Naipes de Fogo
5 Show dos horrores: assassinato #3
Notas iniciais
Eu sempre quis fazer com que os argumentos da justiça fossem válidos, que de fato todas as injustiças do mundo devolvessem para aqueles agravados um bem maior, que recompensasse todo o sofrimento e toda a dor. Ah, velha ideia de um carma. Infelizmente isso é um monte de coisas que são contadas durante todas as gerações apenas para que finjam que estão bem e pensem em se erguer e oram, em vão, para que tudo dê certo.
Minha vida foi bem conturbada, antes mesmo da morte de meus pais, antes mesmo do incidente que ocorreu com minha querida Argina, e antes dela ser Argina, ela era e ainda é Madison! Madison Oxford, pelo sobrenome de nossos pais, assim como o meu; Ou Madison Silverstone, como o sobrenome do cara que ela crê que fez algo por ela algum dia. Preciso ser sincera, tenho que agradecê-lo, mesmo por todos os momentos que ele a fez passar, mas ele esteve lá quando eu falhei com Mad, como ela prefere ser chamada.
Antes de tudo isso, teve o período do colegial, tristemente.
Meus primeiros passos em direção à escola eram leves e tímidos, eu andava solitária e me encolhia internamente no intuito de desaparecer por ali. Ao dar plenos sete passos, eu pude notar algumas coisas bem peculiares de algumas ‘castas’ que sempre existem. Nos fundos da escola, em média de uns dezoito garotos permaneciam na quadra de basquete, geralmente eram fortes, e tinham braços musculosos e eram altos, tinham porte atlético e preferiam usar cabelo extremamente curto do tipo militar. Na entrada, pude perceber um grupo, que antes eu pensava ser de nerds, porém eram terrocinéfilos, os nerds geralmente ficavam em uma sala, porque geralmente gostavam daquele ambiente e do local de convivência escolar. Aos poucos, pude notar cada grupinho e cada segregação que havia dentro daquele ambiente.
Ao entrar na sala, eu me sentei nos fundos, e deixei minha cabeça um pouco curvada para baixo tentando evitar algum tipo de comunicação com os outros. Foi um pouco inevitável, tinha outra garota novata, seu nome era Jeane, e logo ela começou a puxar algum assunto comigo a fim de tentar conquistar alguma amizade que não se encontrasse dentro daqueles padrões sem sentido.
Ela era bastante legal, tinha pele clara, meio tom de salmão, olhos castanhos e um cabelo ondulado que me remetia à cor de chocolate, eu podia até sentir o cheiro.Ela adorava revistas de quadrinhos e tinha um gosto peculiar em super-heróis, assim como eu, seu favorito era a Mulher Maravilha, pois ela era um símbolo de feminismo e de liberdade, ou então talvez apenas pela roupa. Eu, entretanto, preferia o Batmam, homem-morcego, já que era bem enigmático e obscuro, e era uma pessoa comum, e isso, me dava falsas esperanças de ser um herói algum dia. Esperança,eis uma palavra que é um instrumento de tortura, mas um objeto que incentive a luta.
Algumas conversas trocadas, algumas visitas feitas, alguns segredos contados, e eu me via gostando dela. Sim, eu gostava dela, e não apenas como amiga, gostava no sentido de amar, de um desejo de tê-la em meus braços, pois eu sabia que os seus me davam bastante conforto, e todos os problemas do mundo pareciam desaparecer quando estávamos juntas, quando eu tinha suas palavras para manter o calor em dias frios.
Mantive esse segredo em meu coração durante vários dias, e tentei demonstrar e ao mesmo tempo saber o que ela sentia por mim. Ela era minha calmaria, e quando eu não estava com ela parecia que meu mundo desabava, e eu tinha a vontade incessante de vê-la e de abraça-la, sentir seu corpo colado ao meu.
Depois de alguns dias, vi que ela andava com outras garotas, e de longe percebia que às vezes elas me olhavam e se viravam uma para as outras e davam alguns sorrisos que a meu ver pareciam de deboche.
Jeane pareceu bem estranha durante os seguintes dias. Sempre me evitava e sempre tentava falar o menos possível comigo. Ao acabar a aula ela saia direto e não me esperava para ir com ela, não atendia as minhas ligações, e sempre que eu a convidava para vir até minha casa ou ia até a dela, ela inventava desculpas notavelmente falsas para que nosso contato não fosse feito.
Doeu? Sim, doeu muito! Parecia que eu havia engolido todo aquele sentimento selvagem e feroz, e dentro de mim ele tentava se libertar, mostrava suas garras e me rasgava por dentro, e às vezes eu me encontrava rastejando pela sala ou pelo meu quarto, contorcendo de dor, e desperdiçando minhas lágrimas em um momento.
Eu não tinha mais fome, nem sono, nem vontade de viver. Amor é uma droga! E agora sei exatamente como Mad se sentia. Doeu muito, mas nada comparado com o que ainda estava por vir.
Não sei como explicar, é um momento bastante doloroso para mim, e prefiro deixar esse momento menos marcado o possível, já basta às marcas que me deixou na alma. Em uma quinta-feira, Jeane me chamou para a quadra esportiva que ficava coberta e, naquele momento, escura.
Ela me perguntou se eu realmente gostava dela. Isso me pegou de surpresa. Tentei formular uma justificativa plausível para conseguir dar-lhe após um sim, e internamente minhas esperanças gritavam e batiam palmas, glorificando a minha vitória. Mas ao responder que sim, as luzes se acenderam, e antes que eu me justificasse, notei as diversas arquibancadas cheias, quase lotadas, e todas as pessoas gritavam. Senti-me humilhada e saí dali o mais rápido que pude, deixando aquela escola e aquelas pessoas mesquinhas que ali estavam.
Naquele momento eu não queria existir, pedi para que algo tirasse a minha vida. Eu não queria ter nascido daquela forma, se eu pudesse escolher, eu queria nem ter nascido, mas eu era daquele jeito, assim como uma pessoa nasce alta, ou branca, ou de cabelos crespos, negra, não era algo que eu pudesse escolher. Ser o que sou, é como a gravidade, não importa o quanto queiram mudar, é algo que é predeterminado e não há nada que eu possa fazer.
Eu só queria ser feliz, só queria ser eu mesma sem precisar me esconder, ou fingir ser algo que definitivamente eu não era. E após isso, bem, houve o acidente dos meus pais, o incidente da minha irmã.
Mas todo esse sofrimento que a vida me proporcionara, era apenas um treinamento para algo maior e mais crucial.
As coincidências vêm para o bem, mas algumas vêm para o mal. Jeane ficou noiva do meu chefe há alguns meses atrás, embora ele fosse bem mais velho que ela.
Durante esse tempo de opressão e de não reconhecimento da empresa, eu esperava dela ao menos um simples pedido de desculpas, mas ela preferia ser esnobe e continuar sendo aquela vadia cretina que destruiu minha alma e me torturou até quanto pode.
Mas todo conto de fadas tem um final feliz, e por mais que esse não fosse um conto de fadas, eu estava disposta a fazer com que ele terminasse de forma justa, que eu realmente fizesse por valer o carma. Minha grande sorte foi à prisão de Maddie, se ela não estivesse metida em encrencas durante aquele dia, há dez meses, eu não estaria aqui. E minha vingança começa hoje.
...
Estávamos em um carro alugado, que continha alguns acentos a mais para nossos convidados, ao meu lado estava, amordaçado, meu chefe, John Black, e ao seu lado inconsciente sua mulher e meu ex primeiro amor, Jeane ‘Vadia’ Black.
— O que você preparou para eles, Rachel? — Judith me pergunta sem saber o que eu havia planejado.
— Apenas preparei algo que realmente ele fosse se lembrar — pausei respirando ofegante e ansiosa e olhei para ele em seguida. — Lembra-se quando disse que a empresa não era um lugar para diversão? Era apenas para negócios e não era um circo... Acho que sua mulher não entende esses tipos de metáforas. Anos atrás ela achou que eu fosse algo para ser exposto e servisse de diversão para todos e eu pude sentir o sentimento de rejeição pela primeira vez na minha vida. Acho que isso me faz ser uma aberração, algo que vai contra a natureza. Contemple o circo dos horrores.
Pelo para-brisa, todos podiam ver uma tenda não tão grande, porém listrada, vermelha e branca, com uma entrada emblemática de um rosto de um demônio e alguns espelhos quebrados ao chão.
Descemos e arrastamos todos, a maioria ainda inconsciente, para dentro da tenda. Tínhamos uma reunião pela manhã, mas eu coloquei sonífero dentro do café que foi servido para eles, e foi fácil carrega-los para fora. As outras três garotas entraram; Pallas entrou na sala de câmeras e desligou todas da sala, as outras me ajudaram a levar os corpos pelos corredores dentro de carros de limpeza que eram vagos, e cabia um em cada, eu disse que eram vagos e não que eram confortáveis.Os que não couberam nos carros, levamos nas mãos, afirmando que haviam passado mal.
Ao chegar à grande tenda, eu decidi que cada uma havia de ter um grande papel. Eu me vesti de mágico, Judith com poucas vestes brilhantes de contorcionista, parecia mais uma dançarina do ventre, Argina de uma veste longa e fina como se fosse uma palhacinha, ela estava extremamente alegre e fazia algumas piadas com Jeane, e Pallas de terno como se fosse uma atiradora profissional.
Argina atirava facas no alvo, e quem estava lá? Jeane, simplesmente a garota que queria ser o centro das atenções, coloquei ela desprovida de roupas para que merecesse o castigo. Judith usava algumas correntes e alguns vibradores e mordaças para torturar aquele que me assediava, espero que ela dê um bom castigo para ele. Sabe a pressão que te colocam em um trabalho e te dão um prazo menor que o das outras pessoas apenas pelo fato de ser mulher? Pallas atirava balas na maça localizada acima da cabeça dos três assessores que eram da empresa e que não só faziam isso comigo, como me falavam mal pelo fato de ser lésbica. Mas o chefão era meu! Totalmente meu! Queria mostrar que tinha poder sobre ele e que eu devia ser respeitada. Eu o coloquei em uma caixa e o serraria ao meio.
Fui até Jeane e esperava que ela me dissesse algo, ou me pedisse desculpas e o que eu ouvi foi “Vá para o inferno sua vadia lésbica!”, seu grito ecoava pelo lugar e ela cuspiu em minha face. Direcionei minha mão com toda força que eu tinha em seu rosto e retruquei que os subordinados não podiam falar daquela forma com seus patrões.
E a brincadeira começou. Não foram precisos cinco minutos para ver que eles estavam lamentando e pedindo desculpas, exceto minha vadia favorita, enquanto eu fui olhar diretamente para meu querido John.
Vi sua inquietude e que ele não parava quieto, é como se estivesse planejando algo, vi que ele tentava desprender sua mão e subitamente, esse gesto foi preciso, e ele colocou a sua mão no bolso e tirou um spray de pimenta, direcionando-o diretamente em meu olho direito.
Caí ao chão, esperneei e me debati contra o solo que fazia uma grande nuvem de poeira. Gritei roucamente repetidas vezes “eu vou te matar” e “você está morto”. Levantei-me com a minha mão ainda no olho, tomei a arma de Pallas e atirei diversas vezes nos caras que estavam sob seu alvo.
— Tomem por todos os momentos que caçoaram de mim!
Corri até o assediador e puxei sua coleira que estava em seu pescoço até ele se sufocar. Colocando minha perna sobre o corpo dele para que facilitasse o processo.
— Era assim que eu me sentia quando eu não podia fazer nada, e todos fechavam os olhos.
Tomei a faca de Argina e fui até Jeane que ria de mim. A encarei friamente.
— Você sempre riu de mim, e eu sempre quis o melhor para você. Eu te amei do jeito mais puro e mais belo que poderia existir nessa e em outra galáxias. Eu te amei de verdade. Eu daria minha vida por você, e fui sua cabana quando sua vida passava por momentos tempestuosos e de fortes rajadas, eu te protegi de tudo e de todos. Eu aguentaria que me zombassem, porque por mais humilhante que fosse, valeria a pena por sua causa. Seríamos eu e você contra o mundo. Entretanto você resolveu me deixar ao relento, e abandonada na lama. Tive que me reerguer só e você não tem ideia de como doeu, e como eu me senti. Achei que tivéssemos, eu e você, nascido para coisas grandiosas, mas você não achou isso, não é mesmo? E em silêncio eu sei que você não conseguia me amar, mas como se isso não bastasse, você quis me ridicularizar em frente à uma plateia de ignorantes para garantir seus 15 minutinhos de fama no colegial — disse chorando em silêncio mas com um tom furioso. — Eu só tinha você, mas em um piscar de olhos, eu não tinha mais ninguém ao meu lado.
— Você sempre foi ridícula e isso é apenas a consequência de seus atos, você não nasceu para fazer coisas grandiosas — ela falava em um tom de deboche.
— Realmente, eu não nasci para grandes coisas. Mas pelo menos você vai morrer sendo a vadia que sempre foi. — Assim empurrei minha faca em sua garganta e a deslizei para baixo em seu corpo.
E por último, fui até meu chefe estúpido e disse:
— Obrigado pela oportunidade de emprego que você me deu, eu deveria estar realmente grata por tudo, e estou — parei e respirei com minha mão sobre meu olho. — Entretanto, desviar o salário de uma funcionária para que esse dinheiro fosse para sua conta e ainda colocar a vadia da sua mulher para ser minha chefe apenas porque você sabia que ela me odiava e durante as tardes eu via vocês se deliciarem com o meu sofrimento, e que eu merecia todos os castigos. Por isso, eu sempre cuspia no café de vocês. Agora boa ida para o inferno. Ah... E eu invadia e roubava alguns itens de vocês e os vendia para conseguir dinheiro. Dinheiro que desviavam do meu pagamento. Acho justo! Não?
Ouvi-o falar alguns palavrões, mas não dei muita importância. Peguei a serra e comecei a passar de um lado para o outro, e seus gritos se dispersavam e aos poucos se calavam. Minhas parceiras estavam com um olhar chocado e sem reação, uma mistura de horror e tristeza pairava sobre o local e eu disse:
— Joguem gasolina e incinerem tudo, isso deve permanecer em cinzas, e quanto a você... — olhei furiosa para Pallas — Só temos você, até semana que vem isso tudo terá acabado.
Saí com meu olho lacrimejando e deixei elas para terminar o serviço, em momento nenhum parei para refletir sobre meus atos.
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