Nada
1 Nada
Tão inocente a menina que insistente batia a porta esperando que ele a abrisse. Mal sabia ela em sua petulância de jovem que a sala estava vazia e o quarto, antes cheio de pôsteres, encontrava se com suas paredes peladas. Ele fora embora, ele a abandonara. Levara com ele esperanças, sonhos, ideias sobre um futuro, seus planejamentos e sua virgindade. Deixou-as sozinha com nada.
A menina ainda crente, sem pensar apalpou com uma das mãos a caixa de correio, ali estavam as chaves. Destrancou vagarosamente a porta, ela tinha medo, medo de que ele realmente pudesse não estar mais ali. Girou a maçaneta temerosa e empurrou a porta de leve com as pontas dos dedos. A porta estalou, as luzes estavam apagadas, com a claridade vinda do lado de fora ela pôde ver parte da sala. Nenhum móvel. Nada. Nenhum cheiro, nenhum vestígio, nenhum vulto... Nenhum nada. Ele fora embora. Para sempre desta vez.O tempo passou, ela nunca mais se entregara de coração a um rapaz, só de corpo, sem alma. E a moça agora tem um cigarro entre os lábios, um hálito de álcool, um isqueiro no bolso e um coração com nada. Ela tem uma grande capacidade intelectual, até se preocupa em terminar seu curso, mas fora isso se preocupa com nada. Tem uma cabeça fria, um pensamento calculista, uma língua afiada entre os dentes, um saquinho de pó e pílulas brancas dentro do sutien, litros de veneno escorrendo-lhe a boca, uma dúzia de camisas xadrez desbotadas, alguns pares de tênis surrados, uns jeans rasgados, uma faculdade no início, e um coração com nada. Onde deveria estar o amor ela só tinha nada. Em sua alma, ela possuía nada.Encontraram se ao acaso anos depois. Ele sentia saudades, disse oi. Ela o olhou de cima a baixo enquanto tragava o cigarro em seus dedos, deixou a fumaça sair pelo nariz, passou reto e disse nada. Não o tinha que fazer.
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