Poncho

Eu juro que estava tentando prestar atenção na conversa que tinha com Felipe, mas eu não conseguia tirar os olhos das duas que estavam do outro lado da sala, conversando uma com a outra.

As olhava tentando entender o que diziam, e pelas falas monossilábicas que eu falava para Felipe, não sabia como ele não desistia da conversa.

:- Chega Miguel agora terei que levá-lo para diretoria. – escutei sua voz, me roubando a atenção.

:- Que? — perguntei para ele confuso.

:- Miguel é uma ordem, você vai agora para diretoria. – ele falava sério comigo, até ver minha cara confusa e começar a rir. – Só voltando ao passado e reencarnando Pascual, para você notar que eu existo? Estamos conversando sabia?

:- Ah me desculpe, Felipe. – fiquei sem graça. – Você falava sobre o que na novela mesmo? — tentei retomar a conversa.

:- Já tinha terminado de falar da novela, agora estava falando sobre a última travessura de Aline. – ele riu falando da filha caçula dele, me deixando mais sem graça ainda.

:- Eu não ouvi estava prestando atenção...

:- Nela? — ele perguntou deixando de me olhar para ver onde Dulce estava sentada no sofá, do outro lado da sala, com Dominique no colo conversando as duas pareciam alheiras ao que acontecia na sala.

:- Nelas. – revelei para ele. – Na verdade, estava as vendo conversarem na língua de sinais. Parece que não existe mais ninguém na sala só elas. – eu ri.

:- Se antes Dulce já tinha um lado autista, imagine agora que tem uma filha que fala a língua de sinais, parece que as duas vivem num mundo só delas. – eu escutava ele falar, pensando que antes eu era um cara que vivia nesse mundo autista da Dulce. – Que vai além delas saberem a língua de sinais, é uma cumplicidade impressionante entre as duas.

Todos na sala fomos interrompidos por Roberto, produtor e organizador, daquela apresentação para a imprensa da novela. Depois de conversar rapidamente com Torres e Damian ele se voltou a todos.

:- Pessoal, vamos começar então, por favor, me acompanhe e cada um se dirija para seu lugar, ok. – ele falava com todos os atores e atrizes.

Depois de me levantar e arrumar minha camisa pólo azul e o jeans, eu dei uma olhada discreta para onde Dulce e Dominique estavam, a babá de Dominique chegou e ficaria com ela até que a apresentação acabasse. Deixei que todos se encaminhassem na frente e só acelerei o passo quando vi que Dulce já estava andando.

Via seu caminhar tenso, então assim cheguei perto dela coloquei a mão em seu ombro. Ela virou para ver quem era, e sem falar nada tentei desejar boa sorte, e deu certo por que ela agradeceu baixo. Independente dos motivos de todos para estarem ali, para Dulce seria mais difícil, por que ela seria o alvo das perguntas intimidadoras.

E assim que eu tirei a mão de seu ombro e ela virou para frente, veio àquela tempestade de flash das câmeras fotográficas, por azar o meu lugar na poltrona era distante de Dulce, mas de frente para ela, no formato de meia lua que as poltronas estavam.

Quando Dulce se sentou seu olhar foi direto para um lugar especial da sala, que a imprensa não tinha acesso, mas que dava para ver por conta da parede de vidro. Todos podiam ver as pessoas que estavam lá, Dominique que estava encostada no vidro olhando para todo mundo enquanto eles tiravam fotos dela.

:- Boa Tarde a todos, para começar essa apresentação à imprensa mostraremos um vídeo clip da novela. – Torres começou falando com todos e depois de ter se sentado. Um telão se projetou no espaço entre nós atores e a imprensa começando o vídeo.

E o vídeo mostrou nossas primeiras cenas gravadas, que mostravam como seria a primeira fase da novela.

Numa universidade, o professor interpretado por Felipe, fala sobre um trabalho que avaliará seus alunos, ele escolhe quem fará com quem. Primeiro ele escolhe, Henrique interpretado por Eugênio, depois Alice interpretada por Angelique, Dulce é escolhida depois e sua personagem é Manuela e por fim, Antônio a quem eu interpreto.

Poderia ser o acaso o professor escolher nós quatro, mas não, tudo é traçado desde então, nós quatros nos tornamos amigos, eu e Alice namoramos, Manuela bem que tentou ficar com Henrique. Porém, ele não a queria. Alice termina comigo e com o tempo descubro que é para ficar com Henrique. E começa a partir daí a amizade entre nós quatro a se abalar.

A partir de uma briga nossa durante um trabalho na biblioteca enquanto fazíamos um trabalho, descobrimos os quatro um segredo do nosso professor.

Desde então ele flagrado começa a ameaçar a nossa vida acadêmica de nós quatro estávamos vivendo em nosso limite, certa noite encontram o professor morto e entre os quatro principais suspeitos éramos nós. E ao que todas as evidências indicavam os assassinos eram Manuela e eu.

Fomos presos eu e Manuela apesar de jurar inocência, e a partir daquele momento juramos vingança a Henrique e Alice.

E começa a segunda fase da novela quando eu e Manuela somos soltos anos depois e nos aliamos para nos vingarmos de Henrique e Alice, o vídeo termina comigo e Dulce de mãos dadas, selando nosso pacto e nos encarando.

Assim que o vídeo termina é aplaudido por todos.

:- Agora começaremos com as perguntas de vocês. – Torres falou aos repórteres.

:- Minha pergunta vai para Angelique. – O repórter se levanta para que Angel o visse assim que ela o viu sorriu, e esperou que ele perguntassem. – Como foi para você ser a substituta de Maite Perroni? Ao que parece ela seria a primeira opção como protagonista?

:- Em verdade, não vejo problema. Maite não pode fazer a novela por conta de sua gravidez. Não encaro como se fosse uma substituta e sim, alguém que está tendo uma oportunidade.

Suspirei cruzando os braços se a primeira pergunta já começava assim, aquela tarde seria muito longa.

:- Poncho, — eu procurei a voz da pessoa que me chamava. E a mulher esticou o braço para que eu pudesse identificá-la. – Aqui. – Assenti vendo ela. – Então como é ficar tanto tempo afastado das telenovelas, e quando volta é para ser um vilão?

:- Não considero Antônio como um vilão. – Torres riu do outro lado e eu olhei para ele rindo. – Sim, já estou defendendo minha personagem, acho que Antônio é um cara se sentiu injustiçado e que quando sai da prisão quer se vingar para se sentir melhor. Tem uma mudança de caráter ai, não sei, mas não o considero um vilão. – cocei a barba que agora era de Antônio. – E sobre telenovelas, é sempre bom voltar e ainda mais como uma novela como essa.

:- Aproveitando queria dizer algo sobre Antônio, — Torres falou com a repórter. – Eu o escrevi pensando em Poncho, lembro de comentar com Damian, essa personagem é para Poncho e eu o quero a fazendo. – Damian que estava do lado riu concordando. – Então quero agradecer Poncho por aceitar este desafio, por que vocês viram como caiu feito uma luva essa personagem nele.

:- Obrigado. – eu o agradeci. – Pensando um pouco mais sobre sua pergunta eu gosto de fazer vilão, nunca fiz em telenovelas, mas já fiz em filmes e tudo mais. Geralmente são personagens que te desafiam e agem de forma que você muitas vezes não faria em sua vida real. Eu gosto de fazer vilões, apesar de não considerar Antônio como um. – Ri fazendo todos rirem.

:- Minha vez de falar, assim como Torres, — Damian estava falando agora com todos. – quando ele me mostrou que estava escrevendo essa personagem e o nosso projeto estava nascendo. Resolvi que deveria também queria algo assim, foi então que nasceu Manuela. Personagem que eu escrevi pensando em Dulce e assim como Torres, queria que fosse Dulce que a interpretasse. – Todos os presentes focaram seus olhares para Dulce que ficou acanhada. – Tive todo um trabalho para convencer Dulce a fazê-la, voltar para o país e tudo.

:- Dulce nos conte como foi voltar para o país depois de tantos anos fora e agora para uma telenovela? – a mesma repórter que fez a minha pergunta agora questionava Dulce.

:- Eu acredito que... – Meus olhos estavam nela, assim como todos, talvez Dulce fosse o centro das atenções. – Sobretudo estou muito contente. Estou num processo de readaptação, nesse mundo televisivo e tudo mais, acho que não só eu como as pessoas também, o público. Fiquei anos fora então acho que é normal. Creio que é sempre bom voltar a fazer algo que eu sempre fiz, que são as telenovelas.

:- E sua filha Dulce, está se adaptando ao país também, como é para ela?

Vi Dulce procurar o repórter ainda, talvez todos ali estavam esperando esse momento.

:- Mi niña, como qualquer criança está se adaptando afinal de contas é uma vida nova diferente do que ela tinha antes. – ela olhou para Dominique do outro lado da sala, que estava brincando com sua boneca e com a babá. Dulce parecia pegar forças, e antes de voltar a falar ela olhou rapidamente pra mim. – E queria aproveitar para falar que Dominique é o amor da minha vida, minha filha e está se acostumando com todo esse assédio de vocês, então eu queria um pouco de respeito. Como vocês já sabem ela é deficiente auditiva, mas diferente do que muitos pensam e falam, ela é feliz, uma menina que tem uma vida normal, como qualquer outra.

Olhei para Dulce e sentia orgulho, a vendo defender a filha de várias fofocas maldosas sobre Dominique que já rondavam vários meios de comunicação.

:- Quero pedir antes que continue que façam perguntas sobre nossos trabalhos, perguntas de vida pessoal depois, se eles quiserem responder. – Damian, falou sério com a imprensa, e sabíamos que de certa forma ele defendia Dulce.

:- Dulce? – agora um repórter falava com ela. Depois dela beber água esperou a pergunta dele.

:- Olá, então eu queria que você comentasse sobre essa adaptação que você comentou, como acredita que será a reação do público, falo com relação aos seus antigos fãs. Por que com sua volta, muitos deles se manifestaram. Queria que comentasse sobre.

:- Ah sim. É uma pergunta difícil, — ela riu.- Sempre comentava antes que a vida é uma surpresa e que ela pode nos levar a caminhos que nós não imaginávamos. E foi assim que aconteceu comigo, não queria ter deixado a música ou a atuação, mas também não me arrependo de ter feito. Afinal a vida me trouxe Dominique. – ela estava nervosa, eu podia ver nas mãos que não paravam, ela parecia organizar os pensamentos para poder falar.

:- Eu não sei como seria a reação das pessoas com essa minha volta. Essa é a verdade, mas o que posso dizer que o amor das pessoas é surpreendente e incondicional. E desde que voltei já recebi mensagens de apoio, saudade, revolta, raiva, enfim. Vamos ver o que vai acontecer, estou aqui para fazer meu trabalho da melhor maneira possível. – ela riu dando os ombros.

E quando percebi que ela me olhou, eu levantei a mão em sinal positivo para ela esticando o polegar, fazendo com que ela risse.

:- Torres?

:- Sim?

:- Quero que comente, não só você como Damian, sobre essa parceria e sobre a importância desse projeto?

:- Victimas del Pecado. É uma telenovela importante para todos, absolutamente todos dessa sala e outras pessoas não presentes, mas que participam desde projeto. Especialmente para Televisa. – Torres começou e passou a palavra para Damian.

:- Concordo é importante para todos, para Poncho, Dulce, Angelique, Eugênio, eu, Torres, enfim todos. Uma fase importante para a vida e a carreira de cada um, com seus motivos e razões, tem tudo para dar certo para todos. Eu definiria como um recomeço.

:- Boa sorte cara. – Eu agradeci abraçando um dos meus novos companheiros de trabalho, Christopher. Parecia um cara legal.

:- Hei boa sorte. – Christian veio me abraçar depois de Christopher. – Aproveita essa oportunidade, viu. Nem sempre temos uma chance de recomeçar. – ele me olhava. – E não falo só por esse novo trabalho, como a relação de vocês dois também. – eu passei a mão na minha cabeça, com cabelo raspado, nervoso. – Agora enquanto eu arrumo essa lente que coça meu olho, vai lá falar com ela.

Ele me empurrou e eu fiquei sem graça por que esbarrei não só nela como em Zoraida, atriz que trabalharia na novela com a gente.

:- Vou falar com o pessoal ali. – Zoraida saiu nos deixando sozinhos.

:- Então estávamos aqui de novo, num novo projeto do Pedro. – eu comecei a falar sem graça, sem saber o que dizer, tínhamos terminado faz tão pouco tempo. E ainda ficava balançado quando via ela.

:- Pois é. – Ela mexeu no aplique curto e pintado para a nova personagem dela, na novela.

:- Então, boa sorte! – eu abri os braços e quando ela veio me abraçar, eu apertei bem forte o abraço. Senti ela subi na ponta dos pés para apertar seu abraço também. – Para você também, Poncho! – ela falou no meu ouvido e me deu um beijo na bochecha antes de se afastar, para falar com Anahí.

E eu sentia que Rebelde, seria um recomeço, para cada um e para nós dois.

Voltei no tempo me lembrando das emoções que eu senti há quase 20 anos atrás. Voltei a olhar Dulce, ela não tinha mais o aplique “colorido” de Roberta no cabelo, nem eu a cabeça raspada, menos ainda tínhamos acabado de sair de Clase 406 e terminando nosso namoro.

Ela estava novamente ruiva por conta de Manuela, eu estava barbudo e deixando o cabelo crescer para ser Antônio, e há muito tempo não temos nada. Cheguei a pensar que sua filha pudesse ser minha e me frustrei sabendo que não, ela não sabe muito da minha vida e eu pouco sei da dela.

Mas, como Pedro definiu agora e Christian no passado. Aquele era um recomeço.

Senti meu celular vibrar e deixei de olhar Dulce para ver o que era. E sorri como sempre que chegava um sms dela.

“Queria está em casa assistindo desenho, aqui está chato.”

Voltei meu olhar para a sala onde ela estava, e a vi com o celular na mão e com a boneca do outro. Esperava que eu respondesse o sms, e eu ri voltando para o celular, nós trocávamos sms há algum tempo desde que ela me deu um desenho com um esquilo e com seu celular anotado, pedindo que eu anotasse e mandasse sms para ela.

“Queria está em casa vendo futebol.”

Respondi seu sms.

Ela me disse que só me deu o celular por que gostou de mim. E queria conversar comigo mais vezes. Às vezes me pergunto se Dulce sabe disso, acho que não se não ela já teria comentado, quando nós gravamos nossas cenas ou quando eu perguntava sobre Dominique.

“Eca, prefiro desenho.”

E eu ri do seu sms. Mas, parei ao ver que a pergunta era para mim. E a tarde seguiu assim, entre uma pergunta e outra ou sms e outro com Dominique. E o que me fazia voltar no tempo, as troca de olhares ou até brincadeiras com Dulce.

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