Nada pra mim

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Todos os direitos autorais (personagens e universo HP) pertencem à Tia JK.

Rose

— Já estamos passando da hora do almoço. — Garotos. Nunca entendi de onde surge tanta fome.

— Pode ir, Malfoy... quer dizer, Scorpius. — Que ridícula eu fiquei parecendo, tecnicamente ele nem tinha me chamado. — Estou sem muita fome... E não estou muito a fim de ficar fazendo social no Salão Nobre.

— Se você realmente quiser ficar totalmente sozinha agora, Rose, vou entender. Mas, do contrário, não me sinto bem te deixando aqui.

— Eu vou sobreviver.

— Não é questão de sobrevivência, mas eu me importo mesmo assim.

Eu continuei apática no sofá. Preferia a presença dele, mas não às custas de deixar o garoto com fome. De qualquer forma, sequer me dei ao trabalho de responder.

— Putz, podemos pedir os elfos para montar uma mesa de refeições para nós ali na sala de reunião. — Ele começou.

Interrompi, indignada: — Isso é abuso! Os elfos servem à Escola, e não a nós. E seria um uso indevido da Sala de Reuniões dos monitores.

Era só o que me faltava. Tinha ficado na Casa dos Monitores durante o feriado para quebrar mil regras!

— Rose, os elfos domésticos de tudo o que restou da família Malfoy foram libertados e contratados. Eles recebem salário, e fazemos questão de pagá-los bem. O elfo que me acompanha desde criança, Shelby, veio para Hogwarts comigo.

— E isso... Pode? Nunca ouvi sobre nenhum aluno trazendo seu elfo-pessoal para Hogwarts.

— Shelby não é meu "elfo-pessoal". Pelo menos não nesse sentido. — Ele falava como se eu tivesse feito uma ofensa horrível a ele.

Na verdade, na minha visão de mundo, aquilo era mesmo uma grande ofensa. Mas a maioria dos bruxos não encararia assim. Assumi automaticamente que ele fosse parte dessa maioria. Será que não era?

Sou filha de Hermione Granger. Por mais que eu detestasse isso, principalmente naquele momento. Herdei muitas características da minha mãe. E lutar passionalmente pela causa dos elfos é uma delas.

— Então por que ele veio para cá com você?

— Você sabe de onde eu vim? Quando vim para Hogwarts?

— Sempre assumi que fosse da casa dos seus pais. De onde todos os alunos vêm... — Sabia que o pai dele existia, e já até os tinha visto juntos algumas raras vezes. Então órfão ele não era.

— Você sabe onde meus pais moram? — Ele perguntou com nervosismo.

— Não. Por que eu saberia? — Eu tive muitas chances de perguntar antes. Afinal ele era do meu ano em Hogwarts. Mas nunca havia expressado essa curiosidade. — Sempre achei que a localização da casa do homem mais rico do mundo bruxo fosse um segredo. — Essa era a parte em que eu inventava uma desculpa esfarrapada pra ganhar a discussão.

Draco Malfoy realmente era o homem mais rico do mundo bruxo segundo a Revista World Wizards, que fazia esse ranking anualmente. O pai de Scorpius sempre esteve na lista e há mais ou menos uma década assumia o primeiro lugar com folga. Ninguém sabia exatamente o que ele fazia, pois era "bem reservado", "não gostava de dar entrevistas", essas coisas de gente fresca.

— Não é um segredo, na verdade. Se você tivesse efetivamente lido qualquer uma dessas reportagens de fofoca que você menciona, saberia que a residência oficial da família Malfoy fica em Nova York, numa cobertura em um prédio trouxa no coração de Manhatann. — Ele falava não com ar esnobe, como era esperado, mas parecia nostálgico.

— Nossa, realmente não sabia disso. Sempre assumi que vocês morassem aqui na Inglaterra mesmo.

— Eu nunca morei na Inglaterra, na verdade. — Ele falava sorrindo e imitando um sotaque americano. — Quer dizer, não antes de vir para Hogwarts.

— Mas... Você fala em perfeito inglês britânico! — Como assim ele nunca tinha morado na Inglaterra antes?

— Rose, é uma longa história. Já estou com fome. Se eu for responder a todo o seu interrogatório para depois almoçar, vamos os dois morrer de inanição aqui.

— Okay. Se não quiser que eu pergunte, eu não pergunto. — Respondi, com cara de tédio.

— Não me importo de responder. Desde que eu esteja alimentado. Vou pedir a Shelby para trazer comida pra cá, não preciso da sua autorização para isso. Se quiser você faz greve de fome. Ou enfrenta o Salão Nobre sozinha.

— Você venceu. — Não iria encarar aquele Salão tão cedo.

Ele chamou, então.

— Por gentileza, Shelby.

Um elfo aparatou na nossa frente. Não era vestido com trapos, mas com um uniforme bastante alinhado. Aparentava ser muito bem cuidado e tinha uma postura altiva. Não pude deixar de pensar: até os elfos-Malfoy se vestiam muito bem e se portavam com aquele ar de perfeito cavalheirismo inglês!

— Senhor Malfoy, bom dia!

— Bom dia, Shelby. — Ele começou a falar animadamente, como falaria com algum de seus amigos de colégio. — Não precisamos de formalidades aqui, pode me chamar de Scorpius mesmo. Já conhece essa minha amiga?

Nunca tinha visto aquele elfo na vida e Scorpius sabia disso. Estava apenas sendo gentil com o elfo.

Malfoy? Gentil com o elfo? Minha mãe nunca acreditaria naquilo.

— Não, Scorpius. Ainda não fomos apresentados.

— Shelby, essa é Rose Weasley.

— Muito prazer em conhecê-la Srta. Weasley. Sou Shelby, leal elfo da Família Malfoy. — Disse Shelby, estendendo sua mão para me cumprimentar.

Educadamente apertei sua mão de volta: — Muito prazer, Shelby! Pode me chamar de Rose!

Scorpius alegremente chamou o elfo.

— Shelby, estamos precisando de um favorzinho seu.

— Claro, Scorpius.

— Vamos almoçar por aqui mesmo. Será que você pode nos trazer um almoço?

— Sim. O que vão querer comer hoje?

— O Cardápio da Escola. — Nossa, que coisa horrível seria ficar trazendo comida de fora. Um insulto à excelente cozinha de Hogwarts!

— Deixe de ser chata, Rose! Você gosta de comida americana?

— Aquelas coisas cheias de gordura? — Falei em tom de brincadeira, imitando os famosos chefes de cozinha ingleses.

— De gordura e de sabor. — Retrucou Scorpius.

— Sim, eu gosto, Scorpius. — Respondi com naturalidade.

Um de meu pratos preferidos era hambúrguer com fritas. Mas se eu revelasse isso para ele naquela hora, ia ficar muito cheio de si.

— Shelby, sabe aquele hambúrguer com fritas? Meu favorito? Pode trazer dois para nós? E aquela minha cerveja...

— Malfoy, e se nós formos pegos trazendo ilegalmente bebida alcoólica pra Hogwarts?! Na hora do almoço? Abusando de nossas regalias como monitores para fazer isso? — Falei em tom de revolta.

Eu era muito séria com essas coisas. Tio Harry costumava dizer que eu era exatamente igual à minha mãe quando tinha a mesma idade. Eu preferia pensar que nunca abusaria das vantagens do meu sobrenome para passar acima da Lei por simples princípios.

— Rose, dá um tempo! É Natal. Sem contar que estamos péssimos e um pouquinho de álcool seria útil. — Ele tinha razão. De novo. Estava detestando aquela história de Malfoy sempre com razão. — Essa cerveja é a melhor bebida para degustarmos esse hambúrguer!

— Tudo bem, Malfoy. — E me virei para Shelby. — Pode fazer isso por nós, Shelby? Ficaria muito grata.

— Com o maior prazer, Senhorita Rose.

Scorpius sorria. É... Pelo menos um de nós estava com um humor agradável enquanto encarávamos nossa Fossa de Natal.

— E, Shelby, pode colocar as comidas naquela sala ali quando estiverem prontas. — Ele acrescentou, apontando para a Sala de Reunião.

Eu só revirei os olhos.

— Devo demorar no máximo meia hora para deixar tudo prontinho.

— Sem problemas, aguentamos até lá. — Eu afirmei. — Muito obrigada, Shelby.

— Sempre às ordens.

— Valeu, Shelby! — E a cena mais improvável se passou na frente dos meus olhos: Scorpius Malfoy e Shelby se cumprimentando com um hi-five, antes de o elfo aparatar.

Será que teria mais surpresas nesse feriado? Estava com uma ligeira sensação de que sim.