Naipes de Fogo
6 Não tire a Rainha de Ouros
Notas iniciais
— Não temos outra escolha — Pallas olhou para as outras duas garotas que fixavam sobre ela um olhar sútil e sem vida. — Fizemos coisas que não devíamos ter feito, pessoas que não devíamos ter machucado. Não conseguem perceber o quão errado isso é? — falou começando a tremer e suar frio, se curvava diante das duas damas e suas sobrancelhas arqueavam, expressando a tristeza e decepção. — É uma questão de tempo para que a polícia encontre os vestígios dos assassinatos. Temos que parar!
— Sua vagabunda. — Argina soltou uma gargalhada para Pallas— Você quer parar agora só porque ainda não assassinou o bundão do seu marido, tsc tsc. — Estalou com a língua, dando um ar de sarcasmo à sua fala. — Haverá um milhão de homens pelos quais você pode abrir esse belo par de pernas.
Pallas, furiosa, caminha e direciona sua mão no rosto de Argina, fazendo-a cair da cadeira. Ela fixa seus olhos em Argina e a mesma olha de volta retrucando
— Por acaso me bateu porque eu te ofendi ou porque eu falei a verdade? — Argina morde o lábio inferior, ridicularizando a situação.
— Ela tem um pouco de razão, Pallas... — Falou Judith. — Você passou todos esses anos submissa a um homem que te espanca toda noite e que te ridiculariza diante de todos. Agora não podemos mais baixar a cabeça.
— Você está livre pra ir embora, Jud... e você pode voltar a se drogar, Argina. Eu não quero sujar minhas mãos mais uma vez, pelo menos não com ele. — Ambas olham Pallas com um ar indiferente. — Percebam que... Se não pararmos agora, vamos continuar fazendo isso por prazer. Rachel não vai parar até conseguir destruir todos. Isso já passou de uma sede de vingança, já é uma obsessão. — Ambas paralisaram e começaram a refletir um pouco. — Precisamos parar isso, precisamos parar Rachel.
...
Querido diário,
Esse foi o dia em que eu fui enterrada.
“Eu pertenço a esse milênio. Geração Y, nascidos entre o surgimento da AIDS e o 11 de setembro, mais ou menos. Eles nos chamam a geração global. Somos conhecidos pela luta de nosso direito e nosso narcisismo.
Alguns dizem que é porque somos a primeira geração onde cada criança recebe um troféu apenas para mostrar-se. Outros pensam que é porque a mídia social nos permite postar quando peidamos ou comemos um sanduíche para todo o mundo ver.
Mas parece que a nossa uma definição característica é uma dormência para o mundo. Uma indiferença ao sofrimento.
Eu sei que fiz tudo o que podia para não sentir; sexo, drogas, álcool.”
Honestamente, jamais achei que após tudo o que houve, eu acabasse aqui, enterrada viva como se eu fosse nada, como se eu não as tivesse ajudado, salvado suas vidas.
Eu represento a categoria de mulheres que lutam pelo direito de serem livres para opinar, por serem iguais aos homens, por garantir que seremos respeitadas. Admito que meus métodos não são os melhores a serem seguidos, mas como queria que eu vivesse com essas pessoas após tantos acontecimentos?
Deixá-los livres seria um suicídio. Não aconselho ninguém a fazer o que eu planejei, pois foi algo meu. Eu cansei de viver em uma sociedade onde as mulheres precisam ser taxadas como símbolos sexuais e se encaixarem em padrões de beleza para serem aceitas pelo público masculino, e ainda assim, pelo próprio público feminino.
Cansei de viver sendo assediada em meu lugar de trabalho, ou de ganhar menos porque sou do sexo feminino. Cansei de ser julgada pela minha orientação sexual e preferir pessoas do mesmo sexo, e ainda ouvir burburinhos pelos cantos dizendo “ela nunca foi comida direito”, “essa cara de sonsa devia levar uma surra de pica”. Acredite em mim, isso é desrespeitoso, ofensivo.
“Bom dia!” e um soco no rosto. Era exatamente assim que Pallas viveu durante anos de sua vida. Se apaixonou por um monstro que a usava como objeto para aliviar seus prazeres carnais e acorrentou sua alma a dele, e ela se tornou submissa a ele. Não a culpo, existem mil mulheres por aí que vivem diariamente essa situação e acabam se grudando nessa zona de conforto.
Bem, quase todos os dias existem imigrantes tentando entrar em países ilegalmente para garantir uma chance de sobreviver. Esse caso é praticamente parecido com o de Judith, que infelizmente foi trazida para o país junto com uma máfia e obrigada a sobreviver como podia. Existem muitas mulheres que não conseguem uma boa oportunidade de emprego pelo fato de serem mulheres, e quando as mesmas não são qualificadas acabam tendo menos chances de trabalho. Em muitos casos, é assim que surge a prostituição. Às vezes creio que o maior fardo a ser carregado é nascer mulher. Há tantas desigualdades de gênero e tantas lutas a serem travadas pelos nossos direitos e devemos continuar assim, mas pra mim acabou. Eu só quero acabar com esse sofrimento.
Eu era uma pessoa boa, ou achava que eu fosse. Só estava cansada de tanta coisa acontecendo comigo e com tantas outras mulheres por aí. Quando encontrei as três garotas na delegacia e vi que as três haviam sofrido injustiças compatíveis às minhas, percebi que estava na hora de revidar. De um jeito agressivo, sim, mas ainda assim revidar.
Achei que estivesse salvando a vida daquelas garotas, mas parece que acabei por destruir, e eis me aqui...
Confesso que elas foram mais inteligentes que eu, e praticamente não deixaram vestígios de um possível assassinato. Minhas memórias são vagas mas ainda as tenho gravadas, embora embaçadas, em minha mente.
Eu me lembro de estar chegando em minha casa, e encontrar as três sentadas com quatro taças de champanhe.
— Hey, ela chegou — disse Pallas.
— Precisamos comemorar com um brinde o nosso sucesso. — Judith, sem mais aqueles olhos de peixe morto, falava.
— Vai ser um brinde de morrer. — Argina falava notavelmente drogada.
Fui tola e bebi. Aos poucos, tudo girava ao meu redor.
Meio que acordei em um carro, balançava muito e estava chovendo. Podia ouvir minha irmã cantar algo. Maldita Madison!
“Não tire a rainha de ouros, garoto. Ela vai te bater se puder. Você sabe que é sempre melhor ir na dama de copas.”
Definitivamente acordei. Estava em um buraco. Deitada. Coberta de terra até o pescoço. Vi um pouco acima as três damas. Oh, que Trindade profana que eu mesmo criei.
Chovia, e a água caia direto em meu rosto.
— Você nos corrompeu e agora está na hora de acabar com isso —Pallas gritou.
— Do que vocês estão falando? Eu salvei a vida de vocês.
— Não. Você as destruiu — Pallas revida.
— Vocês aceitaram vir comigo — eu comecei a chorar. Nunca achei que me encontraria em tal situação. Dei minha vida por elas e elas me deixariam lá como se eu tivesse sido o diabo em carne que tivesse vindo à Terra. — Por favor, me tirem daqui.
— Aceitamos sim, de boa vontade. Mas acabou. É hora de dar um fim nisso. — Judith, embora triste, tonalizava uma firmeza em sua voz.
— Irmã? — Falei, tentei implorar pela consciência de Argina.
— Desculpe-me, mas minha irmã morreu quando Rachel foi trazida à vida.
— Está chovendo e logo a água cobrirá seu rosto. Você morrerá afogada. — Disse Judith.
— Você é uma péssima líder, deixou vários vestígios para a polícia encontrar, mas vai morrer e não terá sequer um vestígio para saber que foi assassinada. — Pallas falava.
— Eu criei monstros — choraminguei.
— E chegou a hora dos monstros destruírem a vida de seu criador. — Pallas, friamente, revidou.
— Como Frankenstein. — Argina ria, drogada obviamente. —Engraçado, nunca achei que fosse vivenciar um conto gótico e de terror. Obrigada Mary Shelley.
Chegou a hora de se livrar dos alter-egos: Judith, a rainha de copas. Pallas, a rainha de Espadas. Argina, a rainha de Paus.
— Vocês voltarão a viver suas vidinhas miseráveis como antes? Como Thalie Blanche, Patty Goldberg e Madison Oxford?
— Silverstone! — Gritou Argina com um ar de indignação e sarcasmo. — Madison Silverstone... Desculpem-me, minha irmãzinha esqueceu que sou casada com um drogado que morreu de overdose. Então eu sou viúva.
—Pode, por favor, se calar? — Judith inquieta revida para ela.
— Ok, garotas. Chega! — Pallas falou — E por fim, aqui jaz Rachel, a rainha de ouros, mas jaz também Nora Raven Oxford.
— Não. Por favor.
Eu as vi indo embora enquanto eu ficava na chuva, enterrada.
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