No quarto do hotel, o menino refletia, com a caneta na mão seu pensamento voa e assim começa a ter o prazer de devanear. Assim como "Alice no país das maravilhas" tudo será um mundo de miragens, escrito da forma que ele imaginou.

Mas nada imaginário dura para sempre. No olhar em direçãoao espelho, aquele no conto, quer dizer, canto do quarto ele vê apenas mais um perdedor. Um solitário, um otário coberto de cicatrizes e, claro, um lixo imundo. Pelo menos é o que o espelho conta.

Em um momento da sua covarde vida o garoto começou a olhar para o chão, se esquecendo do céu, da vida. E todos os dias ao acordar amaldiçoava o espelho, que o amaldiçoava de volta, e desejava o fim.

O rapaz está quebrado. A depressão que o corrói por dentro está quase o engolindo, a caneta agora escreve palavras vazias, sem pensamentos alegres ou imaginários. Um olhar pela janela e se nota que a vida continua passando, e as pessoas parecem viver bem sem ele, e como tudo fosse nada, amigos e família vão embora e ele se vê sozinho.

E se tornou adulto, se tornando luz turva. No pequeno rádio que levava consigo "Before our Spring" do Jonghyun começa a tocar e a melancolia se fez presente.

A caneta volta a escrever.

Palavras antes vazias, agora tomam um tom de despedida e o quarto daquele simples hotel se torna escuro. E quando o relógio marca meia-noite me faço presente, em essência, e o silêncio final se instala. A solidão se soma a uma dor constante que vai tomando a direção da vida dele, e se piscar da sua também, se transforma na depressão e no fim me chama.

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E a escuridão trouxe a última solidão. Fisicamente, ele não estava morto, mas a muito tempo seu interior havia morrido sem ter a quem pedir socorro. Enquanto estava no escuro o menino pensava sobre sua vida e o que aconteceu para chegar no momento em que se encontrava.

Ele se via em um espelho, e pela primeira vez em meses havia pessoas ao seu redor, mas não conseguia ver seus rostos. Era como uma névoa após o dia de chuva, ouvia sons abafados como o vento, o som de carros e sirenes, mas não conseguia ver o que e quem estava ao redor do seu corpo.

Respire. Respire. Porque era tão difícil fazer isso antes da sua última escolha? Respire. Volte. Recomece.

E recomeçou, ao abrir os olhos era noite e pela janela via lua. Ela era minguante dá última vez, hoje está avermelhada e provavelmente próxima a esse mundo a julgar pelo seu tamanho. Era estranho olha-la e pensar que estava vivo quando o que mais queria era morrer, mas não pode deixar de sentir em paz depois de tanto tempo. E em dúvida, afinal, quem o salvou? A sua família já o encontrou? Ou apenas fingiram que não o conhecia novamente?

Pensamentos rondavam sua mente e seu olhar à lua, ao ponto de que não percebia o andar dos enfermeiros e a aproximação dos médicos. Se sentia novamente embaixa d’água, as vozes longe demais para serem ouvidas, a respiração como se estivesse presa e o olhar ora embasado ora focado em algum detalhe fora da janela que ainda não havia visto.

Renascer é difícil quando se vem ao mundo sozinho e pela segunda vez. Eu sei disso, já vi acontecer diversas vezes.

Estou a muitos anos observando esse rapaz, querido leitor. Por favor, não me julgue, de forma alguma me hospedei nele a força, tampouco ele deixou-me entrar em sua vida. Assim como aconteceu com milhares de pessoas ao redor desse estranho mundo, eu apenas me instalei com a ajuda externa de seus conhecidos. E agora, ao observar Ellijah com os seus pensamentos, e preso nessa cama de hospital nessa ala psiquiátrica, sozinho e sem ninguém ao seu redor para demonstrar amor e preocupação pela sua doença, me pergunto onde está a humanidade que de tanto ouvi falar.

Ellijah convive comigo desde sua adolescência sem saber o que estava ali. Sempre li suas poesias, seus textos e suas cartas nunca respondidas pelos seus pais, pois estes achavam o filho um fracasso. Um rapaz que queria viver da literatura não poderia trazer honra a família.

Ora, vejo aqui um verdadeiro humano machucado por quem deveria apoiá-lo, pois eles estavam errados, assim como a maioria dos pais que machucam acreditando cegamente em seu egocentrismo, ele seria um sucesso. E viveria por longos anos, se alguém controlasse minhas mãos ao tocá-lo.Mas quase nunca me controlam, por estarem focados nos seus mundos particulares de maravilhas. O mesmo que Ellijah busca na sua escrita, mas que nunca é alcançado, um mundo de fantasias e beleza que na realidade não existe. E se um dia existiu foi destruído pela falta de empatia na humanidade.

Recomeçar é difícil, desde um recomeço após um problema financeiro até o levantar depois de uma queda. Entretanto, o recomeço mais difícil é o que se passa após ser quebrado e da perca de esperança em sua própria vida. Eu sei disso, eu vi e estive nesses momentos.

Notas finais
ATENÇÃO! Suicídio não é a solução! Se você se identificar com qualquer sentimento do texto ou estiver pensando nisso entre em contato com a CVV - Centro de Valorização da Vida. CVV: https://www.cvv.org.br/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!