Namoro a Janelas
1 Capítulo Único
A lua cumpria mais um dia de tarefa e brilhava no céu escuro. Já era outro dia. Apenas mais um dos muitos. E ela estava linda, brilhava tão fortemente que invadia janelas aberta e iluminava quartos.
Era uma rua escura num subúrbio popular, mais um no meio de tantos em vários lugares. Não era o mais bonito, não era o mais procurado, também não era o mais calmo. Era apenas mais um no meio de tantos.
Era um prédio de vários andares no meio daquela rua com tantos. Pintado de branco, com folhas num jardim bonito. As grades eram escuras e o porteiro ficava quieto em seu cubículo. Não havia movimento algum naquele lugar.
E era outro prédio naquela mesma rua, um prédio de vários andares também. Com vários moradores por janelas acesas naquela noite calma e escura. Branco com várias janelas, e era assim que ele era.
Lado a lado, assim aqueles dois prédios eram. Um com janelas acesas e outro com apenas uma acesa. Naquela noite onde apenas a lua iluminava rua. Lado a lado, um com jardins bonito e piscina e o outro com apenas uma quadra esportiva.
E era um homem em uma daquelas janelas acesas. Preso pelo brilho que o luar incidia em seu tronco descoberto de roupas. Ele apenas observando uma janela intrigante no prédio ao lado. Uma janela em que ele via iluminada apenas pelo luar. O quarto simples onde um corpo feminino estava deitado em uma cama com cobertores e cigarros de caixas diferentes.
O corpo se escondia atrás da característica fumaça azul que o cigarro solta. A janela de vidro aberta o bastante para o ar ventilar naquele lugar e nada ficar cheirando a cigarro. Um fio que saia dos ouvidos indicava que a música ela ouvia.
Curioso, ele apoiou os cotovelos no parapeito e apenas ficou observando, tentando chamar a atenção dela para si. Para seu corpo malhado e cabelo dourado. Nada de atenção, mas ele via olhares furtivos, desesperados por atenção daquela menina na janela.
Saia e voltava para seu posto de observador solitário, sempre com uma garrafa com água. Queria atenção, queria o rosto virado para si e um sorriso no rosto. Não importava se fosse bonita ou feia, o que importava era o reconhecimento de sua curiosidade. Talvez nem um sorriso fosse o bastante, talvez um aceno da nova vizinha bastasse.
Uma novidade, um movimento e logo as luzes daquele quarto em que ela estava foram acesas. O curioso vizinho observou que agora haviam livros na cama, caneta e papéis. Um minuto em que o papel foi atentamente observado antes de ter linhas e mais linhas de palavras preenchidas com tinta azul.
E o vizinho bonitão nem imaginava que a autora lhe escrevia este conto.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia – Em casamento...
(Azevedo, Álvares – Namoro a Cavalo)
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