Nada a dizer
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A lua reluzia, pálida, no céu noturno. Jeff havia corrido desesperadamente pelo bosque adentro, e caminhava agora, cabisbaixo. Encontrou um tronco derrubado e ali parou, seguro de que já estaria longe demais para ser encontrado. Sentou-se e ergueu a cabeça, fitando o céu enquanto revelava à noite o sorriso permanente que há apenas algumas horas havia gravado no seu rosto. Ardiam-lhe os olhos, que não podia mais fechar.
A leve brisa que corria fez com que o jovem assassino soltasse algumas lágrimas, que escorreram face abaixo até se unirem ao sangue que ainda brotava da ferida aberta. Muita coisa se estava a passar no interior da sua mente, fileiras de informação que estava ainda por processar.
Nessa noite, matara violentamente toda a sua família. Primeiro a sua mãe, depois o seu pai, depois o seu irmão Liu. Todos os que o acompanharam até então haviam chegado ao seu destino final. Jeff sentia-se satisfeito, e simultaneamente desesperado. Tinha feito justiça, afinal quem desprezasse o seu rosto não merecia viver. E quem lhe mentisse, ainda menos.
Mas será que isso estava bem? O que tinha ele feito, afinal? Estaria assim tão desesperado com a sua própria aparência?
Perdido entre os seus devaneios interiores, não se deu conta de que alguém o vigiava entre as árvores. A atmosfera foi ficando mais pesada, até que Jeff acabou por regressar à realidade. E foi então que o viu.
Uma figura alta, esguia, caminhava em sua aproximação. Vestia fato e gravata, num estado impecável. Quase tão impecável quanto o seu rosto, que era, digamos, inexistente. Subitamente, uma série de tentáculos negros brotaram, num leve movimento, das costas da criatura, e Jeff viu-se envolvido e erguido pelos mesmos. Observava agora de perto aquela face em branco. A sua pele aparentava uma textura incomum, que mais se assemelhava a algum tipo de tecido.
Em circunstâncias normais, sentiria medo, repulsa, não hesitaria em erguer a faca que segurava firmemente com a sua mão direita e cravá-la no corpo daquele monstro, esquartejando um por um os membros estranhos que o agarravam.
Mas havia algo de diferente. Agora que Jeff estava perdido, sentiu que talvez estivesse nas mãos daquele ser ditar o seu destino. E foi então que ouviu a sua voz, grave e reconfortante, ecoar do interior do seu corpo como se todo ele emitisse som.
– O que fazes aqui?
E Jeff não sabia o que dizer. O que fazia ele ali?
– Eles não me achavam bonito. – resolveu explicar – Por isso matei-os. – olhou o ser à sua frente, o seu demoníaco sorriso agora curvado ainda mais – Matei-os a todos!
O homem esguio assentou com a cabeça e calmamente devolveu o rapaz ao chão.
– Segue-me. – ele falou, percorrendo brevemente os cabelos volumosos de Jeff com os seus longos e delgados dedos.
E o jovem assim o fez. E seguiu-o. Mas não sem antes parar para questionar:
– Eu sou bonito?
Ah, e se tivesse um rosto com o qual expressar as suas emoções, a criatura teria sorrido.
– Lindo.
Não havia mais nada a dizer.
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