Nada Demais
1 Nada Demais
Notas iniciais
O dia chegou ao fim antes mesmo que desse conta. Havia passado horas em vão analisando os mesmos pontos pretos nos cadarços já cinzas dos tênis azuis claro. Não que soubesse a diferença entre os tênis e a cor de seu estojo, ainda que dissessem serem totalmente diferentes. Teve aquela conversa interna sobre mudar as coisas, mas se sentia mal toda vez que tentava. O estômago avisou novamente sobre a necessidade de comida. Desviou os olhos de uma cor que não sabia definir para os vidros sujos de poluição e viu as construções ainda mais sujas. Não lhe fazia diferença olhar e ver cores e não saber qual era qual, afinal tudo lhe parecia um entediante cinza, o que incluía as pessoas.
O motor diminuiu o barulho e as rodas param de girar. O homem no rádio continuou a cuspir marcas e slogans em uma velocidade preocupante. No carro do lado um cachorro com pelo excessivamente comprido e brilhante procurava refresco no bafo quente que escapava dos motores e da combustão constante. Houve uma troca de olhares e um suspiro aliviado antes que mãos ossudas e pequenas agarrassem o pelo e o focinho sumisse na confusão escura que o vidro agora escondia. O balanço do recomeço do cenário cinza caótico correndo pela janela fez com que suas costas se arrumassem no encosto e o cachorro voltasse a ser problema de outras pessoas.
O arrastar de casacos e bolsas se misturava com a dança de cobertores e trapos. Os rostos cansados das noites mal dormidas, os corpos torturados de fome e exaustão, assim como as posições estranhas nas quais ficavam, entortavam a alma. Bonecos de mesmo molde. Sentia que olhar tudo aquilo lhe alegrava, pois sabia que seu problema com cores não restringia apenas objetos. Encarava tudo e a todos como se um único defeito justificasse todo o resto. Como sua mãe lhe dizia, nada daquilo teria sentido se tivesse cor. Até mesmo as flores, se pudessem se olhar pelos olhos sem cor, veriam a decepção que era ter cores.
A luz se esfumaçou e a movimentação da rua desapareceu. Reconheceu os desenhos e as cicatrizes nas estruturas. Uma brecha se abriu em seus lábios e uma breve lufada de ar lhe escapou. Tentou recuperar com uma longa inspiração. Suas pernas se moveram do banco para a rua e a sensação de felicidade começou a desliza pela sua pele. De alguma maneira, talvez porque havia ignorado datas comemorativas e não lembrasse mais, a loja de bugigangas ainda estava aberta e elas foram em direção a luminosa vitrine.
Tudo brilhava em um estranho tom cinza. As coisas dentro da loja eram engraçadas e bem feitas. Ali estavam os mais variados objetos, desde enfeites até coisas ainda mais inúteis. Passou os olhos pela extensão da loja que a vitrine exibia. Ficar ali parada estava lhe causando um aperto no peito que parecia saudade, de alguma coisa que ela nunca teve ou viu, ao mesmo tempo que lhe dava uma sensação boa. Estava presa ali, obrigando-se a olhar as peças variarem de tons brancos até um preto que mais parecia ausência do que cor.
A imersão em seus sentimentos e o encanto nos olhos não permitiram que ela visse a moça se aproximando, sendo que ouviu o sino da porta tocar quando ela se abriu. Em passos leves, elas aproximaram-se. Os olhos encantados de criança analisaram a nova peça para só então lembrar-se do quão rude estava sendo. A moça de avental a sua frente ostentava um sorriso simpático. Sorriu de volta, tentando imita-la como um espelho.
— Me desculpe incomodar, mas nós já vamos fechar. Minha mãe me pediu para vir ver se a senhora quer algo.
A voz soou suave e pareceu animada, apesar do cansaço escondido debaixo dos olhos. A figura ali parada permaneceu quieta sorrindo. Esperava uma resposta.
— Desculpa, eu me distrai olhando. Já vou entrar.
Enquanto andava, seguindo o avental da moça, tentava decidir o que comprar. Estava disposta a pagar o suficiente para fazer o sorriso simpático e os olhos cansados valerem. Queria ser agradável ao invés de prática. Decidiu ser direta ao menos, assim não atrapalhava nem gastava o tempo da boa senhora no caixa e a filha dela, que não tinha desmanchado sorriso. Sentia pressão por ser a única cliente ali dentro, ouvindo os passos abafarem a música ambiente. Ela estava impedindo aquelas mulheres de irem para casa e aquilo lhe fazia querer sumir.
Encheu duas sacolas, agradecendo com o sorriso mais sincero que conseguiu criar. Então, como se o lugar lhe causasse algum mal, andou apressada para casa. O caminho estava mais escuro do que o habitual e isso a preocupou. Teria que correr para terminar o jantar antes do primeiro anúncio da novela das nove. Sabia que ela gostava de comer enquanto assistia. Ela mesma, que não acompanhava a novela, se flagrava comentando os eventos e a trama das personagens. Conversariam sobre o dia uma da outra durante o comercial e logo que o programa acabasse, enquanto a louça era lavada e as coisas para o dia seguinte eram preparadas.
Considerou ir ao cinema no dia que viria. Lembrou-se de que havia gastado desnecessariamente na loja. Podia pedir alguma coisa diferente para comer em casa. Sabia que ela gostaria da ideia, contanto fosse a pessoa a decidir o que comeriam. A ideia pareceu alegrar os braços cansados. Os passos acelerados diminuíram conforme reconhecia a calçada esburacada da frente do portão do prédio. As chaves geladas fizeram barulho na bolsa, esperando serem encontradas pelos dedos que se moviam fervorosamente. A sacola pesava no braço e já machucava mais do que incomodava.
O portão abriu em um clique surdo antes que ela encontrasse o chaveiro. Havia uma figura acenando numa luza amarelada que dava cor ao edifício sujo de cinza poluído do céu. Tinha cor naquele sorriso. Andou ansiosa para achar a porta que estaria encostada, esperando seu toque para ser aberta. Assim seria, como na maioria dos dias. Logo as sacolas seriam problema da mesa e seus braços estariam prontos para apertar aquele corpo contra a barriga. O cansaço iria embora, substituído por um ânimo que moveria montanhas. Sempre da mesma maneira, aquele era o sorriso que a fazia sair da cama no dia seguinte, antes até que o sol fizesse o céu escuro brilhar. Remédio certeiro como a morte de todos os dias.
E lá estava, como sabia que estaria. A alegria na voz e o comportamento leve e sossegado estavam presentes como no dia anterior. A panela de arroz no fogão terminava de evaporar a segunda água. Houve uma conversa sobre o que fariam de mistura. Fofocas passaram de uma para a outra, intercalas com comentários e alguns assuntos. A cozinha, em conjunto com a “sala de jantar”, era o maior cômodo do apartamento, o mais aconchegante. Ali as energias eram repostas.
A noite seguiria sem grandes surpresas. A rotina mantinha-se constante e pouco ameaçada. A novela ditava as próximas ações, como o próximo programa que assistiriam ou se teriam que parar o capítulo no meio porque uma das duas tinha pego no sono no sofá. Nem mesmo a compra teria muito efeito na vida delas. Nada conseguiria atrapalhar as duas dentro daquelas paredes, como rainhas de um castelo há muito tempo esquecido pelos contadores de histórias. A vida parada daquela maneira não as incomodava, até mesmo porque sabiam que em certo tempo as coisas mudariam. Repetiam para si que tudo aconteceria quando tivesse que acontecer e, por enquanto, aproveitariam a calmaria.
Vida simples, sem custos extras. Não era uma vida que se imagina ter quando se é mais novo. Entretanto tinha estabilidade. Era uma vida, como tantas outras. Seguia em frente, apesar das chatices do dia a dia. Com os sacrifícios que uma fazia pela outra, tudo continuava tranquilo. Sabiam que a paz seguiria com elas quando se separassem na manhã do dia seguinte. Elas eram daquela maneira, calmas e controladas. Talvez fosse genética, quem sabe fosse só convivência. Ambas estavam tão acostumadas com aquele estilo de vida que nem os amigos estanhavam mais o comportamento.
Nem todos tem uma vida emocionante e elas não ligavam para aquilo. Tudo seguia em frente do jeito que deveria. Às vezes a vida é chata e entediante, ao mesmo tempo que é estável e confortável. São escolhas. As coisas acontecem.
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