Na sombra
1 Na sombra
A casa ficava longe demais de qualquer lugar.
Foi a primeira coisa que pensei quando meu irmão desligou o carro e eu olhei pela janela.
Não havia nenhuma outra casa à vista. Nenhum poste. Nenhuma estrada asfaltada. Apenas a estrada de terra pela qual tínhamos passado nos últimos quarenta minutos, cercada por árvores altas e tão fechadas que, em alguns pontos, parecia que estávamos atravessando um túnel.
— Você tem certeza de que é aqui? — perguntei.
Meu irmão desligou o motor.
— Tenho.
— Porque, se você roubou um carro e está me levando para me matar, eu gostaria de saber agora.
No banco de trás, Marina soltou uma risada.
— Olha o drama. A floresta é linda. A casa é enorme. Vai ser um fim de semana ótimo.
— Não estou fazendo drama. Eu só acho que uma casa isolada no meio do mato é o cenário exato onde alguém encontra uma fotografia em preto e branco de uma criança que morreu em 1920.
Abri a porta e saí.
A casa pertencia à família de Luísa, amiga do meu irmão. Segundo ela, estava na família havia mais de cinquenta anos, usada pelos avós durante as férias antes de todo mundo preferir praia, hotel e lugares com sinal de celular.
Era uma construção imponente, de dois andares, com paredes claras já manchadas pela umidade e grandes janelas de madeira. Uma varanda comprida contornava a frente, e um jardim abandonado tomava conta do gramado. Uma árvore enorme crescia tão perto da parede lateral que seus galhos raspavam nas telhas a cada rajada de vento, produzindo um som seco, como unhas num quadro-negro.
— Você podia ter mencionado que isso aqui parecia assombrado — ouvi Pedro falar para Luísa, que saía do carro estacionado ao nosso lado com Rafael e Caio.
— E estragar a surpresa? — ela sorriu, pegando as malas.
— Toda casa dessas tem pelo menos um fantasma — comentou Caio, ajustando os óculos.
— Se tiver, ele não está pagando o aluguel — devolveu Luísa.
Entramos.
Por dentro, a casa parecia ainda maior. O teto da sala era alto, a escada de madeira rangia a cada passo e os móveis antigos estavam cobertos por lençóis brancos que pareciam fantasmas parados no escuro. O ar tinha aquele cheiro denso de madeira velha, poeira e mofo acumulado por anos de portas fechadas.
Passamos a tarde organizando as coisas da forma como qualquer grupo de universitários faria. Bebemos, comemos e brigamos pelos melhores quartos. Pedro e eu quase saímos no soco por causa da única cama de casal do segundo andar, até que Bianca, namorada do Rafael, ameaçou expulsar os dois para o sofá. Caio tentou fazer uma fogueira no quintal e quase incendiou um arbusto, o que arrancou risadas de Marina enquanto ela embaralhava um maço de cartas velhas que encontrara na estante.
Mas, quando a noite caiu de vez e o vento lá fora começou a uivar entre as árvores, ninguém mais quis saber de ir para o quintal.
Estávamos todos agrupados na sala. Apenas o clarão alaranjado da lareira iluminava nossos rostos, projetando sombras longas e dançantes nas paredes de madeira.
Foi Luísa quem sugeriu:
— Vamos contar histórias de terror.
Eu ri, ajeitando o casaco no corpo.
— Você está falando sério?
— Qual é o problema? Tá com medo?
— Terror?
— Histórias de terror sobre Pokémon.
— Isso é ainda pior.
Luísa apontou para mim.
— Você não acredita em nada.
— Claro que não.
— Nem em Pokémon fantasmas?
— Principalmente nesses.
Caio se debruçou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu tenho uma.
Ninguém se opôs. A luz da lareira estalou, e ele começou:
— Meu primo tinha um amigo que morava perto de uma reserva florestal. Um dia, ele entrou lá sozinho e viu um Drifloon parado no meio do caminho. Sozinho. O garoto achou bonito e chegou perto... O Drifloon estendeu a mão.
Caio baixou a voz, fazendo todos na sala se inclinarem involuntariamente para ouvir.
— O garoto segurou. Começou a andar com o Pokémon sem perceber para onde ia. Só deu conta de que estava perdido quando olhou para trás e não viu mais a estrada. Tentou soltar a mão, mas não conseguiu. Quanto mais puxava, mais a fita do Drifloon se enrolava no pulso dele. Foi quando ouviu a voz da mãe chamando por ele do meio da mata fechada…
— A mãe dele estava lá? — perguntou Marina, baixinho.
— Não. A mãe estava em casa. Mas a voz chamava o nome dele do fundo dos arbustos. O garoto entrou em pânico, puxou com toda a força, a fita rasgou e ele correu desesperado até achar a estrada de volta. Quando chegou em casa, a mãe estava na varanda chorando.
Caio fez uma pausa dramática.
— Ela perguntou onde ele tinha estado. Ele disse que se perdera por algumas horas. A mãe olhou para ele, pálida, e perguntou do que ele estava falando... Ele tinha desaparecido havia cinco dias.
Não precisei dizer que aquela parte vinha diretamente das histórias sobre Drifloon. A Pokédex já falava de crianças levadas por eles. Caio só tinha acrescentado uma floresta, uma mãe chamando pelo filho e cinco dias que ninguém conseguia explicar.
Ainda assim, fiquei pensando na voz.
Depois foi Bianca.
Sua história era sobre uma mulher que vivia sozinha em uma região montanhosa. Durante o inverno, homens começaram a desaparecer nas redondezas. Sempre que alguém sumia, a mulher encontrava pegadas na neve levando para dentro da floresta.
Até que uma equipe de resgate chegou à região durante uma nevasca e encontrou um chalé abandonado.
Antes de arrombarem a porta, o growlithe farejador se recusou a entrar. Ficou parado na neve, rosnando pra dentro da casa. Ninguém conseguiu fazer ele avançar.
Entraram sem ele.
Deram de cara com uma Froslass de quimono branco.
Quando as lanternas iluminaram o fundo do cômodo, viram que ali havia sete homens congelados.
Todos estavam de pé.
Todos sorriam.
A história terminou ali.
Marina foi a próxima.
Em uma cidade pequena, crianças começaram a desaparecer. Algumas voltavam depois de horas. Outras, depois de dias.
Todas diziam a mesma coisa quando perguntavam onde tinham estado.
Não lembravam.
Mas todas desenhavam.
Um pêndulo.
Marina mostrou a imagem de Hypno na sua Pokédex.
— As crianças diziam que tinham visto isso antes de desaparecer.
Marina baixou os olhos.
— Uma das meninas desaparecidas morava no meu bairro. Certa noite a mãe encontrou a filha parada no corredor de casa. A menina estava acordada. Mas não respondia. A mãe chamou seu nome.
Nada.
Então percebeu que a filha estava acompanhando alguma coisa com os olhos.
Uma coisa que se movia de um lado para o outro.
A mãe não conseguia enxergar.
A menina só voltou a falar quando o movimento parou.
— O que você estava olhando? — a mãe perguntou.
A menina respondeu:
— O pokémon.
— Que pokémon?
A menina apontou para trás da mãe.
E começou a chorar.
Marina baixou a Pokédex.
— Depois disso, a menina nunca mais dormiu uma noite inteira.
— E o Hypno? — Caio perguntou.
— Nunca encontraram.
— E as outras crianças?
— Cresceram. Só tinha um problema.
— Qual?
Marina olhou para a lareira.
— Eles nunca mais conseguiram sonhar.
Depois vieram Banette e Mimikyu.
A história de Banette era sobre uma garota que encontrou uma boneca abandonada e levou para casa. Nos primeiros dias, nada aconteceu.
Então começaram os passos. Sempre depois da meia-noite. A garota ouvia alguém andando pelo corredor. Quando abria a porta, não havia ninguém. Os passos paravam.
Ela fechava a porta e começavam novamente.
Até que uma noite decidiu não abrir. Ficou deitada, ouvindo. Os passos vieram do outro lado da casa. Atravessaram o corredor. Pararam diante da porta. E permaneceram ali. Ela ficou esperando que fossem embora.
Não foram.
Na manhã seguinte, encontrou pegadas ao lado da cama.
A história de Mimikyu foi mais curta.
Um treinador encontrou um deles e decidiu descobrir o que havia por baixo do tecido.
Ninguém soube exatamente o que ele viu.
Só que desapareceu depois disso.
Depois disso, as histórias começaram a se misturar.
Pokémon que levavam pessoas.
Pokémon que faziam pessoas dormir.
Pokémon que assumiam formas conhecidas.
Pokémon que apareciam onde não deveriam.
Algumas histórias eram obviamente inventadas. Outras pareciam apenas versões mais elaboradas das entradas da Pokédex.
Eu não acreditava em nenhuma.
Olhei para meu irmão. Reparei que Pedro era o único que não tinha se assustado uma vez sequer. Não se encolheu quando Caio baixou a voz. Não se abalou quando o vento fez os galhos da árvore lá fora baterem contra a janela.
Era só o jeito dele. Pensei. Ele sempre foi assim.
Foi então que ele levantou a mão.
— Eu tenho uma.
Todos olharam para ele.
Meu irmão estava sentado do outro lado da lareira, com os braços apoiados nos joelhos — do jeito que sempre ficava quando ia contar alguma coisa que achava importante. Só que as mãos, que normalmente não paravam quietas enquanto ele falava, ficaram ali o tempo todo. Não se mexeram uma vez.
— Sobre o quê? — perguntou Luísa.
Pedro olhou para mim.
— Gengar.
Eu sorri.
— Claro.
Ele não respondeu.
Ficou me olhando por alguns segundos.
Só depois voltou os olhos para o fogo.
— Nosso avô contava histórias onde Gengar se esconde na sombra das pessoas.
Sua voz estava diferente. Não da forma que eles costumava contar. Só... calma demais. Devagar demais também, como se estivesse escolhendo cada palavra antes de soltar.
— E que, quando alguém sente um frio repentino sem motivo, é porque ele está perto.
Nesse momento, uma corrente de ar passou pela sala.
A chama da lareira se inclinou.
Vi as outras meninas apertarem o casaco sobre os ombros.
Eu também senti o frio. Olhei para Pedro.
Ele não parecia sentir nada.
— Mas essa não é a parte mais assustadora.
Ele levantou os olhos.
— Existe uma história de que Gengar pode trocar de lugar com a sombra de uma pessoa.
Marina ficou imóvel.
— Se ele conseguir, a pessoa desaparece.
Pedro olhou para mim.
— E Gengar fica no lugar dela.
— Vivendo a vida dela — completei, me lembrando das antigas histórias do nosso avô.
— Exatamente.
A luz do fogo tremulou na parede atrás dele.
Pedro prosseguiu:
— Não acontece de uma vez.
— Como assim? — perguntou Bianca.
Pedro pensou por um instante.
— Primeiro ele observa.
O fogo iluminava metade de seu rosto.
— Fica perto. Escondido na sombra. Aprende como a pessoa anda, como fala, o que gosta, o que odeia. Aprende a relação dela com as outras pessoas.
Ele olhou para mim.
Senti alguma coisa apertar no meu estômago.
Por um segundo tive a impressão que a sombra dele se agitava na parede.
Pisquei. Quando olhei de novo, ela já parecia completamente normal.
Deve ter sido o fogo se mexendo. Foi o que pensei.
Pedro desviou os olhos.
— Depois começa a copiar.
— Copiar como? — perguntou Marina.
— No começo, mal.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Uma palavra diferente. Uma reação errada. Uma lembrança que não deveria existir.
Pedro descrevia com uma precisão um pouco perturbadora.
— Mas quase ninguém presta atenção nisso — continuou. — Porque sempre existe uma explicação.
Pedro começou a enumerar nos dedos.
— Cansaço. Estresse. Esquecimento. Mudança de humor.
Baixou a mão.
— Pessoas mudam.
A última frase saiu quase como uma conclusão.
Fiquei olhando para ele.
— E depois?
Pedro demorou para responder.
— Depois ninguém sabe mais.
— Não sabe o quê?
Ele olhou para a própria sombra.
A luz da lareira fazia seu contorno se estender pela parede atrás dele.
— Como aquela pessoa era antes.
Pedro ergueu os olhos para mim e sorriu.
Não era o sorriso torto de quando ele ganhava uma discussão. Era um sorriso simétrico demais. Perfeito demais. A luz da lareira refletiu no fundo das suas pupilas, capturando uma faísca avermelhada que sumiu no segundo seguinte.
Senti os pelos do meu pescoço se arrepiarem.
Engoli em seco e tentei rir.
— E a pessoa... simplesmente desaparece?
Pedro não respondeu de imediato. Ficou encarando o contorno da própria sombra desenhada na parede de madeira.
— Não — a resposta saiu tão baixa que se misturou ao estalar das lenhas.
— O que acontece com ela, então?
Ele voltou os olhos para mim. O sorriso se alargou só mais um pouco, esticando os cantos dos lábios além do que parecia natural.
— Essa é a parte que eu mais gosto.
— Você gosta?
Pedro assentiu, devagar.
— Gosto. Porque ninguém percebe.
Ele passou o olhar pela sala, um por um. Por Marina. Por Luísa. Por Caio. Por Bianca. Por Rafael. E então fixou o olhar no meu rosto.
— Ninguém percebe que a pessoa ainda está lá.
O silêncio na sala virou chumbo. Ninguém se mexeu.
— Onde? — a voz de Rafael saiu falhada.
Pedro não piscou. Ele apenas ergueu o indicador e apontou para a parede atrás de si.
— Na sombra.
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