Nabelle
1 Capítulo 1
O ritmado gotejar da chuva na calha em cima da janela de correr, embaçada e trilhada por gotas que escorrem seus percursos, vezes ou outras embolando-se umas nas outras, zanga a menina chorosa enrolada com cobertores na cama de solteiro.
A visão de pingos lentos, não rápidos o suficientes para terminar a decida até o final do vidro torturam-na, os trovões se tornam agonizantes ao seu ouvido. Os barulhos dos farfalhar das folhas soam como um monstro, que anda descansadamente em direção à sua presa. Ele anda de vagar, pois sabe que o coitado está totalmente encurralado, não há saída, não tem esperança, a batalha está ganha. Não há pressa, as folhas apenas sacodem: ele é o vencedor, e a garota encolhida na cama sabe disso. Sabe que não tem lugar a qual fugir, não existe lugares possíveis para se esconder. Não existe mais nada, não há nada mais a se fazer, para reverte a situação. Nada mais existe.
A jovem encolhe-se ainda mais em sua cama, como uma bola. Um feixe de luz transpassa por sua janela, a menina suada esconde a cabeça debaixo do travesseiro, escondendo-se no amontoado de cobertas. Sabia que em seguida viria o estrondo do trovão.
“um... dois... três... quatro...” entoou fracamente a jovem, a casa sacudiu, seu pescoço arrepiou-se, o coração deu um solavanco e sua respiração se intensificou. Com um pulo, levantou-se de seu ninho, seu amontoado de edredons. Seu forte já não estava mais surtindo o efeito desejado, estava se sentindo exposta. As paredes estavam a observando e ela sentia. As cortinas, só esperando o momento certo para embolar em seu pescoço e sufoca-la até a morte. Não, ela não poderia mais ficar ali, ela não podia. Já estava correndo, tropeçar no carpete na saída do seu quarto não foi o suficiente pra para-la. Ela não podia parar. Continuou em seu estupor momentâneo, continuou correndo.
Desceu as escadas em dois degraus de cada vez, não se permitiu parar para recobrar o fôlego. Estava agoniada, sufocada, precisava respirar, e dentro daquela prisão de concretos e tijolos, só iria asfixiar até a morte. Outro lampejo, outro trovão. O vento ricocheteava nas janelas, era como uma risada. Parecia que os deuses estavam entretendo-se com seu surto, como se tivessem caçoando da sua fraqueza. Porque ela realmente era fraca. Um incentivo a não parar.
Outro tropeçar, dessa vez no sofá de três lugares da sala. O escuro não a deixava enxergar, era noite, madrugada, o amanhecer ainda estava distante, a pouca luz do ambiente era as que emanavam das frestas das janelas vinda dos postes da rua deserta e alagada. Cruzou a imensa sala como um furacão, tropeçou numa terceira vez no aparador do corredor levando um jarro de porcelana ao chão. Não se importou, aliás, nada daquele lugar a importava, nem ninguém. Outro incentivo a não parar.
Chegou ao Hal de entrada, jogou-se em direção da porta. Trancada. Nenhum sinal da chave, eles não cometeriam o mesmo erro pela terceira vez, a segunda já havia sido burrice. Pessoas normalmente trancam as portas à noite, para impedir que alguém de fora entre, mas na sua situação, prenderam para que ninguém dentro daquela insuportável casa saísse, ou melhor, que ela saísse.
Estava presa. Seu pequenino corpo não era páreo para a grande porta de Mogno, era impossível arromba-la. As janelas eram pesadas demais para levantar, ela já havia tentado abri-las muitas vezes sem sucesso. Trocaram novamente as fechaduras da porta para aprisiona-la, já que as outras não surtiram os efeitos esperados.
Os trovões já haviam cessado, mas a sensação de sufocação ainda estava ali, sentia-a do seu lado, como se algo apertasse seu pescoço, querendo mata-la, tentando expelir cada gota, cada lufada de ar de seu pulmão. As mãos arranhavam seu pescoço, aquelas mãos tentavam mata-la. Mas... Eram as suas próprias mãos.
Jogou o corpo em direção da porta. Sabia que era inútil. Era totalmente inútil. Ela era inútil, um ser desprezível. Jogou-se novamente. O barulho era alto, não se importou. Bateu novamente seu ombro contra a porta. Ela já latejava. Totalmente dolorida. Não ligou. Nada ligava, repetiu ela o seu mantra.
Começou a berrar. Gritava, como se tudo dependesse disso, e nem percebeu o quanto isso era estúpido. Um berro terrível, como o de um animal perdendo a vida. Mas ela já não há tinha... Não tinha nem mesmo alma, e o que restou estava á deixando devagar, sendo puxado pela sua boca lentamente por seus monstros. Seu corpo se chocou com a porta novamente. Gritou.
Barulhos apressados soaram no andar de cima. Passos apressados vieram da escada, na sua direção, para pegá-la, como pegavam todas as noites, nas suas fugas falhas. Ela já estava chorando. A franja colada na bochecha... Se for pelo suor ou pelas lágrimas ela não sabia responder, estava entretida de mais em seus berros, e investidas inúteis à porta de saída. Eles não poderiam pegá-la agora, ela precisava respirar. Os passos estavam mais perto. Eram devagar, não precisavam correr, eles sabiam que não tinha para onde ela correr.
Desesperou-se, batia com os punhos fechados na porta, ela não queriam dormir, e é o que farão quando alcançá-la... E eles já estavam atrás dela. Ela não queria que eles a tocassem, e empurrassem aquilo na sua veia, dopando-a. Ela não queria dormir, nem mesmo ficar calma. A unica coisa que a jovem desejava, com todo coração, era a liberdade, ela não precisava de cuidados, e não gostava dos mesmos, não era um animal, diferente do que todos achavam. Diferente do que ela mesma muitas vezes pensava.
Prensou seu corpo contra porta, numa desesperada tentativa de deixar mais espaço entre ela, e aquela repulsiva agulha. Mas era inútil. Passos macios calçados de pantufas vinha na sua direção. A mulher com a seringa se adiantou, a jovem se encolheu, não queria escuridão, a escuridão a assustava. Se bem que ela não tinha medo do escuro, até gostava dele, o escuro em si era bom, mas, o fato de não saber o que há nele é o que a aterrorizava.
A mulher de roupão já estava na sua frente. Não tinha mais como se fundir na porta, pois se tivesse já teria entrado sem pestanejar. A velha macilenta olhou-a com repulsa, alias quem não sentiria desprezo por ela? Ela era desprezível. Desprezível e inútil.
Uma picada tocou seu braço, sentiu-a penetrando na sua carne. Aquilo doía, não gostava da dor, nenhum tipo de dor. Suas pernas magras e finas se curvaram bambas e fraquejando dentro da sua larga calça de moletom esfarrapada. Sentiu sua mente se fechando e aos poucos, apoiada na porta, sentia um olhar recaído sobre ela, a escuridão, e seus olhos semicerrados pela droga a impediu de ver as feições da senhora curvada em sua frente, mas sabia que ali, naquele rosto enrugado e macilento, um olhar de pena fuzilava-a.
Ela não queria o sentimento de pena sobre ela. Não queria dormir, os sonhos a assustavam. Não queria a escuridão, os monstros estavam ali, à espreita, prontos para atacar em qualquer indício de fraqueza. Não queria cuidados. Ela não era louca.
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