Notas iniciais
Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

O vento castiga a cidade com a areia fina do deserto, já é a quarta tempestade este mês e não temos mais recursos para lidar com os estragos causados. Minha voz ecoa inutilmente em meio a ventania na rua central de Aarcav enquanto tento instruir os moradores, é meu dever protege-los.

—Certifiquem-se de que as crianças estão seguras! Protejam os rostos e não se esqueçam de cobrir os reservatórios de água!

Há pouco o Olheiro deu o alerta de desastre natural. O rei apenas se deu o trabalho de soar o alarme geral e logo se retirou para seus aposentos, encarregando os guardas de fechar portas e janelas de sua grande fortaleza. Takus, o ambicioso monarca, é o segundo marido da Grande Rainha, que há pouco falecera, e era a esperança do povo de Aarcav até se mostrar o pior administrador possível. O “soberano rei do deserto”, como gosta de ser chamado, envolve-se em brigas desnecessárias com outras cidades, faz mal-uso dos recursos restantes e dá festas extravagantes para os nobres. A única esperança dos cidadãos de Aarcav são as filhas da Grande Rainha, que fazem o que podem pela população.

Do outro lado da fortaleza Lia controla o resto da multidão desesperada por abrigo, focando nos sábios anciões. Scarlet auxilia distribuindo pedaços de tecido para que cubram seus rostos, enquanto Seraphine cuida dos feridos em sua casa e a pequena Maria corre sob o chão seco e rachado da cidade baixa em busca de crianças que se perderam de seus pais.

Há séculos, o país de Térdes era conhecido como “Amazônia”, de clima equatorial e fauna e flora abundantes. Os anciões contam que a região em que moramos era a maior floresta tropical do planeta e que chegaram até a chamá-la de “pulmão do mundo” devido a quantidade de oxigênio que liberava. No entanto, a ambição do homem destruiu a maior riqueza da Terra, com queimadas, desmatamento, exploração ilegal e, o principal, a biopirataria, que causou guerra entre países.

—Arel, o soberano ordena sua presença!—Léria grita ao meu lado, ela é alta, tem a pele morena manchada do sol e é linda. Linda e mimada pelo rei de Aarcav, seu pai. —Tudo bem, eu já vou.—respondo secamente à minha meia-irmã.

A desertificação foi consequência da idiotice do homem e, por isso, hoje somos todos obrigados a sobreviver plantando em solo pobre, respirando ar seco e expostos ao calor escaldante. Nós de Aarcav e mais outras três cidades remanescentes.

Notas finais
Foi só uma introdução amigxs. Não esqueçam dos comentários construtivos que me ajudam a crescer com a história e que me incentivam!