Na realidade de um sonho
1 Capítulo 1
– Idiota – sua mão atingiu fortemente o lado esquerdo do meu rosto. Cambaleei – Da próxima vez, se ousar ao menos pensar em tocar minha namorada de novo, esmago sua cabeça com o extintor de incêndio da biblioteca.
– Kairo seu bastardo! – gritei e avancei em direção a ele. Mas antes que eu pudesse ao menos sair do lugar, senti dois braços envolverem minha cintura e me puxar. Seja lá quem tivera o feito eu o odiava naquele momento. Deveria ter me deixado avançar. Eu estava disposto a dar o troco, não só isso, eu daria o dobro, o triplo se necessário. Ele não tinha o direito de me agredir por eu tentar me aproximar da pessoa que gosto. Ele nem a amava. Porque fazia aquilo? Para permanecer com o seu titulo de durão? Pra mim, ele era só O Babacão.
Me livrei dos braços em meu corpo de uma forma um tanto bruta. Me virei para a pessoa que havia me segurado e quando abri a boca para proferir todos os insultos que me veio na cabeça meus olhos arregalaram-se e meu coração disparou na velocidade de um trote de mil cavalos.
– Ka-Kallen? – gaguejei. Meu tom de voz era quase inaudível.
Minha cabeça girava. Por que Kallen estava ali, próxima a mim? Ela não deveria estar perto de Kairo? Afinal, ele era seu namorado e fora por sua culpa que agora meu olho esquerdo estava roxo. Abri a boca com a intenção proferir qualquer som que deixasse claro que eu definitivamente não entendia o que se passava por ali, mas nada saiu.
Eu a observava. Ela mantinha uma expressão exasperada e por um momento achei que no fundo de seus olhos transmitisse preocupação.
– Eu achava que você não era idiota o suficiente, mas vi que estava enganada... Acho que você deve me agradecer por ter te impedido de levar a maior surra da sua vida – ela abaixou a cabeça balançando negativamente – Acho que quem deveria te dar um soco agora sou eu.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ouvi uma gritaria na direção em que Kairo estava e me virei. Foi o tempo suficiente para que eu visse seu pé acertando meu estômago. Caí de joelhos sobre a grama e cuspi sangue. Por um momento minha visão ficou escura e eu achei que fosse desmaiar.
Me recuperei rápido. Isso não ficaria assim. Me levantei com um pouco de dificuldade limpando o sangue que saiu de minha boca com o peito da mão. Tentei dar um sorriso ameaçador, mas não tenho certeza se fora convincente, aquilo era o melhor que eu pude fazer no momento. Meus punhos se fecharam e eu o lancei com toda a minha força, de baixo para cima em direção ao queixo de Kairo. Ele segurou minha mão e soltou uma gargalhada. Mas antes que eu tivesse tempo de ao menos pensar como ele fizera aquilo, já estava no chão, ele havia me derrubado.
– Cheeeega – Kallen interveio com um berro afastando Kairo de mim – Em que século você vive, cara? Provavelmente deve ter vindo da época das cavernas. Como pude passar todo esse tempo com você? Você me enoja – e cuspiu nele.
– Fiz todo esse esforço por você e é assim que sou retribuído? Você é mesmo uma vadiazinha – a voz de Kairo saiu um tanto irritada. Ele caminhou em minha direção enquanto eu me levantava – E você – aprontou o dedo indicador para mim – ainda temos contas a acertar, seu nerdzinho – e saiu, abrindo caminho na multidão que se juntara em nossa volta.
Kallen voltou-se para mim.
– Olha só pra você, vamos sair daqui, vou cuidar dos seus ferimentos.
– Eu estou bem, sério – menti – só preciso jogar uma água no rosto e colocar meu uniforme, encontro você para irmos para a sala juntos.
Caminhei em direção ao vestiário. Respirei fundo a fim de organizar meus pensamentos. Eu havia levado uma surra de Kairo, mas minha recompensa seria a pessoa que venho amando de todas as maneiras possíveis desde o sétimo ano? Então acho que os fins justificam os meios, valeu a pena o olho roxo e algumas costelas trincadas.
Adentrei o vestiário e me dirigi a uma das pias no canto direito do ambiente mal iluminado. Lavei o rosto e a boca retirando todos os vestígios de sangue que ainda havia ali. Ouvi passos em minha direção mas continuei como estava, afinal, vários estudantes entravam no vestiário o tempo inteiro e eu não podia me permitir ficar paranoico com relação ao idiota do Kairo.
Mas antes que eu pudesse concluir meus pensamentos uma mão me virou me puxando e logo em seguida me empurrando. Senti minhas costas se chocando contra os armários de alumínio, e vi Kairo me pressionando contra o mesmo.
Fiz esforço para me soltar. Em vão.
– Eu disse que tínhamos contas pra acertar, boneca – falou tão próximo que pude sentir seu hálito.
Mais uma vez me mexi, mesmo sabendo que não poderia sair dali a menos que ele deixasse.
–Você já se vingou de mim do seu jeito estúpido, que tal agora tentarmos do meu jeito? A não ser que você ache que não é capaz de vencer a boneca nerd aqui em uma competição de Kendo – levantei uma das sobrancelhas desafiando-o – E quem vencer deixará o outro em paz... pra sempre – sorri sabendo que ele era orgulhoso demais para recusar.
Ele aproximou seus lábios do meu ouvido.
– Não vejo a hora de acabar com esse restinho de autoestima que você ainda tem – sorriu de canto.
Senti uma brisa gelada percorrer toda a minha espinha mesmo ali sendo um local abafado. Ele estava muito próximo. Podia sentir o cheiro de suor se fundindo com seu perfume de hortelã. Os pelos da minha nuca se eriçaram. Eu estava mesmo naquela situação com a pessoa que mais odiava? Empurrei-o com toda minha força fazendo com ele cambaleasse e então escapei me afastando.
– Hoje, nove da noite – falei – a escola vai estar vazia e poderei até te matar sem que ninguém interrompa – soltei um sorriso desafiador e sai caminhando o mais rápido que pude em direção a saída do vestiário.
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