Na-ta-sha
1 Capítulo unico
Uma de suas carteiras de indentidade informava que ela tinha dezessete anos, apesar da segunda indicar que tivesse vinte e três. Os pares de sapatos estavam distantes, um enrolado em sua calcinha vermelha, outro deitado no carpete aveludado, com o salto fino de quinze centímetros apontado para o espelho no teto. Perto da cama notas de dinheiro molhadas com bebida, fazendo contraste com as diversas garrafas de vidro espalhadas pelo comodo. Ela havia mesmo acreditado que sua partida seria mais fácil. De fato lhe faltou coragem para girar a maçaneta, os olhos azuis se encheram de lágrimas, e faltou ar para encher os pulmões, mas ela finalmente deixou tudo para trás, a familia, o namorado, e Ana Paula, ah, Ana Paula! Ana Paula estava morta! Talvez ela já estivesse morta à anos, mas só agora reuniu coragem para enterrar seus velhos hábitos, jogou fora os tênis, calcou o salto mais alto que encontrou, agora veria o mundo do alto. Encontrou também uma saia curta, preta, de borracha, que agora encontrava-se jogada ao chão, já que, aquela que não era mais Ana Paula estava nua sobre a cama redonda de um motel vagabundo. O corpo sem duvidas era de Ana Paula, pele branca arrepiada, marcas de unhas nas costas, cicatrizes nos braços, cabelo longo e negro, com alguns fios verdes, ela era um crime a ser desvendado, um pecado. Aquela que um dia fora conhecida pelo velho nome levantou, arrastando-se para o banheiro. Sorriu ao se olhar no espelho, um sorriso triste, tocou seu próprio rosto com seus dedos manchados pela nicotina, e chorou, chorou porque não era ela, não era Ana Paula, então não podia confessar seus crimes. Os olhos eram os mesmos, mas Ana Paula com certeza não morava mais ali.
O estranho acordou, com seu sorriso malicioso e olhar atento.
- Como se chama? — Perguntou, confirmando seu estado de noite passada.
Ela encarou as paredes, como se procurasse a resposta. Não era Ana Paula, como sua mãe sempre implicava, não era Aninha, como chamava-a seu pai, muito menos era ''minha Ana'' como Ele a chamava. Encontrou sua identidade falsa, e finalmente respondeu:
- Natasha.
Natasha agora era só Natasha. Mas como deixara de ser Ana?
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