Na sombra do deserto

3 Cap 3 " O Engano "


Já fazia uma semana que John estava em Armadillo. Era estranho pra ele permanecer tanto tempo no mesmo lugar, se acostumando com sua casa nova. Era uma casinha pequena, simples, apenas com uma cama e um baú onde ele guardava suas roupas.

John estava sentado no chão escorado com as costas em Gallion, o cavalo que ganhara do sr. McFaden, que estava deitado dormindo.

John fumava um cigarro enquanto olhava as estrelas, pensando em tudo que estava acontecendo. Não estava acostumado com essa paz e essa vida pacata. Porém, gostava daquilo de certa forma; podia dormir tranquilo, pois sabia que iria acordar no outro dia. Por outro lado, estava ficando acomodado e já fazia tempo que não cavalgava em velocidade, que não dava um tiro, estava ficando destreinado.

Seus pensamentos foram interrompidos pelos gritos de Bonnie.

– Sr. Marston!

– O que houve, senhorita McFaden?

– O galinheiro está sendo atacado por um bando de coiotes. Eles já vem matando e roubando nossas galinhas há um certo tempo, mas sabe como é, o Clayde que toma conta do rancho...

– Entendi.

–Vamos, rápido!

E os dois correram para o galinheiro. As galinhas cacarejavam como loucas. De repente, o primeiro coiote sai do galinheiro, segurando com uma galinha já morta pelo pescoço, quando avista John O animal dispara, mas antes de conseguir dar mais que três passos... BANG!

John dá um tiro certeiro na cabeça do animal, o que assusta os outros três coiotes que ainda estavam dentro do galinheiro. Cada um corre pra um lado, todos levando seu “lanche” pela boca. BANG!... E mais um coiote abatido com um tiro na cabeça. O terceiro corre pra dentro do sítio, fugindo das vistas de John. O quarto coiote estava quase chegando na mata que fazia divisa com o rancho.

BANG!

BANG!

O primeiro tiro acertou a galinha que estava na boca do coiote, o segundo pegou no pescoço abatendo o animal.

Pá!pá!pá!

Três tiros vieram do rancho. John e Bonnie correram em direção ao barulho do tiros. Logo que se aproximaram do celeiro avistaram Clayde com um revolver na mão, e o último coiote abatido.

– Matei o danado – disse Clayde, com um sorriso banquelo de felicidade.

– Muito bem, Sr. Clayde – disse Bonnie, parabenizando o feito.

John apenas acenou com a cabeça e deu um sorriso discreto, voltando para onde estava sentado.

Suzy tinha acordado com o barulho dos tiros. John acalmou o animal, até que a égua se deitasse novamente.

Ele se sentou, escorou as costas em Suzy, quando Bonnie apareceu como mágica na sua frente.

– Muito obrigado novamente, Sr. Marston.

– Sempre que precisar pode contar comigo senhorita McFaden.

– Tome este vinho, como agradecimento.

– Obrigado, mas não tomo vinho. Não sozinho. – e sorriu para Bonnie.

– Eu não bebo, Sr. Marston.

– Tudo bem, só me faça companhia.

– Está bem, mas só um pouco. Meu pai não gosta que eu fique fora de casa à noite, sabe somos só nós dois...

– Entendo.

– E você tem alguém?

– Como assim?

– Alguém, pai, mãe, esposa, filhos....

– Ah! Não tenho não, senhorita McFaden.

– Pode me chamar de Bonnie se quiser Sr, Marston.

– Só se você me chamar de John.

– Combinado – ela sorrir para John.

John abre o vinho e toma no gargalo. Bonnie olha e diz:

– John porque não pega um taça para o vinho.

– Taça são pra brindar. Você não está tomando, não preciso.

– É uma forma diferente de pensar, mas até que faz sentido.

– Agora , se você mudar de ideia, posso pega duas taças..

– Não Sr. Marston, obrigado mas já disse que não bebo.

– John, tínhamos combinado.

– Ok, John... Preciso ir. Meu pai já deve estar doido lá dentro.

E se retirou sem dar tempo pra John insistir que ficasse. Ele ficou olhando Bonnie ir. Antes de entrar em casa, ela dá uma última olhada para John e um pequeno sorriso.

John se aconchega ainda mais nas costas de Suzy, que dormia profundamente.

– Bom dia, John.

– Bom dia, Carl. Mandou me chamar?

– Sim, preciso que você entregue uns remédios para o Dr. Houston em West Farm.

– Pode deixar comigo

– Vá com a minha carroça,. Ela esta lá fora, pronta para sair.

John pega seu chapéu da mesa do bar e sai pela porta. Como Carl havia dito, a carroça estava pronta em frente ao bar.

– Heya!- John partiu com a carroça, enquanto Bonnie o espiava pela janela de sua casa.

O caminho até West Farm não era longo, mas era conhecido por ser perigoso. Talvez fosse esse o motivo que Carl tenha pedido sua ajuda.

Ele estava passando pelo deserto, numa região onde haviam muitos cactos. Foi quando saíram de trás dos cactos três homens armados.

John parou a carroça. O primeiro sujeito segurava uma corda, o segundo e o terceiro seguravam uma espingarda cada um.

John largou a rédea...

BANG! BANG!

John acertou os dois sujeitos com espingarda, um na cabeça e outro no peito, abatendo os dois armados do trio. O sujeito com corda conseguiu se esconder atrás de um cacto alto.

Quando a cabeça de Suzy aparece próximo ao cacto...BANG!

O sujeito aparece e atira, mirando em quem estava montado, mas John não estava mais em Suzy.

BANG!

John estava atrás dele e com um tiro a queima roupa, explode a cabeça do sujeito.

John revista os corpos pegando algumas moedas e algumas balas de reserva. Pegou uma das espingardas e as balas da outra, guardou tudo na carroça e seguiu viagem.

Chegando em West Farm, John perguntou ao primeiro sujeito que viu.

– Onde fica o hospital?

– Estrada de pedra, terceira à direita. Toque o sino perto da porteira, mas forte, senão eles não vão ouvir.

– Muito obrigado!

– Disponha.

John seguiu todas as instruções do simpático caipira, até a de esmurrar o sino, pois de certa forma demoram pra abrir a porteira.

Depois de realizar a entrega, John até ganhou uma recompensa pela entrega, em dinheiro e também ganhou uma veste do Sr. Houston.

Terno completo, cinza claro, elegante, mas John não imagina uma ocasião para usar tal vestimenta; porém, aceita de bom grado.

Ao sair do hospital, avista uma carroça grande e escura que estava parada. Haviam mais seis homens a cavalo, todos com espingarda em punho.

De dentro da carroça, saiu um sujeito grandalhão, loiro, usava um sapato marrom, longas meias brancas que passavam até a altura dos joelhos cobrindo parte de sua calça marrom, seu colete bege da mesma cor que seu chapéu e uma estrela presa ao peito.

– Mãos para cima, forasteiro!

– Como?

– Mãos para cima!

E todos os caras mal encarados apontaram para John.

Ele ergueu os braços. Quatro dos rapazes desceram do cavalo e se aproximaram de John, o primeiro chegou perto, tirou a bandoleira com a arma, tirou o chapéu de John e segurou os braços de John atrás de suas costas.

O segundo que se aproximou com um corda grossa enrolada na diagonal em seu peito. Ele a usou para amarrar John e os dois o levaram pra dentro da carroça.

Na delegacia havia um sujeito dormindo na cadeira, com o pés em cima da mesa.

Estava vestindo um casacão azul marinho, uma calça preta e sapatos pretos.

– AHAM! – pigarreou o policial que acabava de chegar.

O outro sujeito acordou com um pulo. Depois que retomou a consciência, arrumou a postura, pegou seu chapéu preto que havia caído enquanto dormia e perguntou:

– Quem é o meliante?

– Ladrão de cavalo, que roubou o Sr. McFaden.

– Não roubei ninguém, sou conhecido do Sr. McFaden – rapidamente John responde com uma certa raiva.

– Cale-se bandidinho! Muito bem, Sr. Timothy jogue ele em uma cela vazia.

– Sim senhor – e com um gesto com a cabeça, ordenou aos capatazes o jogarem, literalmente, em uma cela.

– Podem se retirar, menos você Sr. Timothy. Preciso que fique aqui, pois tenho que sair e não podemos deixar a cadeia vazia.

– Sim, senhor.

E os rapazes deixam o local. O policial entra na porta onde está a placa de banheiro, enquanto Timothy senta em seu lugar na mesa da cadeia.

Poucos minutos mais tarde,o policial sai arrumado e penteado.

– Vai se encontrar com alguém, capitão?

– Não te interessa, Timothy.

– Hum... mas se o xerife aparecer ou o Sr. McFaden?

– Diga que fui interrogar uma testemunha.

– Testemunha de que?

– Quanta pergunta, saco!

– São perguntas que o xerife faria...

– Vou falar com a senhorita McFaden que prendemos o bandido que roubou a carroça dela...

– Entendi. Assim ela pensa que foi o senhor que prendeu...

– Isso...

– Tudo bem, capitão, se perguntarem eu falo que foi o senhor que achou o meliante.

– Te recompenso, depois Timothy – e deu uma piscada para ele saindo da delegacia.

– Ow, pssiuuu! – John chamava Timothy de dentro da cela.

– Cale a boca.

– Seu chefe vai se dar mal...

– Já disse, cale a boca...

– E vai ser culpa sua...

– Como assim? O que você está querendo?

– Como eu já disse, sou amigo da família McFaden. Se você me soltar e pedir desculpas pelo engano, prometo não contar nada para o Sr. McFaden.

– Hahaha, você é muito abusado. Acha que eu sou idiota?

– De certa forma...

– Que?!

– Estou querendo te ajudar. Seu chefe vai falar com a família, alguém vai vir me identifica certo?!

– Certo.

– Ai vão ver que você me prendeu, e vão confirmar quem eu sou, e a policia de West Farm vai ficar mal falada...

– Você acha que eu vou cair nessa? Deveria te dar outro tapa pela babaquice que acaba de contar.

– Por que não tenta, agora sem seus “macacos de circo”? – John olha no fundo dos olhos de Timothy, deixando o completamente apavorado. Ele se cala abaixa a cabeça e se vira de costas para cela onde John estava e começa a fingir que lê um jornal.

Depois de algumas horas cavalgando até Armadillo, o policial finalmente chega ao rancho McFaden.

– Boa Tarde!

– Boa Tarde

– O Sr. McFaden se encontra?

– Se encontra não senhor. Qual sua graça, moço?

– Delegado Anthony Smithers, ao seu despor.

– “Gradecido”. Eu sou Clayde. Cuido do rancho dos McFaden, aconteceu algo com meu patrão?

– Não, que eu saiba não.

– Então o que o senhor venho fazer aqui? Seria só com o patrão? posso dar recado, tenho memoria boa.

– Apenas vim informar que prendemos o ladrão que roubou a carroça do seu patrão.

– Que “bão“ rapaz. O patrão não está mas eu deixo o recado, assim que ele pisá no sitio dou a noticia pra ele.

– Muito obrigado, senhor....

– Clayde. E num sou senhor, sou caseiro do rancho.

– Até breve.

– “Inté ”.

Na manha seguinte, bem cedo na delegacia, Bonnie entra “espumando” de raiva e pergunta a Timothy, que está dormindo de boca aberto segurando um sanduiche nas mãos.

– Bom dia, policial – Bonnie fala, que continua cochilando.

– Bom dia, policial....- Agora Bonnie fala um pouco mais alto e com um pouco mais de raiva.

– BOM DIA, SENHOR POLICIAL – Com um tapa violento na mesa ela acorda o policial.

– Parado em nome da Lei! – Exclama Timothy, acordando de sobressalto e se desequilibra caindo da cadeira. Rapidamente ele arruma a cadeira, se arruma.

– Bom dia, senhorita McFaden – e esconde o sanduiche que tinha ficado em cima da mesa.

– Bom dia, policial. Gostaria de ver o bandido que roubou a carroça de meu pai.

– Sinto muito, senhorita McFaden, mas o só o delegado possui a chave da celas e ele ainda não chegou.

– Ele vai demorar?

– Eu acho que não, ele chega cedo...

Nesse exato momento, Smithers entra pela porta da delegacia.

– Bom dia, Timothy... Bom dia, senhorita McFaden.

– Que bom que você chegou, quero ver o homem que você prendeu ontem.

– Bom dia... – Timothy falou timidamente.

– Sr. Clayde lhe deu o recado, pelo que vejo.

– Sim, falou pro meu pai ontem na hora do jantar, e ele mandou que eu viesse aqui.

– Agora está tudo sobre controle, a carroça está em nossa garagem, as armas que estavam com ele e as armas que estavam na carroça foram aprendidas por mim, e o individuo se encontra nas celas lá do porão. Timothy, chame dois guardas pra te ajudar e traga o sujeito para a cela de interrogatório.

– Sim, senhor.

– Posso lhe oferecer um café?

– Não, obrigada! Mas e os remédios da carroça?

– Não havia remédio nenhum, apenas uma espingarda, munição e dinheiro.

– Como não havia remédio? Posso usar seu telefone?

– Claro, por aqui — e levou Bonnie até a sala onde ficava o telefone.

O telefone era novo, bonito, estava preso à parede. Era grande, tinha o tamanho de metade do corpo de Bonnie, todo de madeira, com o bocal e o fone pretos, o fio que levava o bocal era dourado enquanto o que levava o fone era preto.

Enquanto Bonnie ligava na outra sala, Timothy e os guardas chegaram com o preso na sala de interrogatório.

– Onde o senhor recuperou a carroça? – pergunta Bonnie ao policial.

– Na frente do hospital da cidade, senhorita McFaden.

– Posso ver o sujeito?

– Claro! — E apontou para cela que John estava sentado

– Foi o senhor quem fez a prisão? – perguntou Bonnie, de forma bem delicada.

– Exatamente – disse Timothy, tomando a frente na conversa – ele não só identificou a carroça, como fez toda a prisão, inclusive ele próprio que amarrou e trouxe o bandido e o jogou na cela.

– Fez tudo isso?

– Sim... sozinho nós apenas ficamos observando como ele agia...

– Hum...que bom saber que ele fez tudo sozinho....

PAF! Bonnie deu um tapão na cara de Smithers.

– Seu imbecil! Esse homem é John Marston. Ele salvou a vida do rancho de meu pai umas três vezes, no mínimo. Agora solte já esse homem.

– Podem soltar ele – Smithers ordenou Timothy, enquanto esfregava a mão em seu rosto, que estava com as marcas dos dedos de Bonnie.

– Mas como eu ia saber que ele não era uma bandido?

– Alguém fez alguma queixa de roubo?

– Não...

– Pois então...

– Achei que um sujeito mal encarado na carroça do seu pai....

– Mas e o dinheiro com ele?

– Era para pagar a entrega que ele fez, ele iria trazer pro meu pai.

– E a espingarda que achamos dentro da carroça.

Nesse momento, Dr. Houston entrou na delegacia.

– Ele pegou os bandidos que tentaram roubar a carroça no deserto, ele até me perguntou onde era a delegacia para deixar a espingarda.

– Mas eu achei....

– O senhor não é pago pra achar nada...

– Sim, senhora!

– Senhorita...

– Sim ,senhorita.

– Meu pai vai ficar uma fera quando eu contar tudo isso.

– Por favor...

– O que? Você acha que ele me manda vir aqui, por que roubaram a nossa carroça, o Sr. Marston fica uma noite preso, e eu não vou falar nada?...

– Por favor, senhorita McFaden....

– Foi apenas um engano – John interferiu na discussão – Está tudo bem, senhorita McFaden. Eles apenas se confundiram, não precisamos preocupar seu pai com essa besteira.

John olhou para Smithers, que respondeu com um sinal com a cabeça.

Do lado de fora da delegacia, depois de tudo resolvido, Dr. Houston montou em seu cavalo e partiu para o hospital. John depois de recuperar sua arma e seu chapéu, montou na garupa de Bonnie e seguiram rumo a Armadillo.