gritando e vindo se jogar no sofá ao meu lado.
–Ta bom então. – respondi me encostando no sofá e fechando a cara.
Mateus ligou a televisão e colocou em alguns dos filmes dos Velozes e Furiosos, acho que o terceiro. Ficamos ali por uns vinte minutos sem trocar uma palavra. As vezes sentia ele me olhando pelo canto do olho e quando eu olhava para ele, ele desviava. Por algum impulso do meu corpo, virei a cabeça descaradamente e comecei a notar cada detalhe de seu rosto. Ele está bonito, muito até, daqueles que eu poderia até pensar em... Não, Gabriela, foco. Ele não é o tipo de menino para você. Além de que, eu ainda não perdi as esperanças do Guilherme. Percebendo que eu o encarava, ele virou o rosto e começou a me olhar também, nossos olhos se cruzavam algumas vezes enquanto observávamos um ao outro, até que eles se encontraram. Eu gosto de olhar nos olhos das pessoas, você sente e vê coisas diferentes de quando você apenas observa a beleza exterior. Mas eu tenho que dizer, que os dele são intensos. Não só pelo verde, que olhando assim de perto é possível ver um azulzinho bordando de certos pontos, mas era como se eu sentisse e soubesse o que ele estava pensando. Não sei quando tempo ficamos assim até o celular dele tocar, mas quando ele o tirou do bolso para atender eu virei a cabeça olhando para nada, e admito que me senti um pouco encabulada com tudo aquilo.
–Ta, Gustavo, to te esperando então. Ta, caralho. Sim, sim, eu trouxe. Nossa, como você é idiota. – ele desligou o celular e olhou para mim. – Gustavo ta vindo para cá, parece que os outros meninos não vão mais poder vim, daí ele já ta vindo. Então, de qualquer jeito eu vou ter que fazer almoço.
–Ta. – eu respondi quase sussurrando. – Você quer ajuda?
–Não, comprei hambúrguer de micro-ondas. Seria legal só você vir ver qual quer.
–Ta certo. – respondi levantando e passando por ele.
–Você não vai reclamar nem falar nada negativo ou agressivo? – ele perguntei e eu dei um dedo do meio para ele. – Mas que evolução.
Sentei em um dos bancos altos da bancada da cozinha e escolhi meu X-Burguer com molho de churrasco, porque eu amo qualquer coisa que envolva churrasco. Depois dos minutos necessários meu lanche estava pronto. Mateus colocou o dele no micro-ondas e nesse instante a campainha tocou.
–Eu atendo. – me ofereci para quebrar aquele gelo.
–Tudo bem então, vai lá. – ele respondeu achando estranho. – Só a chave de cima.
–Gustavo?
–Acho que eu bati na casa errada, desculpa. – a cara de espanto dele era a melhor.
–Não, não. – Segurei-o pelo braço antes dele entrar no elevador. – Você veio certo sim, só que eu não sabia que o tal Gustavo era você, por isso a surpresa.
–Como assim? – ele perguntou enquanto entrava na sala e eu trancava a porta. – Pera, se eu to na casa certa, então você...
–É, eu sou a namorada do Mateus. – tive certa dificuldade em pronunciar essa frase. – O Mateus ta lá na cozinha.
Ele foi pra cozinha como se ainda não acreditasse, sinceramente eu também não. Mas que azar do caralho é esse de o melhor amigo do seu “namorado” por um dia ser alguém que você já conhece? Eu nunca me dei muito bem com o Gustavo, mas depois de um tempo nós paramos de dirigir a palavra um ao outro e dai ficamos bem, no final até conversávamos uma vez ou outra.
–Vocês se conheces? — Mateus perguntou tirando o terceiro lanche do micro-ondas.
–Por incrível que pareça, sim. – respondi dando uma mordida no meu lanche.
–Mas como isso?
–A gente aula de inglês juntos, acho que foram uns dois ou três anos.
–Como você não me contou uma coisa dessa Gabizinha? – Que porra de apelido é esse pra começar?
–Não sabia que o Gustavo era o moleque que estudou comigo, por isso que nunca achei necessário comentar Mateuzinho.
–Caralho, é sempre essa troca de carinhos entre vocês? – Gustavo perguntou e Mateus me olhava como se fosse culpa minha o moleque não acreditar.
–Nosso namoro é diferente né querido. – respondi sorrindo para Mateus.
–Com certeza, diferente é a palavra que o define, mor.
–Vamos terminar de comer? Porque eu to com muita fome. – falei cortando o assunto para eu finalmente conseguir terminar meu lanche.
Depois de comer, voltamos para a sala e ali ficamos. Os meninos começaram a jogar vídeo-game e eu fiquei no celular falando com a Larissa. Inventei que tive que ir para a casa da minha avó e por isso não iria para casa dela e que na escola falava o que aconteceu na noite anterior. Se eu contasse para ela a verdade sobre onde eu estava, com quem e porque não iria dar certo, além disso, nem é algo realmente necessário para ela saber. Depois de terminar de falar com ela, pedi para jogar junto. Mateus, como um bom “namorado”, me cedeu o controle e eu consegue vencer todas as vezes do Gustavo. Acabei ficando ali um pouco mais de 4 horas, quando deu 18h, Gustavo falou que iria embora não sei porque. Ele foi e ficou eu e Mateus jogando, sei que eu já poderia ir embora, mas fazia muito tempo que eu não ficava jogando vídeo-game com alguém por horas e horas e me divertia tanto.
–Bom, acho que agora eu preciso ir também né. – olhei no relógio e já marcava 20h10min.
–Ta, claro. – Mateus respondeu se levantando e me levando até a porta. – Bom, obrigado.
–No final foi até legal. – respondi chamando o elevador e olhando para ele parado no batente da porta.
–Qualquer dia desses posso acabar pedindo você em namoro de novo em?
–Esquece querido, não estou mais disponível.
–O que? Vai me dispensar assim? – ele perguntou saindo da porta e vindo na minha direção. – Sabe do que eu acabei de lembrar.
– O que? – perguntei arqueando uma sobrancelha quando vi que ele estava próximo até demais.
–A gente namorou por um dia inteiro quase, e você não me deu nem um beijo.
Com isso, ele já me agarrou com uma mão na cintura e outra no meu rosto e me beijou. No começo eu tentava acabar com aquilo, mas eu estava entregue. A língua dele pediu passagem e eu cedi sem nenhuma pergunta. Meu pulmão pedia ar e ele também. Eu poderia falar para ele que estava adorando, mas não iria dar esse prazer a ele. Nos separamos e ele me olhava com aqueles olhos verdes cheios de malicia e que me deixavam presa ali. Eu não sabia o que dizer e percebi que ele também não. Eu, então, coloquei as mãos na nuca dele e comecei outro beijo. Dessa vez um pouco menos dócil do que o outro. Puxei seu corpo para perto do meu e ali ficamos até a porta do elevador abrir e uma senhora de idade nos ver e fazer aquele sonzinho de susto que todas as velhinhas fazem quando vem um casal de adolescentes se beijarem. Nos separamos imediatamente e eu entrei no elevador rindo, percebi que Mateus também ria. A porta do elevador fechou e a velhinha continuava a me observar, mas eu nem ligava para ela. O que passava na minha cabeça, era aquele beijo. Afinal, eu não entendi porque o beijei, eu não queria, eu não podia, eu beijei um moleque que eu não falava fazia dois anos e gostei.
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